setembro 29, 2003

Bela Estupidez

Robert MusilDesconfiei sempre que esta resistência multiforme de um povo, que tem pretensões a amar a arte, à criação e a toda a delicadeza de espírito era apenas estupidez, talvez uma variedade particular de estupidez, uma estupidez estética e talvez também afectiva; manifestando-se de tal modo, em todo o caso, que aquilo a que nós chamamos "bel esprit" poderia também ser qualificado de "bela estupidez"; hoje ainda, não vejo muitas razões para mudar de opinião. Sem dúvida, que não podemos reduzir à estupidez tudo o que altera um desígnio tão plenamente humano como o da arte; é preciso também — as experiências destes últimos anos mostraram-no particularmente — reconhecer o papel desempenhado pelas diversas variedades de frouxidão. Não se deve, contudo, objectar que o conceito de estupidez nada tem a ver com isto a pretexto que ele diz respeito ao entendimento e não aos sentimentos de que a arte, em contraste, releva. Seria um erro. Mesmo o prazer estético é ao mesmo tempo julgamento e sentimento. E permitir-me-ão não apenas lembrar, que o grande axioma de Kant fala de uma capacidade de julgamento estético e de julgamentos de gosto, mas ainda repetir a antinomia a que, desse modo, ele chega:
Tese: O julgamento do gosto não se baseia sobre conceitos porque em tal caso seria possível discuti-lo (decidir através da prova).
Antítese: Ele baseia-se em conceitos, pois de outro modo não se poderia sequer discuti-lo (procurar uma unanimidade).
Aqui chegado, desejo colocar uma questão: não existirá, na base da política e do caos da vida em geral, um juízo e uma antinomia análogas? E não deveremos esperar encontrar, ali onde o julgamento e razão estão em casa, as suas irmãs e irmãzinhas, as diferentes formas de estupidez?

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em setembro 29, 2003 10:31 AM
Comentários

Relativamente à questão do último parágrafo, concordo absolutamente, a estupidez está sempre presente, mas avaliadas as situações "per si", muitas vezes, em determinado momento, estas parecem ser completamente racionais e lógicas e são decididas mediante esses pressupostos, e só muito depois se olha para trás e se constata o "erro", ou a estupidez que se escondeu por detrás de algo que parecia ser racional. Ou até alguém constata, mas não consegue impor-se mediante o discurso dos que pensam que estão a ser racionais... então na política e na sociedade é tão fácil do discurso da estupidez ser envolvido num embrulho de racionalidade... veja-se pela experiência dos políticos (e, atrever-me-ia a dizer, dos advogados), que esgrimem argumentos racionais para defender ou julgar teses que, na sua base, são estupidas.

Temos um passado colossal atrás das costas e uma das coisas que me indigna é que ninguém o toma como exemplo para se evitarem muitos erros de julgamento (vulgo estupidez) que se cometem nos dias de hoje, muitos deles ainda piores do que exemplos desse mesmo passado.
Pois a sociedade é sobranceira, julga-se evoluída, olha para o seu umbigo, e comete os mesmos erros e tem os mesmos comportamentos que os seus antepaasados, pois julgam que a evolução é natural, provavelmente que as lições dos erros cometidos são transmitidos pelos genes. Mas não, os genes falam sempre mais alto, e é dificil, mesmo para qualuqer um de nós, face a qualquer situação, não nos deixarmos levar pela nossa estupidez natural, mesmo quando, muitas vezes, pensamos que estamos a agir na maior racionalidade.

Dito por: Paulo Silva no dia 29 de setembro 2003, às 11h15

Entendo-se "Estupidez" como qualidade de estúpido, falta de inteligência e de delicadeza de sentimentos, não tenho dúvidas que vivemos em plena época da "Bela Estupidez".
Porque esta é encarada como normal, natural, reguladora das relações humanas, proporcionadora de audiências, motivo de debate nos mais variados locais, às mais variadas horas, pela maior variedade possível de pessoas.
A "Estupidez" está ai e dá ideia que veio para ficar. Afirma-se com grande convicção. Expõe-se naturalmente. Acha-se com razão. Acha-se, ela própria, "inteligente". Acha-se engraçada e capaz de alegar o mundo em que vivemos.
Mas a "Estupidez" (ou pelo menos alguma parte dela) não é ingénua. Sabe muito bem para onde quer ir. Sabe muito bem os objectivos que quer atingir. Sabe quem quer enganar, ludibriar, adormecer, anestesiar. Sabe-o porque quer algo. Porque quer que nos direccionemos para algum sítio. Porque quer que avancemos por determinados caminhos. E nós quando aceitamos essa proposta, quando nos deixamos ir nesse embalo assumimo-nos, pensando que inteligentemente, como alguém onde essa estupidez entra, mas que é inofensiva.
A "Estupidez" por cá anda fazendo-nos descaradamente dar pontapés ao bom senso, por vezes, ao minimamente aceitável. Fazendo-nos tropeçar e esmagar por completo aquela que é a nossa dignidade, a nossa moral, a nossa ética. E aqui valerá a pena considerar sobre o seu grau de consistência.

Mas...vamos olhar agora a "Estupidez" de outra forma. Vamos olhá-la como algo de bom/como um meio que nos permite chocarmo-nos aquando de determinada tomada de consciência. É que por vezes precisamos de chegar ao fundo (bem ao fundo) para conseguir subir alguma coisa, ou para conseguir subir mais. Porque nos apercebemos que estamos perigosamente sufocados e quase sem possibilidade de respirar. Porque nos apercebemos que estamos estagnados. E aí a "Estupidez" e a sua existência (forte, demolidora, impiedosa) são-nos de extrema utilidade para acordarmos de um sono profundo. Um sono que, ao acabar, nos permite, primeiro em nós, destroçá-la por completo, ridicularizá-la, enfraquecê-la e afastá-la de vez das nossas vidas.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 29 de setembro 2003, às 11h22

"Mas a "Estupidez" (ou pelo menos alguma parte dela) não é ingénua. Sabe muito bem para onde quer ir. Sabe muito bem os objectivos que quer atingir"

Na minha opinião, isso depende. Se estivermos a falar de políticos ou outros que tais que pretendem fazer passar a sua mensagem, acredito plenamente nisso, mas de resto acredito que a estupidez é algo tão natural que por vezes estamos todos envoltos nela, pelo menos em situações pontuais.

"Mas...vamos olhar agora a "Estupidez" de outra forma. Vamos olhá-la como algo de bom/como um meio que nos permite chocarmo-nos aquando de determinada tomada de consciência..."

Gosto dessa abordagem, Sandra. Tens toda a razão, devemos tomar uma atitude positiva perante a estupidez. Dificl é "afastá-la de vez das nossas vidas". Quando menos espero, ela ataca-me por trás forte e feio, até que alguém me aponte o dedo ou eu acorde na manhã seguinte

Dito por: Paulo Silva no dia 29 de setembro 2003, às 11h37

Pois é Paulo. O crescimento, amadurecimento e evolução é também isso: resultado de "paulada". Agora nós sabemos tirar dai dividendos ou não.
Eis-nos então perante perante uma "Estupidez pragmática", uma "Estupidez utilitária".
Abram-se, pois as portas, ao "Elogio da Estupidez"!
(Aproveito a situação para homenagear Erasmo de Roterdão com o seu "Elogio da Loucura", onde escreve, através da "Fala a Loucura":
"Os vulgares mortais dizem mal de mim; mas não sou tão néscio como os estultíssimos me julgam, pois ninguém é capaz como eu de divertir tanto os homens e até os deuses".) Tal "Loucura"...por vezes tal "Estupidez". Infelizmente.

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 29 de setembro 2003, às 11h53