Todos nós somos, por vezes, estúpidos; por vezes também, somos constrangidos a agir cegamente ou semicegamente, sem o que o mundo se deteria; e se alguém retirasse dos perigos da estupidez esta regra: "Abstém-te de julgar e de decidir cada vez que te faltam informações", ficaríamos imobilizados! Mas essa situação hoje muito generalizada, recorda outra que conhecemos há muito, no domínio intelectual. Com efeito, como o nosso saber e o nosso poder são limitados, estamos reduzidos, em todas as ciências, a enunciar juízos prematuros; mas desde que estejamos atentos, como nos ensinaram, para manter este defeito em certos limites e corrigindo-o logo que possível, isso restitui ao nosso trabalho uma certa exactidão. Nada, com efeito, se opõe à possibilidade de transferir para outros domínios esta exactidão e esta orgulhosa humildade do juízo e da acção; e eu acredito que o preceito: "Age tão bem como possas e tão mal como tem de ser, permanecendo consciente das margens de erro da tua acção!" representa já, no caso de ser seguido, metade do caminho em direcção a uma reforma verdadeiramente fecunda da nossa vida.
in Da Estupidez, Robert Musil
Publicado por dolphin.s em novembro 14, 2003 02:32 PMe é exactamente essa consciência que determina a "moralidade" da acção
(moralidade-entre-aspas por ser a avaliação própria minha)
Dito por: kay no dia 14 de novembro 2003, às 15h01.........sim, que eu tb sou juiz.... . . .... ..
Dito por: kay no dia 14 de novembro 2003, às 15h01a ideia é exactamente essa. sermos juizes de nós mesmos em vez de deixarmos que sejam os outros.
Dito por: dolphin.s no dia 14 de novembro 2003, às 15h04Eu sou constantemente, e sem tréguas, juiz de mim mesmo. Mas, constantemente, me corrigem, e muitas vezes, com razão.
Isto de sermos juizes de nós próprios tem muito que se lhe diga....
E quanto à estupidez, a mesma coisa... quantos vezes somos estupidos e só nos apercebmos depois, mesmo sem que ninguem nos aponte o facto?
Quantas vezes nos tentamos proteger para o futuro e depois caímos nos mesmos comprtamentos ou semelhantes, nos mesmos erros?
Não somos meramente racionais... isso não ajuda nada... os genes (e os memes) são um fardo muito grande!
Dito por: Paulo Silva no dia 14 de novembro 2003, às 17h56concordo com tudo o que dizes, mas contínuo a achar, que mesmo estando atentos ao que os outros (os relevantes para nós) têm para nos dizer, mais importante é sermos nós os nossos juízes, primeiro do que os outros, com as nossas leis e não as dos outros.
Mesmo quando a outra pessoa é importante para nós, e aquilo que diz, como é lógico, o é também, nem sempre teremos a mesma avaliação das coisas, situações ou da estupidez. E pelo facto de o outro ser relevante para nós, não quer dizer que a sua lei seja melhor para nós, do que a nossa.
e faremos coisas estupidas eternamente... faz parte de nossa aprendizagem... e nem sempre aprendemos à primeira ;)