outubro 18, 2003

Presas mais fáceis

Mas a estupidez — é uma objecção que aqui se torna inevitável — longe de apaziguar sempre, pode mesmo irritar. Para sermos sucintos, digamos que ela excita habitualmente a impaciência, mas também, em circunstâncias extraordinárias, a crueldade; e os excessos odiosos desta crueldade doentia que habitualmente se designa por sadismo, mostra muitas vezes, no papel de vítimas, os imbecis. Isso resulta evidentemente do facto de eles serem para os seres cruéis as presas mais fáceis; mas parece estar igualmente associado ao facto de que a incapacidade de resistir que emana de toda a sua pessoa excita a imaginação como o odor do sangue o animal feroz, e arrastando-o para uma espécie de deserto onde a crueldade "vai muito longe" devido ao facto, ou quase só ao facto, de não esbarrar em quaisquer limites. Existe um traço de sofrimento naquele que inflige o sofrimento, uma fraqueza inserida na sua brutalidade; e mesmo que a indignação privilegiada da compaixão impeça geralmente que se veja, a verdade é que a crueldade, tal como o amor, necessita de dois parceiros que se ajustem! Analisar isso seria certamente uma tarefa importante para uma humanidade tão atormentada como a actual pela sua "indiferente crueldade para com os fracos"

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em outubro 18, 2003 01:20 PM
Comentários

Por vezes os parceiros não se ajustam mas as coisas acabam por acontecer na mesma. E ai a crueldade assume a sua verdadeira dimensão. Até lá, é tudo a brincar. Depois, é tudo admitido. Dolorosamente? Crueldade de quem dá. Crueldade acrescida de quem deixa receber.Masoquismo? Gosto pelo que é assim? Fraqueza? Gosto. Gosto. Gosto enfraquecido.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 18 de outubro 2003, às 13h31

Nem sempre é a brincar.
Quase sempre é aplicado por aquele que tem conciência que quem tem pela frente é mais fraco e não tem armas de defesa.

Mas quase sempre quem aplica crueldade num ser mais fraco é também ele fraco - teve a "sorte" de encontrar alguém em quem se vingar, alguém a quem pode pôr o pé no pescoço fácilmente. Nunca enfrentará ninguém em pé de igualdade ou manifestamente mais forte.

Recua sempre para a sua toca num confronto.

Dito por: dolphin.s no dia 18 de outubro 2003, às 13h41

Fraquezas que se encontram?
Frustrações que se embatem?
Incapacidades que se degladiam?
Uns que avançam?
Outros que recuam?
Uns e outros que avançam e recuam?
Destruição mútua?
Auto-destruição?
Fugas em frente?
Fugas?
Gigantismo (camuflado)?
Esconderijo?
Medo?
Medos?
Amargura?
Amarguras?
Esforço?
Esforços?
Fugas? Fugas? Fugas?
Presas? Ambos presas? Presas diferentes?

...
...
...
Quem?
Ele?
Eu?
Nós?
Quando?
Sempre?
De vez em quando?
Algumas vezes?
Sempre! Sempre! Sempre!

Sandra

Dito por: Sandra no dia 18 de outubro 2003, às 13h58

Frustação.
Alguém frustrado, com pouco a tirar da sua vida, será provavelmente, fácilmente cruel. Ameniza frustrações, fá-lo sentir-se bem consigo mesmo. Tem, mesmo que durante pouco tempo, uma sensação de poder e de controlo que não consegue encontrar em mais nada na sua vida. Satisfá-lo como poucas coisasna sua pequena vida, essa manifestação de "poder".

Dito por: dolphin.s no dia 18 de outubro 2003, às 14h04

E nesses "alguéns" nós tropeçamos.
Tropeçamos.
Tropeçamos.
Embatemos.
Diariamente.
Várias vezes ao dia.
Persistentemente.
Enjoativamente.
Cruelmente.
Desgastantemente.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 18 de outubro 2003, às 14h10

diáriamente. enjoativamente. desgastante!

mesmo quando o alvo deles não somos nós, porque eles não conseguem fazer de nós alvo.
quando o alvo está mesmo á nossa frente e se torna desgastante tentar fazer com que algum deles pare - a crueldade de um ou o agachamento do outro.

Dito por: dolphin.s no dia 18 de outubro 2003, às 14h17

Há agachamentos que se suportam.
Mas há agachamentos que quebram.
Que nos quebram.
E que nos levam a pensar no nosso papel.
No que estamos a fazer.
E no que valemos.
Ou que...porra!... no que (ainda) não valemos!

Sandra

Dito por: Sandra no dia 18 de outubro 2003, às 14h22

o problema é que há quem não saiba que vive agachado ou como se há-de levantar.

há quem nem saiba sequer que se pode levantar. que mais que um direito, é um dever - dever perante si mesmo.

Dito por: dolphin.s no dia 18 de outubro 2003, às 14h28

Sem dúvida. E essas são as situações mais graves.
São patológicas!
Contrárias a uma condição que se quer digna. A uma condição que é a nossa.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 18 de outubro 2003, às 14h33

Outro ponto comum às situações de crueldade é a dependência daquele que sofre o acto cruel. Talvez cerca de 95% ou mais dessas situações de devam a esse facto.

Pessoas que não sabem ou não podem defender-se condignamente por dependerem do outro, que o sabe e usa isso para agir ainda mais à vontade.

É o caso tipico do fraco que depende do forte, sendo certo que também há muitos fortes que dependem do fraco, que assim aproveita para fazer-se forte à conta da fraqueza dos supostamente mais fortes que eles, mas que devido à dependência, se tornam fracos

Dito por: Paulo Silva no dia 18 de outubro 2003, às 15h45

Acho que na maior parte dos casos existe essa dependência, sim, mas mesmo com essa dependência existem maneiras de viver essa "relação" sem manifestamente deixar o pescoço a descoberto para o outro lhe meter o pé sempre que lhe apetece.

Até porque na maior parte dos casos quem age cruelmente sobre alguém que acha mais fraco, recua quando vê esse alguém fazer-lhe frente.

Dito por: dolphin.s no dia 18 de outubro 2003, às 16h45