Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vómito para aliviar a vontade de vomitar.
Um dos meus passeios predilectos, nas manhãs em que temo a banalidade do dia que vai seguir como quem teme a cadeia, é o de seguir lentamente pelas ruas fora, antes da abertura das lojas e dos armazéns, e ouvir os farrapos de frases que os grupos de raparigas, de rapazes, e de uns com outras, deixam cair, como esmolas da ironia, na escola invisível da minha meditação aberta.
E é sempre a mesma sucessão das mesmas frases... «E então ela disse...» e o tom diz da intriga dela. «Se não foi ele, foste tu...» e a voz que responde ergue-se no protesto que já não oiço. «Disseste, sim senhor, disseste...» e a voz da costureira afirma estridentemente «Minha-mãe diz que não quer...» «Eu?» e o pasmo do rapaz que traz o lunch embrulhado em papel-manteiga não me convence, nem deve convencer a loura suja. «Se calhar era...» e o riso de três das quatro raparigas cerca do meu ouvido a obscenidade. «E então pus-me mesmo diante do gajo, e ali mesmo na cara dele - na cara dele, hein, ó Zé...» e o pobre diabo mente, pois o chefe do escritório - sei pela voz que o outro contendor era chefe do escritório que desconheço - não lhe recebeu na arena entre as secretárias o gesto de gladiador de palhinhas. «... E então eu fui fumar para a retrete...» ri o pequeno de fundilhos escuros.
Outros, que passam sós ou juntos, não falam, ou falam e eu não oiço, mas as vozes todas são-me claras por uma transparência intuitiva e rota. Não ouso dizer - não ouso dizê-lo a mim mesmo em escrita, ainda que logo a cortasse - o que tenho visto nos olhares casuais, na sua direcção involuntária e baixa, nos seus atravessamentos sujos. Não ouso porque, quando se provoca o vómito, é preciso provocar só um.
«O gajo estava tão grosso que nem via a escada.» Ergo a cabeça. Este rapazote, ao menos, descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que quando sente, porque por descrever esquece-se de si. Passa-me a náusea. Vejo o gajo. Vejo-o fotograficamente. Até o calão inocente me anima. Bendito ar que me dá na fronte - o gajo tão grosso que nem via que era de degraus a escada - talvez a escada onde a humanidade sobe aos tombos, apalpando-se e atropelando-se na falsidade regrada do declive aquém do saguão.
A intriga, a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a horrorosa ignorância da inimportância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das côdeas húmidas dos desejos, dos restos trincados das sensações.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Publicado por dolphin.s em setembro 28, 2003 09:07 PMO grande problema que necessitamos urgentemente de analisar em nós, e nas relações que estabelecemos (ou vamos estabelecendo) com os outros e, eventualmente tentar encontrar algum remédio que cure, é aquele que espelha a quase permanente e ininterrupta sensação de sentirmos uma (interna) náusea física resultante da nossa vivência e integração numa humanidade vulgar.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 29 de setembro 2003, às 08h23Outro grande problema é quando provocamos o vómito...e provocamos...e provocamos...e até nos "enchemos" antes para facilitar as coisas...e nada...não sai nada.
Ficamos empaturrados, com os olhos vermelhos e fazendo sair lágrimas do esforço... com um suor adicional...e tudo continua na mesma.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 29 de setembro 2003, às 08h27É por isso que muitas vezes me recolho, muitas vezes evito o convívio, pois normalmente é a repetição dessa vivência de humanidade vulgar, sempre as mesmas expressões, os mesmos contextos, as mesmas situações... às vezes penso que não me deveria fechar tanto; mas quando me abro, com a maioria das pessoas, é apenas para repetir aquilo que já vivi... as mesmas frases, as mesmas expressões do dia a dia, os mesmos tiques com as mesmas pessoas, e até com pessoas diferentes que não conheço. Sim, o vulgar... mas eu também sou vulgar, sou muitas vezes vulgar, no meio da humanidade vulgar - pois é dificil conseguir conviver com a humanidade sem se ser vulgar, ou não se convive.
Dito por: Paulo Silva no dia 29 de setembro 2003, às 08h58... a fingir vida acesa... dizia o poeta de cabeleira branca ao vento.
PS. impossível comentar todos estes excertos, por mais interessantes que sejam, à velocidade que os editas. O que me dá pena! ;-)
Dito por: Luis Ene no dia 29 de setembro 2003, às 10h28Relativamente ao comentário feito pelo Paulo, é só para dizer que me revejo nele, completamente.
Quanto à minha eventual vulgaridade, junto-a ao tal recolhimento, pois ninguém tem que viver ou conviver com ela. Só que a minha vulgaridade é o que me distingue e por isso me leva à tal necessidade de isolamento.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 29 de setembro 2003, às 10h34Quanto ao "PS" do Luís: vê a vantagem- tens muito por onde escolher. E a identificação maior ou menor com o conteúdo pode ser sempre um critério de selecção.
Beijo para ti,
Sandra :)
Dito por: Sandra no dia 29 de setembro 2003, às 10h36ou não se convive.
para mim esta é definitivamente a melhor solução.
Evito multidões, fins-de-semana e todos os lugares de culto da amalgama de gente que me dá nausea.
sou mais saudável sendo "bicho-do-mato" do que poluir-me e exasperar-me com o contacto contínuo com gentes vazias de tudo.
já basta o contacto que somos obrigados na nossa vida de todos os dias. procurá-lo voluntáriamente, só mesmo em último caso.
agonia-me o simples facto de olhar para uma discoteca com os mesmo ruidos de sempre e ver toda aquela gente aos saltos, muitas vezes sem sequer um sorriso na cara, apenas porque sair e ir a uma discoteca é mais um ritual a que não se pode dizer não.
carneiros... carneiros... carneiros...
prefiro manter-me fechada no meu canto e frequentar os pequenos nichos que ainda vou tendo e onde a maioria sente como eu.
Dito por: dolphin.s no dia 29 de setembro 2003, às 11h05a fingir vida acesa
esta frase resume tudo, não é? :)
fingem viver, vão-se enganando a si mesmos fugindo do vazio das suas vidas...
No entanto... Há uma série de pequenas rotinas do nosso dia a dia que são perfeitamente vulgares. Por exemplo, nos dias de trabalho todas as manhãs vou tomar um café com um colega que não me diz nada de especial, e as nossas idas ao café são perfeitamente banais, em que não se fala de nada de especial... no entanto sempre que chego ao trabalho, anseio por essa ida ao café e com esse colega que nem é das pessoas com quem mais gosto de conviver... porque será ?
Esse é apenas um exemplo de muitas outras situações semelhantes... penso que a vulgaridade também nos é necessária para descomprimir, é humano ser vulgar, "temos que nos cumprir a nós próprios" (esta é do Vergílio Ferreira, adoro essa expressão)
No trabalho temos um universo que não podemos controlar totalmente. Aí somos forçados a estar e a conviver de uma maneira diferente a que escolhemos para nós mesmos.
Com todo o tempo que passamos fechados dentro das mesmas 4 paredes, com as mesma pessoas, anos a fio, existem laços que se formam naturalmente, mesmo com pessoas com que lá fora provavelmente nunca nos cruzariamos por vivermos em universos diametralmente opostos.
Laços são sempre laços. Mas os laços são diferentes. Pode haver laços mas não haver necessariamente intimidade. E esta é aqui entendida como partilha de sentimentos comuns, formas de ser ou estar comuns. Desta forma os laços são facilmente desmanchados. Basta sair das tais 4 paredes. Para além delas não há nada. Não fica nada. Não há espaço para mais nada.
Claro que temos que descomprimir. Mas façamo-lo, de preferência, sem nos atentarmos, cumprindo-nos saudavelmente a nós próprios. Se assim não for, parece que o tal cumprimento não existe, ou pelo menos, não é autêntico.
Não tenho dúvidas em reforçar para mim a solução da Dolphin.s: não se convive!
Não estou para me atentar! Não tenho que me atentar!
Sandra
Dito por: Sandra no dia 29 de setembro 2003, às 12h02Sim, são laços, sem dúvida.
Há um pensamento que me surpreende, mas que é absolitamente verdadeiro: se mudasse de emprego, apesar de já conhecer as pessoas daqui há muitos anos, não teria qualquer saudade nem vontade de particular de voltar a vê-las em toda a minha vida.
E, ainda pior (será pior?) o mesmo se aplica a quase toda a gente que eu conheço, inclusivé familia (à excepção da minha mulher e do meu filho, evidentemente!)
Se fosse viver para outro país, sem conhecer ninguém, não teria nenhuns problemas com isso. (Claro que as pessoas que gosto e que aprecio possa sempre continuar a contactar pela Internet ;) )
Dito por: Paulo Silva no dia 29 de setembro 2003, às 12h17Pode haver laços mas não haver necessariamente intimidade
concordo! mas enquanto aqui vivemos - sim porque com as horas que passamos no emprego é grande parte da nossa vida que cá fica - esses laços têm a sua importância, mesmo não passando para lá das 4 paredes.
Seria insano (talvez impossível) não manter qualquer tipo de relação no lugar onde passamos grande parte da nossa vida.
fora daqui, começo a viver ;)
Dito por: dolphin.s no dia 29 de setembro 2003, às 12h18Não é pior não Paulo. Acho que todos nós sentimos isso de uma maneira ou outra, com laços mais ou menos fortes. Por norma é uma coisa que não se diz porque não é politicamente correcto (um dos meus ódios de estimação) dizê-lo, requer alguma coragem ;)
Assim como posso dizer que passaria bem sem 99% das pessoas à minha volta, mas não me imagino partir sem a minha cadela. É inadmissível para os outros que a minha cadela seja mais importante para mim do que a maioria das pessoas que me povoam a vida.
Dito por: dolphin.s no dia 29 de setembro 2003, às 12h37Pablo Neruda tem um livro intitulado "Confesso que vivi".
Há sempre momentos, espaços, companhias, e em tudo isso partilhas que, à distância e donde não nos sentimos (inteiramente) nós, podemos dizer "Confesso que vivi".
Sandra :)
Dito por: Sandra no dia 29 de setembro 2003, às 12h38;)))
Dito por: dolphin.s no dia 29 de setembro 2003, às 12h43não será a vulgaridade a arte de, consciente ou inconscientemente, fingirmos ser algo que possa ser comum a todos? a tal necessidade de integração social que todos temos?
"... a fingir vida acesa... dizia o poeta de cabeleira branca ao vento."
o vento finge vida acesa, mas é apenas ar que se movimenta
o poeta finge vida acesa, mas é apenas homem que sonha
o homem finge vida acesa, mas é apenas um ser vulgar
o homem invulgar finge vida acesa, para ser tão vulgar como os outros
e eu divago sobre as pavavras de Luis Ene, tentando dizer alguma coisa que ainda não tenha aqui sido dita
em vão: revejo-me em tanto do que já escreveram que sinto que só poderei ser redundante...
só uma coisa em que discordo contigo margem: não sinto essa necessidade de integração social.
prefiro ver-me à margem, vivendo nela porque a isso sou obrigado, mas contornando o sistema à minha maneira e mantendo-me à margem.
A necessidade que sinto é a de me manter o mais distante possível desta sociedade...
"não será a vulgaridade a arte de, consciente ou inconscientemente, fingirmos ser algo que possa ser comum a todos? a tal necessidade de integração social que todos temos?"
talvez, margem, talvez, é um facto que imensas vezes me irrito comigo próprio e com os comportamentos que tenho em sociedade, em que me sinto a "trair" a mim próprio, umas vezes conscientemente, outras vezes inconscientemente
Dito por: Paulo Silva no dia 29 de setembro 2003, às 14h01Tendo em conta a questão da integração e convivialidade social, relembro aspectos como:
- "dar dois passos em frente e (saber)recuar um" (em que, dependendo do arrojo dos passos, o recuo a verificar-se não significa necessariamente uma derrota ou um ficar tudo na mesma);
- "o silêncio ou a não resposta (imediata) serem sinónimos de inteligência";
- "influenciar o discurso e a maneira de ser do outro por se ser portador de uma (grande)capacidade de persuasão";
- "aposta na assertividade".
Sandra :)
a minha necessidade de integração é, por uma lado, prática (e essa todos temos, dolphin.s): não procuro muito os outros mas esforço-me por corresponder quando me procuram (vizinhos, colegas, familiares, os amigos das filhas, e os pais dos amigos, etc, as pessoas nas lojas, e no cabeleireiro - meu deus, o cabeleireiro!); porque vivo em sociedade, não posso entrar muda e sair calada (por muito que, às vezes, me apetecesse!); então, frequentemente dou por mim a dizer banalidades ou a agir como todos agem numa dada situação, até por uma questão de educação; frequentemente também, depois sinto-me uma idiota, mas enfim...; além de tudo, por muito à margem que sempre me tenha sentido de tudo - não é por acaso a escolha do nome ;)- criei afectos muito próximos e ao comprometer-me com eles, comprometi-me também com as suas vidas (as minhas filhas, por exemplo, não têm culpa que eu não me sinta confortável em público, não posso pois condicioná-las a uma vida de isolamento, o que não quer dizer que não acabe por o fazer às vezes, porque há dias em que me é insustentável fingir; mas vou tentando evitar enquanto crescem, e cada uma irá fazendo as suas próprias opções ao longo do tempo)
por outro lado, penso que mantermo-nos genuínos exige muita coragem e auto-estima; talvez por falta de auto-estima, sinto alguma necessidade de integração, aprovação, não sei; não conseguir ser como muitos outros faz-me sentir sozinha, desenquadrada... mas se tento ser eu mesma, sinto que fingo...
caramba, chega de desabafo!
nem sei que mais possa acrescentar (ou retorquir) ao teu desabafo!
concordo com tudo o que dizes - somos obrigados a interagir em sociedade - desse ponto de vista, fazemos parte da sociedade, sim. E compreendo perfeitamente que quando se tem filhos terá que se pensar também em benefício deles. E é claro que para o desenvolvimento de uma criança a interacção social é essêncial.
quanto ao teu último parágrafo, talvez seja necessária auto-estima sim. Mas, (e se calhar até falo por mim), essa auto-estima consegue-se quase a pontapé. Se te vires realmente sózinha num dado momento da tua vida, tens que aprender a sobreviver assim.
Eu aprendi. Custou, foi à cacetada, mas aprendi. E depois aprendi que era assim que me sentia realmente bem.
Neste momento o que sinto é que para além das pessoas que realmente me são queridas, passo muito bem sem a porra da sociedade me aceitar e o sentimento de me sentir integrada nela é-me absolutamente estranho.
Eu aceito-me. Quem gostar de mim aceitar-me-á. Os outros são-me indiferentes.
Por isso costumo dizer quando alguém me tenta atingir: não te conheço o suficiente para me me conseguires ofender.
E viver à margem dá uma sensação de liberdade e de que se respira um ar mais limpo que o viver integrado e aceite nunca nos dará.
Dito por: dolphin.s no dia 29 de setembro 2003, às 15h08Dolphin.s: mais uma vez penso e sinto da mesma forma do que tu. E nessa "coisa" da aprendizagem, e das situações, também me revejo.
Margem: pela experiência de vida que tens, obviamente diferente da minha, quanto mais não seja, pelo diferente enquadramento familiar (não sou casada nem tenho filhos e acrescento que isso também não está nas minhas perspectivas), conviver com os teus desabafos faz-me muito bem. Cada palavra ensina-me sempre (mais) alguma coisa.
É muito importante conhecer a diferença (ou o que, em nós, e em relação aos outros, faz a diferença): no ser, no estar e no pensar.
Sandra :)
Dito por: Sandra no dia 29 de setembro 2003, às 15h36Confesso que me custou ler os comentários aqui escritos, tal a solidão que encerram. De certa maneira confirma o que vem sendo dito sobre a forma como a sociedade nos tem vindo a obrigar a organizar-nos. Ou seja, cada vez vamos vivendo mais sós, ou pelo menos com esse sentir.
Não conheço a obra de onde foi tirado este excerto aqui colocado, mas certamente a procurarei. E vou procurar, não porque me sinta em sintonia com o que aqui está dito, mas porque tenho curiosidade em ver o enquadramento.
O que ali está escrito, reflecte o fechamento perante tudo o que é diferente, ou melhor, tudo o que é banal. Mas a banalidade faz parte da nossa vida, de qualquer vida. Os momentos perfeitos, evocativos são poucos e temos tendência para os esquecer.
Por mim, direi apenas que acho que a minha vida tem sido uma luta constante entre o ser e o parecer, uma luta constante para conseguir ser o que sou em todas as áreas da minha vida. Apesar das minhas fragilidades, sei que tenho muitas forças mesmo que temporariamente fragilizadas e acabo por me “divertir” com as minhas próprias fragilidades e ingenuidades. Algumas merdas por que passei na vida fazem-me viver pouco do passado e do futuro e a situar-me sempre no momento presente. Claro que o passado tem um peso grande, mas recuso-me a recordar e a falar nas coisas mais dolorosas e aceito lembrar e falar das mais positivas ou das que sendo negativas não tiveram grande impacto. Do futuro recuso também falar porque se vai construindo dentro das possibilidades e sei quanto o não vivido pode doer.
Assim, resta o presente para viver e eu adapto-me à vida com facilidade porque no essencial consigo manter a minha identidade, a minha unicidade como pessoa mesmo entre pessoas que me dizem pouco.
Não temo estar sozinha, mas não temo ter amigos e lutar por os fazer, porque os amigos fazem-se não se encontram. Não me considero uma pessoa diferente das outras, não vejo os outros como potenciais idiotas e pessoas sem valores, procuro construir relações com base no que podemos ter de comum e nas particularidades que parecem ser mais agradáveis, não trago pedras nos bolsos para atirar à primeira escorregadela dos outros.
Não, definitivamente, não ...
há pessoas, há momentos, há ter que viver ...
Abraço
GIN
Viver à margem? Hummmm talvez, mas o importante é procurarmos o nosso centro, ou o nosso ponto de fuga, o que dê sentido à nossa vida.
...
E também acredito que a vida é mesmo a vida de todos os dia, e que a devemos viver intensamente.
...
O poeta que referia era o José Gomes Ferreira, que li na adolescência, e de que ainda lembro alguns poemas, mas não aquele. Fingir vida acesa lembra-me discotecas, e festas onde as pessoas vão apenas para se convencer que estão vivas.
...
"Chove, mas que me importa, se estou aqui abrigado nesta porta, a escutar da chuva que cai do céu, uma melodia de silêncio que ninguém ou senão eu" Será assim? Coloquei tudo de seguida... desculpa lá José.
Abraços sortidos
Luís:
Do teu (que é também nosso) José Gomes Ferreira, gostei particularmente dos seguintes versos do poema "A minha solidão" (sim, esse mesmo, aquele que dizes andar a ruminar):
"Não. A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar o céu estrelado..."
Há sempre motivos. Há sempre justificações. Há sempre razões. Para além do céu e das estrelas. E isso não é necessariamente uma "catástrofe".
Sandra :)
Dito por: Sandra no dia 29 de setembro 2003, às 17h40Olá GIN :)
Ao ler o teu comentário fiquei com algumas dúvidas sobre as conclusões a que chegaste.
Por exemplo: qual é a tua definição de solidão?
É que eu não consigo descortinar essa solidão toda que tu vês nos comentários aqui feitos.
O que eu vejo é uma maneira de estar que nos afasta, ou pelo menos me afasta, da maioria da pessoas, de grande parte da sociedade. Sendo que essa maioria é a que eu escolho não ter na minha vida.
Isso não me torna uma pessoa só. Talvez com menos possibilidade de ter milhares de amigos, como parece ser moda, já que as pessoas que pensam/sentem assim são uma minoria...
Quanto à solidão, a solidão não assusta. A solidão faz bem. Qualquer ser humano precisa de solidão. O medo que têm dela é o medo que têm de estar sozinhos consigo mesmo.
O que ali está escrito, reflecte o fechamento perante tudo o que é diferente,
Pelo contrário - reflecte o fechamente perante tudo o que é igual. A tudo ou a todos que fazem do seu modo de vida ser igual aos outros.
A banalidade ali retratada só faz parte da nossa vida se nós quisermos, não porque tem que ser.
A nossa vida é feita de banalidades, mas não necessáriamente aquelas descritas. A essas, assim como o autor, também eu me fecho. Não trazem nada de valor à minha vida... bem pelo contrário...
Ao contrário de ti, eu não me recuso a recordar as coisas más. Fazem parte de mim como fazem as boas. E no fim foi com as más que aprendi mais.
Não tenho medo de olhar para trás.
Foi o passado que me construiu e me trouxe até ao dia de hoje. Renegá-lo é renegar o nosso próprio crescimento (não tanto o fisico, mas o intelectual, ou espiritual).
Também não temo ter amigos. Aqui ninguém disse tal coisa. Eu tenho amigos. Eu faço amigos. Eu gosto dos amigos que tenho. Mas são os amigos que eu quero ter, com interesses partilhados e maneiras de estar semelhantes.
Lá por não fazer questão de andar a fazer tudo por tudo para me divertir, com uma multidão de amigos atrás, isso não quer dizer que eu sou um pessoa só, isolada e a viver na tal solidão que os "outros" tanto temem.
Colocar rótulos e classificar as pessoas que não se enquadram no nosso padrão "normal" de vida é uma maneira de controlar o medo que temos do desconhecido - Não aceitar a diferença e classificá-la como doença.
Dito por: dolphin.s no dia 29 de setembro 2003, às 19h05Viver à margem? Hummmm talvez, mas o importante é procurarmos o nosso centro, ou o nosso ponto de fuga, o que dê sentido à nossa vida.
o meu é na margem ;)
Fingir vida acesa lembra-me discotecas, e festas onde as pessoas vão apenas para se convencer que estão vivas
exactamente! foi isso que me lembrou assim que a li.
pessoas aos saltos numa discoteca sem saberem porque estão... muitas vezes sem terem vontade de estar, mas assim acreditam que vivem
Dolphin.s, reli com mais atenção tudo o que aqui foi dito quando vi a tua msg.
Aceito que li isto muito na vertical e, agora com mais calma, as coisas parecem-me um tudo nada diferentes, mas não totalmente. Eu não ponho rótulos às "pessoas vazias de tudo", aos "carneiros ... carneiros ... carneiros", aos que "fingem viver ... enganando-se a si mesmos do vazio das suas vidas". Aceito que existam pessoas que vivem de forma diferente da minha e, acredito que muitas delas, numa relação taco a taco até possam ser interessantes. Por outro lado, entendo a "margem" quando diz que a nossa vida está cheia de encontros permanentes com a banalidade, seja na merceeiria, no cabeleireiro, nos vizinhos, etc. Porque a vida são essas pequenas coisas também e de algumas delas podemos retirar prazer. Quando "margem" refere que sente necessidade de aprovação social parece-me natural porque todos temos essa necessidade, sendo que aceitação social não é algo de extraordinário, mas tão só, sentir a aprovação das pessoas que gostamos, nem que seja da nossa cadela. Quanto à relação que, por vezes, temos que manter com outras pessoas que não nos dizem nada, não é um problema de desenquadramento, mas de consciência que vivemos no meio de outras pessoas que têm o direito de ser diferentes tal como eu o sou. Por isso falo de unicidade como pessoa, de saber viver num meio que posso considerar adverso, mas mantendo o "ponto de fuga que dá sentido à nossa vida".
Quando digo que reflete o "fechamento sobre tudo o que é diferente" (diferente, no sentido diferente de mim) "ou melhor tudo o que é banal" (banal, no sentido da vida quotidiana).
Não recordar as coisas más, no sentido de viver com elas ao colo impedindo-me de viver e de pular em frente, porque como dizes, nós somos feitos tb do nosso passado.
Colocar rótulos?
Classificar quem não se encontra nos nossos padrões de vida?
Que estás tu a fazer com estas tuas últimas afirmações?
Não temo estar só, acredito mesmo que é na solidão que nós somos capazes de nos confrontar com nós próprios e aprender a olhar os outros com uma maior suavidade.
Entre estas paredes brancas
onde me invento e reinvento
rasga-se, por vezes, o silêncio
dos meus próprios gestos.
É então que gosto de mim,
do turbilhão dos meus sentimentos
que se tornam mais cheios,
mais transparentes,
mais estáveis, mais reconhecíveis.
Não receio despir-me
do que não sou.
GIN
Dito por: GIN no dia 29 de setembro 2003, às 20h16GIN
Concordo contigo numas coisas, discordo em absoluto noutras.
Mas se concordassemos todos, estas "discussões" não fariam o menor sentido ;)
Eu aceito que existam essas pessoas a que chamo carneiros. Tenho que aceitar - são a maioria. Mas é isso mesmo que me chateia - serem a maioria.
Em que é que uma maioria de pessoas que nada mais fazem para além daquilo que lhes foi ditado, podem fazer para mudar o que quer que seja? Nem tentam tão pouco. Preferem o sossego das suas certezas a arriscarem um salto ao lado.
É um rotulo sim... Eu não sou consensual nem comigo mesma e reservo-me o direito a alguma incongruência. :/
São carneiros aqueles que não pensam por si, que não têm vida própria, que nada questionam e que tudo imitam. Que geração após geração após geração se repetem num infindável rol de acções e decisões concebidas antes de eles nascerem.
Por outro lado, entendo a "margem" quando diz que a nossa vida está cheia de encontros permanentes com a banalidade, seja na merceeiria, no cabeleireiro, nos vizinhos, etc.
Eu também! E gosto mais do merceeiro do que dos meus vizinhos ;)
porque todos temos essa necessidade, sendo que aceitação social não é algo de extraordinário, mas tão só, sentir a aprovação das pessoas que gostamos, nem que seja da nossa cadela
Aqui é que discordo em absoluto! Quem nos ama aceita-nos. Não existe questão. E essa "aceitação" nada tem a ver com a aceitação social.
Essa eu dispenso muito bem. Aliás, não a quero. Faço parte dela, como a margem disse, de uma maneira prática, na medida em que tenho que "circular" por ela. Não tenho em absoluto a necessidade de aceitação pela sociedade.
"Quanto à relação que, por vezes, temos que manter com outras pessoas que não nos dizem nada, não é um problema de desenquadramento, mas de consciência que vivemos no meio de outras pessoas que têm o direito de ser diferentes tal como eu o sou
Pois têm, claro que têm. Mas também têm o dever de olhar para o mundo com olhos de ver. E é isso que não fazem. Vivem de olhos fechados para todas a outras realidade à margem da realidade deles.
E são eles os primeiros a pôr os rótulos nos que se recusam a viver a mesma vida, ter as mesmas crenças.
Por ti não posso falar, mas eu ouço várias vezes por semana as palavras "maluca" "apanhada" "esgroviada"
Ou frases como "lá estás tu com as tuas pancadas" "é mais uma das tuas manias"
ou a excelente "tens a mania que és mais inteligente que os outros com essas conversas" ou "és uma snob que só vai a essas peças esquisitas e ouves música que ninguém conhece"
E também sou frequentemente apelidada de mal-criada porque não tenho pejo em manifestar as minhas opiniões, seja sobre a religião, politica, aborto, whatever...
Ninguém quer ouvir coisas diferentes daquilo que lhes enfiam todos os dias pela boca dentro e se alguém se atreve é porque é louco, mal-criado ou pior :/
Por isso GIN, não faço mesmo questão nenhuma de me sentir integrada nesta sociedade. Aliás, fui eu que fiz questão de me afastar dela.
Mas como disse ao princípio, discussões destas são sempre bem vindas :)
E que poderiamos aprender se apenas conversássemos com vozes concordantes? ;)
todas as vozes, concordantes ou discordantes, sempre me ensinam alguma coisa, sobre a vida em geral e sobre mim em particular; no diálogo com todos só me posso ir conhecendo melhor e, se não gostar do que vejo, lá terei de ir aprendendo, sempre...
hoje, já me cansei, já me irritei, até já chorei, e já sorri, e já me enterneci, então, aqui fica um BIG SMILE para todos e uns versos de HERBERTO HELDER - porquê? porque sim :)
«Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferociade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devestação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.»
uma prenda dessas merece um sorriso, um beijo e um abraço :)))
Dito por: dolphin.s no dia 29 de setembro 2003, às 23h45Verdade ... não compro todas as ideias. Tento sempre pensar sobre as coisas que vejo, sinto e me são ditas. Na minha família, estimulo o desenvolvimento de ideias próprias e o debate. Sou mãe e isso torna-me responsável por tentar que o meu filho seja uma voz activa e dissonante daquilo a que chamas carneirada e tenho tido sucesso. Acho que consigo viver com bastante tranquilidade neste meio, mesmo quando o sinto muito hostil. Não professo nenhuma religião, não milito em nenhum partido, não me enquadro em grupos de opiniões fechadas e redondas ... assim, sinto-me à vontade para defender as minhas próprias opiniões e viver a vida como sei. É este o meu "ponto de fuga que dá sentido à minha vida", tb levo piropos como os que descreveste :), tb sou muito directa quando acho que isso vale a pena, mas não consigo ter a violência critica que tu tens em relação às pessoas diferentes de ti ...
Abraço e vai um mimo ...
Não quero a sensatez das estátuas,
nem o arrependimento dos santos.
Quero a vida, os instantes possíveis
das aves migratórias,
quero o mel salivado das abelhas
sugado em flores dispersas,
quero o mar tempestuoso
que se consome nas areias tórridas,
quero a morte dos sentidos
queimados na exaustão.
E se algo de mim ficar,
que seja o desejo meteórico
que se desfaz em areia por entre os dedos,
que sejam os voos impenitentes, nostálgicos,
das brisas insatisfeitas,
que seja o cheiro da terra húmida,
dos frutos maduros, da espuma cálida,
erguidos na penetração dos corpos,
e nunca, mas nunca a memória fria e cruel
das marmóreas figuras puras e inúteis.
GIN
Dito por: GIN no dia 30 de setembro 2003, às 00h50Clap!Clap! Clap!
Não era minha intenção ao passar por aqui, mas acabo por entregar em mão a pequena história que este debate revelou:
367. (ao Silêncio)
Sentiu uma imperiosa necessidade de ter uma conversa muito séria consigo mesmo; o problema foi que estava completamente à margem de si, e por ora nada havia que pudesse fazer. Mas com o tempo tudo se resolveu da melhor maneira, e pôde reencontrar finalmente o seu centro. Foi aí que se encontrou consigo próprio, viu-se cara a cara, e soube de novo quem afinal era. [A moral desta história é só uma: Há sempre um ponto de encontro onde nos podemos ver face a face.]
Dito por: Luis Ene no dia 30 de setembro 2003, às 10h03
Ah, Luís, não me interpretes mal, mas esse teu texto fez-me lembrar a GRANDE Clarice Lispector... ela é exímia nessa prescrutação interior !
:) Paulo, eu interpreto sempre mal :)) mas fazer lembrar a "Grande Clarice Lispector" até me parece bem. Tenho uma secreta certeza q todos os textos se tocam ;-) Fica bem!
Dito por: Luis N no dia 30 de setembro 2003, às 11h08