"À semelhança de todos os outros, também tu recebeste a explicação de como o mundo veio a ser o que é — só que aparentemente ela não te satisfaz. Ouviste-a desde a infância, mas não conseguiste engoli-la nunca. Tens a sensação de algo ter sido deixado de fora, encoberto. Tens a sensação de te haverem contado uma mentira e, caso possível, gostarias de saber qual ela é — razão por que te encontras nesta sala".
"Estou confuso. Não sei de história alguma. Não sei de uma história única".
"É uma história única e perfeitamente unificada. Basta pensar mitológicamente".
"Como assim?"
"Estou a falar da mitologia da tua cultura, é claro. Pensei que fosse óbvio".
"Para mim não é".
"Qualquer história explicando o sentido do mundo, as intenções dos deuses e o destino do homem é forçosamente mitologia".
"Será, mas não conheço nada de semelhante. Tanto quanto sei, não existe nada na nossa cultura passível de ser designado de mitologia, a não ser que te refiras à mitologia grega, nórdica ou algo assim".
"Estou a falar de mitologia viva. Que não se encontra registada em qualquer livro, e sim na mente das pessoas da tua cultura. Neste exacto instante, ela está a ser encenada em todas as partes do mundo".
"Repito: tanto quanto sei, na nossa cultura não existe nada de semelhante".
Ismael franziu a testa escura e lançou-me um olhar de divertida exasperação. "Isso é por tu achares que mitologia é um conjunto de fábulas fantásticas. Os gregos não encaravam desta forma a sua mitologia. Sei que o entendes. Caso te dirigisses a um homem da Grécia homérica e lhe perguntasses quais eram as fábulas fantasiosas sobre os deuses e os heróis do passado que contava aos filhos, ele não te entenderia. A sua resposta seria idêntica à tua: 'Tanto quanto sei, na nossa cultura não existe nada de semelhante'. Um nórdico teria dito o mesmo".(...)
"Dir-to-ei então com todas as letras. Tu andas à procura do mito da criação da tua própria cultura".
Olhei-o desanimado. "Não temos um mito da criação," disse. "Até aí é certo".(...)
"Não temos um mito da criação," repeti. "A não ser que te refiras ao mito do Génese".
"Não sejas absurdo. Caso um professor do secundário te convidasse a explicar como tudo começou, lerias à turma o primeiro capítulo do Génese?"
"Claro que não".
"Que explicação darias tu então?"
"Poderia dar uma explicação, mas não seria decerto um mito".
"Tu não a considerarias um mito, como é natural. Nenhuma história da criação é um mito para as pessoas que a contam. É apenas a história".
"De acordo, mas a história a que me refiro não é decerto um mito. Suponho que partes dela sejam ainda questionáveis, e que pesquisas futuras possam introduzir algumas revisões, mas não é decerto um mito".
"Liga o gravador e começa. Então saberemos".
Olhei-o reprovadoramente. "Queres realmente que eu... hã..."
"Que contes a história, sim".
"Não posso desfiá-la assim, sem mais nem menos. Preciso de tempo para a organizar".
"Tempo é coisa não falta. A cassete é de noventa minutos".
Suspirei, liguei o gravador e fechei os olhos.
"Tudo começou há muito tempo, há dez ou quinze mil milhões de anos," principiei, minutos depois. "Não estou actualizado sobre qual é a teoria dominante, se a do estado fixo ou a do big-bang, mas em ambos os casos o universo começou há muito tempo".
Nesse ponto, abri os olhos e enviei um olhar interrogativo a Ismael.
Ele retribuiu-me o olhar e perguntou, "É isso? É essa a história?"
"Não, estava só a confirmar". Fechei os olhos e recomecei. "Então, creio que há uns seis ou sete mil milhões de anos — formou-se o nosso sistema solar... Tenho uma imagem na cabeça, retirada de alguma enciclopédia infantil, com bolas de matéria espalhando-se ou aglutinando-se... eram os planetas. Os quais, ao longo de milhares de milhões de anos, foram arrefecendo e solidificando... Deixa cá ver. A vida apareceu no caldo químico dos nossos antigos oceanos há cerca de — há quantos anos, cinco mil milhões?"
"Três mil milhões e meio ou quatro".
"Certo. As bactérias e os microorganismos evoluíram até formas superiores, mais complexas, as quais evoluíram por sua vez para formas mais complexas ainda. Aos poucos a vida estendeu-se até à terra firme. Não sei... houve o limo nas margens dos oceanos, os anfíbios... Os anfíbios ocuparam a terra, evoluíram e tornaram-se répteis. Os répteis evoluíram e tornaram-se mamíferos. Há quanto tempo foi isto? Mil milhões de anos?"
"Há apenas duzentos e cinquenta mil milhões de anos".
"Certo. Seja como for, os mamíferos... Não sei bem. Pequenas criaturas em pequenos nichos — agachadas sob os arbustos, empoleiradas nas árvores... Dessas criaturas nas árvores provieram os primatas. Depois, não sei — talvez há dez ou quinze milhões de anos, um ramo dos primatas deixou as árvores e..." Esgotei o fôlego.
"Isto não é nenhum exame," disse Ismael. "As linhas gerais bastam — quero apenas a história corno ela é vulgarmente conhecida por motoristas de autocarro, camponeses e políticos".
"Está bem," disse eu, e voltei a fechar os olhos. "Uma coisa levou a outra. Surgiu uma espécie após outra e, finalmente, surgiu o homem. Quando foi isso? Há três milhões de anos?"
"Ê uma estimativa fiável".
"Certo".
"É isso?" inquiriu Ismael.
"Em linhas gerais, é".
"Trata-se da história da criação como ela é contada na tua cultura".
"Isso mesmo. Até onde a conhecemos actualmente".
Ismael meneou afirmativamente a cabeça e disse-me para desligar o gravador. Depois, recostou-se com um suspiro que ribombou pelo vidro como se de um vulcão distante se tratasse, cruzou as mãos sobre a barriga e lançou-me um olhar longo e imperscrutável. "E tu, uma pessoa inteligente e moderadamente culta, queres fazer-me acreditar que não se trata de um mito".
"O que tem ela de mítico?"
"Eu não disse que ela tinha algo de mítico. Disse que era um mito".
Acho que ri com nervosismo. "Talvez eu desconheça o teu conceito de mito".
"É idêntico ao teu. Estou a usar a palavra no sentido corrente".
"Então não é um mito".
"Decerto que é um mito. Ouve-a". Ismael disse-me para rebobinar a cassete e passá-la de novo.
Após ter ouvido a gravação, fingi estar pensativo para manter as aparências. Depois disse: "Não é um mito. Caso fosse um texto científico para o oitavo ano, creio que nenhuma escola objectaria — à excepção dos criacionistas".
"Concordo plenamente. Não disse eu tratar-se de uma história ubíqua na tua cultura? As crianças absorvem-na através de muitos canais, incluindo textos escolares sobre ciência".
"O que estás então tu a tentar dizer? Estás a sugerir não se tratar de uma explicação factual?"
"Factos não lhe faltam, claro, mas o seu ordenamento é puramente mítico".
"Não sei do que estás tu a falar".
"Desligaste a tua mente, é óbvio. A canção da Mãe Cultura adormeceu-te".
Olhei-o com seriedade. "Estás a dizer que a evolução é um mito?"
"Não".
"Estás a dizer que o homem não evoluiu?"
"Não".
"O que estás tu a dizer, então?"
Ismael olhou-me sorridente, encolheu os ombros e ergueu as sobrancelhas. Olhei para ele e pensei: Um gorila está a gozar comigo. Não adiantou.
"Ouve de novo " disse-me ele.
Ouvi a gravação até ao fim e disse: "Certo, ouvi uma coisa, a palavra surgiu. Eu disse que finalmente surgiu o homem. É isso?"
"Não é nada disso, não. Não estou a implicar com uma palavra. O contexto torna claro que a palavra surgiu é apenas um sinónimo para evoluiu".
"De que raio se trata, então?"
"Vejo que não estás mesmo a fim de pensar. Recitaste uma história que ouviste milhares de vezes e agora ouves a Mãe Cultura murmurar ao teu ouvido: 'Pronto, pronto, meu pequenino, não há nada em que pensar, nada com que te preocupares, não fiques agitado, não dês ouvidos a esse animal malvado, isto não é um mito, nada do que eu te digo é um mito, donde que não há em que pensar, nada com que te preocupares, ouve apenas a minha voz e dorme, dorme, dorme...'".
Mordi o lábio durante algum tempo e disse, "Não adiantou".
"Está bem," disse ele. "Vou contar uma história minha, e talvez isso adiante". Mordiscou por algum tempo um ramo frondoso, cerrou os olhos e começou.
Esta história (continuou Ismael) aconteceu há quinhentos milhões de anos — uma época inconcebivelrnente distante, quando este planeta ter-te-ia sido totalmente irreconhecível. Sobre a terra nada se movia, a não ser o vento e a poeira. Nenhuma folha de relva balouçava ao vento, nenhum grilo saltava, nenhum pássaro vogava pelo céu. Seres que tais encontravam-se ainda dezenas de milhões de anos no futuro. Até mesmo os mares eram sinistramente imóveis e silenciosos, pois também os vertebrados se encontravam dezenas de milhões de anos no futuro.
Havia, é claro, um antropólogo de serviço. Que espécie de mundo seria sem um antropólogo? Muito deprimido e desiludido andava porém esse antropólogo, pois percorrera o planeta todo procurando alguém para entrevistar, e as cassetes que carregava na mochila continuavam tão vazias quanto o céu. Mas um dia, enquanto caminhava desanimado pela borda do oceano, viu nas águas rasas próximas à margem o que parecia ser uma criatura viva. Não era lá grande coisa, apenas uma espécie de bolha gelatinosa, uma alforreca. Mas, em se tratando da única oportunidade que lhe surgira em todas as suas viagens, avançou pela água rasa até onde a criatura balançava ao sabor das ondas.
Cumprimentou delicadamente a criatura e foi de igual modo bem recebido, e em breve os dois eram já bons amigos. O antropólogo explicou o melhor que pôde que estudava estilos de vida e costumes, solicitando tais informações do seu novo amigo, o qual correspondeu prontamente. "E agora," concluiu o antropólogo, "gostaria de gravar, nas tuas próprias palavras, algumas histórias que contais entre vós".
"Histórias?" estranhou a bolha.
"Sim, como o vosso mito da criação, se é que tendes um".
"O que é um mito da criação?"
"Ah, tu sabes," respondeu o antropólogo. "As lendas fantasiosas que contais aos vossos filhos sobre a origem do mundo".
Ao ouvir isso, a criatura empertigou-se indignada — ou pelo menos tão bem quanto uma bolha inchada consegue fazê-lo —, e respondeu não ter o seu povo qualquer lenda fantasiosa.
"Queres então dizer que não explicais a criação?"
"Decerto que explicamos a criação," declarou a bolha. "Mas não se trata seguramente de um mito".
"Não, decerto que não," disse o antropólogo, lembrando-se finalmente do treino que havia recebido. "Ficar-te-ia imensamente grato se o partilhasses comigo".
"Muito bem," disse a criatura. "Mas quero que entendas que, como tu, nós somos um povo estritamente racional e não aceitamos nada que não se baseie em observação, lógica e método científico".
"Claro, claro," concordou o antropólogo.
A criatura começou enfim o seu relato. "O universo," disse, "surgiu há muitos e muitos anos, talvez há dez ou quinze mil milhões de anos. O nosso sistema solar — esta estrela, este planeta e todos os outros — parecem ter começado a existir há cerca de dois ou três mil milhões de anos. Durante muito tempo, não houve aqui qualquer forma de vida. Mas então, após mil milhões de anos, a vida surgiu".
"Perdão," interrompeu o antropólogo. "Disseste que a vida surgiu. Onde é que isso aconteceu, segundo o vosso mito — isto é, segundo a vossa explicação científica?"
A criatura pareceu ficar aturdida com a pergunta, e empalideceu. "Em que local específico, queres tu dizer?"
"Não, quero saber se isso aconteceu na terra ou no mar".
"Terra?" perguntou a bolha. "O que é terra?"
"Oh, tu sabes," disse o antropólogo, apontando na direcção da margem. "A extensão de solo e pedras que ali começa".
A criatura empalideceu ainda mais e retrucou, "Não faço a menor ideia de que disparate estás tu a falar. O solo e as rochas que ali estão são apenas a borda da imensa bacia que contém o oceano".
"Entendo o que estás a dizer, sim" disse o antropólogo. "Perfeitamente. Continua".
"Muito bem," disse o outro, "Durante muitos milhões de séculos, os únicos seres existentes no mundo eram microorganismos flutuando ao acaso num caldo químico. Mas, aos poucos, formas mais complexas surgiram: criaturas unicelulares, fungos, algas, pólipos e por aí fora.
"Até que, finalmente," disse a criatura, enrubescendo de orgulho ao chegar ao ápice da sua narrativa. "Até que, finalmente, surgiu a alforreca!"
in Ishmael, Daniel Quinn
que chatisse!!!!!!!!!!!!!!
Dito por: juju no dia 24 de fevereiro 2004, às 21h43chato mesmo!!!!!!!!!!!!!!
Dito por: ana no dia 24 de fevereiro 2004, às 21h45Pois, muito muito chato mesmo não saber escrever!
Que tal um dicionário? :D
Dito por: dolphin.s no dia 25 de fevereiro 2004, às 10h35já li o livro e recomendo...
chato é nao ter o que coçar prá' lém de cabelo...
Dito por: Joel Mendes no dia 9 de março 2004, às 00h16se leres o livro fikas igual á imagem. tou a brincar. pois, já deves ser.
Dito por: fofa no dia 7 de maio 2004, às 18h03se leres o livro fikas igual á imagem. tou a brincar. pois, já deves ser.
Dito por: fofa no dia 7 de maio 2004, às 18h03olha uma macaquinha na brincadeira!!! tão fofa!!! :)))
Dito por: dolphin.s no dia 7 de maio 2004, às 22h18