outubro 14, 2003

Definir-me, seria limitar-me, e a minha força não tem limites (Fala a Loucura)

A Cabeça de MidasDe mim não esperem, nem definições, nem frases declamatórias. Nada pareceria mais deslocado. Definir-me, seria limitar-me, e a minha força não tem limites. Dividir-me, seria distinguir os diferentes cultos que me prestam, e eu sou igualmente adorada por toda a Terra. E, além disso, de que servina dar-vos com uma definição, um retrato ideal de mim própria, que não se pareceria mais comigo do que a minha própria sombra, visto que na vossa presença tendes o original? Sou, portanto, como vedes, a verdadeira doadora de bens*, essa Loucura a que os latinos chamavam Stultitia e os gregos Mona Mas haverá necessidade de o proclamar? A minha fisionomia não me torna assaz conhecida? e houvesse alguém que quisesse sustentar que eu era Minerva ou a Deusa da Sabedoria, teria necessidade de lhe pôr a nu a minha alma, com os meus discursos? Não lhe bastaria olhar-me, um instante só que fosse, para se convencer do contrário? Em mim, não pode haver nem arrebiques, nem dissimulações, e nunca o meu rosto traduz um sentimento que eu não traga no coração. Enfim, sou de tal modo semelhante a mim própria, que ninguém me saberia ocultar, nem mesmo os que pretendem representar o papel de doutos e que mais desejam passar por tal. Apesar de todos os seus esgares, parecem-se com macacos revestidos de púrpura, ou com burros cobertos com a pele do leão. Bem podem disfarçar-se, haverá sempre um pedacinho da orelha que revelará, por fim, a cabeça de Midas.
Para dizer a verdade, esta espécie de homens é muito ingrata para comigo. São os mais fiéis dos meus súbditos, e, no entanto, tem tanta vergonha de em público usarem o meu nome, que chegam a censurar os outros, como se fora uma desonra ou uma infâmia. Mas estes loucos varridos, que querem que os julguem tão prudentes como Tales, não merecem que lhes chamem Morósofos, isto é, ajuizados-loucos? Porque desta vez irei imitar aqui os retóricos da nossa época, que se julgam pequenos deuses, e, tal como a sanguessuga**, servem-se das suas línguas, concordando que é maravilhoso intercalar, a torto e a direito, num discurso latino, certas palavras gregas que o tornam de todo enigmático. Se não conhecem nenhuma língua estrangeira, arrancam, de qualquer livro bolorento, quatro ou cinco palavrões velhos com que espantam o leitor. Os que os compreendem, lisonjeiam-se de encontrar um motivo de deleite com a sua própria erudição; e quanto mais ininteligíveis parecem, os que os não compreendem mais admirados ficam. Porque é um pequeno prazer, para os meus amigos, admirar muito as coisas que lhes são inacessíveis. Se entre os últimos houver algum que tenha a vaidade de passar por sábio, um sorrisinho de satisfação, um sinalzinho de aprovação, um abanar de orelha, à maneira dos burros, bastará para salvar, aos olhos do próximo, a sua ignorância.


* Deusa. Homero chamava aos seus deuses «doadores de bens».
** Plínio dizia que a sanguessuga tinha a língua bifurcada.


in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Publicado por dolphin.s em outubro 14, 2003 12:57 PM
Comentários

Ainda pensando no texto "Estamos cansados do homem...", arriscaria dizer que a fronteira entre a loucura e a não-loucura sempre teve contornos estranhos. Exceptuando os casos patológicos, a loucura não residirá muitas vezes nos olhos de quem a vê?... quem é geralmente considerado louco? aquele que sai dos padrões mais comuns... e sempre foi assim, e o Homem ainda não aprendeu a discernir melhor...

Dito por: margem no dia 14 de outubro 2003, às 23h36