«De resto, é-me odioso tudo quanto me serve apenas de informação, sem aumento da minha actividade e sem imediatamente a impulsionar». Isto são palavras de Goethe, com as quais, qual «ceterum censeo» corajosamente expresso, as nossas considerações sobre o mérito e demérito da história poderão iniciar-se. E precisamente nelas há-de mostrar-se porque é que a erudição sem vida, o saber como inibitório da acção, a história como luxo precioso e super-abundância de conhecimentos nos têm, com toda a seriedade, segundo Goethe, de ser odiosas: - é que carecemos ainda do estrictamente necessário, e o supérfluo é inimigo do necessário. Por certo, precisamos da história; mas precisamos dela de maneira diferente da do ocioso mal habituado nos jardins do saber, muito embora, este se digne contemplar, com ar de grande superioridade, as nossas rudes e desgraciosas necessidades e penúrias. Isto é, precisamos dela para a vida e para a acção, e não para cómodo afastamento da vida e da acção ou ainda para contestação de uma existência egoísta e de uma actuação covarde e má. Apenas enquanto a história serve a vida queremos nós servi-la; mas há determinado grau no dedicarmo-nos à história e certa apreciação da mesma que levam à corrupção e degenerescência vital: - fenómeno, cuja verificação em determinados sintomas do nosso tempo se torna tão necessária quanto dolorosa.
in Da Utilidade e Incovenientes da História para a Vida, Friedrich Nietzsche
Não tenho dúvidas que a História foi muito útil para Nietzsche. Para a sua acção, como homem, e claro, para a estruturação do seu pensamento.
A História deve ser entendida e aproveitada muito para além da "mera" informação, enquanto apresentação de conjunto de factos (concepção de História no século XIX, muito imbuída do espírito Positivista- lembremos, por exemplo a "Escola Metódica").
A História é vida. Respira. Representa e ilustra (se bem que com a subjectividade do historiador sempre inerente) o presente dos homens do passado. Representa e ilustra (com a tal subjectividade) o presente dos homens do presente (...que já foi, mas que continua sendo). Representa uma possibilidade de vislumbramento de perspectivas para o presente dos homens do futuro (embora com os cuidados que devem existir no que respeita a tentativas ou tendências de visionismo ou adivinhação) .
Não tenho a mais pequena dúvida que a História foi útil, utilizada ou mesmo manipulada por Nietzsche. Para a adaptar à sua maneira de conceber a realidade, a partir da interpretação que dela fez. Para garantir a sua apropriação na construção das suas teorias. Para a destruir naquilo que já era, para dessa forma erguer algo de novo, no âmbito daquilo que por si era defendido e entendido como correcto.
A História origina sempre posicionamentos. Nietzsche teve, inequivocamente, o(s) seu(s).
Sandra
Dito por: Sandra no dia 27 de setembro 2003, às 17h59As palavras podem ser tornadas armas.
História, Filosofia, Literatura, cada um dá-lhes o uso que lhes aprouver, distorce-as, deturpa-as, interpreta...
Ou usa-as como arma contra a estupidez.
Dito por: dolphin.s no dia 27 de setembro 2003, às 18h44Quanto à utilização e manipulação da História, lembremos as evocações de Bush aquando das vésperas de intervenção no Iraque. Reveladoras!
Relativamente à Poesia, deixo aqui uma definição do poeta espanhol Gabriel Celaya:
"A poesia é uma arma carregada de futuro".
Lembremos toda a "Poesia de intervenção" escrita em português. Lembremos, por exemplo, Ary (que já passou aqui- e muito oportunamente- pelo "Silêncio").
O mesmo se aplica na Prosa. Lembremos, por exemplo, o que objectivava a escrita classificada como Realista (Ex: onde se integra Eça de Queiroz) ou Neo-Realista (Ex: Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Manuel da Fonseca, entre outros).
Objectivo(s): querer fazer parecer algo; justificar algo; lutar contra algo; querer chegar a algum sítio.
Sandra :)
Dito por: Sandra no dia 27 de setembro 2003, às 18h54"A poesia é uma arma carregada de futuro".
Lindo!! :)))
Dito por: dolphin.s no dia 27 de setembro 2003, às 18h58tens concerteza a versão do Paco Ibañez desta poesia... ;)
Dito por: jm no dia 27 de setembro 2003, às 19h33O concerto no Olympia em 69!!! :)))
o poema é um ---------------
na 1ª mão da ira