setembro 28, 2003

Essa é então a esperança que devemos ter

Ishmael"Uma vez, andava eu na faculdade, redigi um trabalho para uma cadeira de filosofia. Não me lembro bem qual era o seu teor — tinha algo a a ver com epistemologia. A ideia do trabalho, grosso modo, era a seguinte: Sabem uma coisa? Os nazis, afinal, não perderam a guerra. Ganharam-na e prosperaram. Conquistaram o mundo e eliminaram até ao último os judeus, os ciganos, os negros e os índios orientais e americanos. Terminada esta etapa, acabaram com os russos, os polacos, os boémios, os morávios, os búlgaros, os sérvios e os croatas — os eslavos todos. Viraram-se depois para os polinésios, coreanos, chineses e japoneses — todos os povos da Ásia. Isto levou muito, muito tempo, mas, quando terminaram, todos no mundo eram cem por cento arianos e todos eram muito, muito felizes.
"Naturalmente, os livros escolares deixaram de mencionar qualquer raça excepto a ariana, qualquer língua excepto a alemã, qualquer religião excepto o hitlerismo, qualquer sistema político excepto o nacional-socialismo. Não havia necessidade de o fazerem. Após algumas gerações assim, ninguém conseguiria escrever nos livros o que quer que fosse de diferente, mesmo que o desejasse fazer, pois ninguém mais sabia algo que fosse diferente.
"Um dia, porém, dois jovens estudantes conversavam na Universidade de Nova Heidelbergue, em Tóquio. Eram ambos bem parecidos, como o são habitualmente os arianos, mas um deles parecia vagamente preocupado e infeliz. Era o Kurt. O seu amigo perguntou: 'O que é que se passa, Kurt? Estás com essas trombas porquê?' Kurt respondeu: 'Eu digo-te, Hans. Algo está a preocupar-me — a preocupar-me profundamente'. O amigo perguntou do que se tratava. 'É o seguinte,' disse Kurt. 'Não consigo livrar-me desta sensação maluca de nos andarem a mentir sobre alguma coisa'.
"E era assim que o trabalho terminava".
Ismael assentiu pensativamente. "E o teu professor, o que pensou ele disso?"
"Quis saber se eu tinha a mesma sensação maluca de Kurt. Quando respondi que sim, quis saber qual era a mentira que, achava eu, andavam a contar-nos. Eu disse: 'Como posso eu saber? A minha situação não é melhor que a de Kurt'. É claro que ele não achou que eu falasse a sério. Pensou tratar-se apenas de um exercício de epistemologia".
"E continuas a perguntar-te se te mentiram?"
"Sim, mas não tão desesperadamente quanto então"
"Não tão desesperadamente? Mas porquê?"
"Por ter descoberto que, na prática, não faz qualquer diferença. Quer nos contem mentiras ou não, devemos ainda assim acordar e ir para o trabalho e pagar as contas e tudo o resto".
"A não ser, é claro, que todos vós começásseis a desconfiar que vos andavam a mentir — e todos descobrísseis qual a mentira era".
"Como assim?"
"Caso fosses tu o único a descobrir qual a mentira é, então provavelmente terias razão — não faria grande diferença. Mas, caso todos vós descobrísseis qual a mentira é, pode presumir-se que faria de facto uma grande diferença".
"Lá isso é verdade".
"Essa é então a esperança que devemos ter".


in Ishmael, Daniel Quinn

Publicado por dolphin.s em setembro 28, 2003 02:30 PM
Comentários

Pensar e falar em "Verdade" e "Mentira", nos dias de correm, é um dilema. E é um dilema porque se está a tornar cada vez mais difícil distinguir uma da outra.
A "Verdade" existe, mas começa a rarear conforme as circunstâncias.
Conforme as conveniências.
Conforme as situações face às quais é preciso dar resposta.
Relativamente a algumas delas a "Verdade" é o melhor que se pode dizer.
É o melhor que pode significar.
É o ética e moralmente correcto. Relativamente a outras, a "Verdade", por si só, não é conveniente, não é o ideal para a(s) resposta(s) pretendida(s) e para os desafios que temos que enfrentar.
Porque pode levar a situações incontroláveis e irremediáveis.
Porque nos pode colocar perante fragilidades que não queremos fazer transparecer e, mais importante, que não queremos viver.
A "Mentira" existe, e começa a aumentar conforme as circunstâncias.
Pelo tipo de sociedade em que vivemos. Por causa das pessoas que nos rodeiam. Porque precisamos de nos proteger e de sobreviver.
Porque precisamos de continuar a ser nós, não nos revelando completamente perante o outro.
E aí é preciso o auxílio da "Mentira", do subterfúgio, da âncora que pode assumir essa forma.
Mas a "Mentira" não pode nem deve ser sempre utilizada, aplicada, feita predominar.
Também por questões de ética e de moral.
Também por questões da nossa integridade.
Também pela nossa dignidade.
Estamos, pois, perante cenários que, sendo diferentes, e representando ou significando coisas diferentes, se podem diluir, se podem confundir, se podem transformar, se podem espelhar.
A "Verdade" e a "Mentira" assumem, desta forma, uma grande percentagem de relatividade.
Tudo depende de tudo.
Depende de nós.
Depende das circunstâncias.
Depende do que queremos e do que não queremos.
Depende dos outros.
Ou, se calhar, não depende de nada disto.
Não devia depender de nada disto. Deviam, uma e outra, ser simplesmente "em si" e aplicar-se, sempre, da mesma forma, e em todas as situações.
De preferência afastando-se a "Mentira".
Assumindo-se a diabolização da "Mentira".
Não praticando e não sentindo a "Mentira".
Mas...qual a fronteira que aqui temos? O que é uma e o que é outra?
Quem decide o que é uma e o que é outra?
Que cenários permitem ser uma e ser outra?
O que determina essas sobrevivências? E, com elas, entre elas, e considerando-as, como relacionarmo-nos com a nossa sobrevivência?
Com o nosso bem estar?
Com o nosso "Eu"?

Sandra

Dito por: Sandra no dia 28 de setembro 2003, às 16h02

A questão é: o que é a verdade em tudo o que aprendemos desde o dia que nascemos?
Porque não questionamos o que nos é transmitido como verdade também aprendida por quem nos transmite?

Dito por: dolphin.s no dia 28 de setembro 2003, às 16h40

Não definiste um conceito "verdadeiro" de Verdade nem de Mentira. Ou seja, o que cada um assume como Mentira ou Verdade, pode não parecer Mentira nem Verdade no sentido estrito de cada um. Portanto, mesmo que os tivesses definido seriam os teus conceitos de Verdade e Mentira...

O exercício, epistemológico ou não, passa pela discussão do assunto como objecto real e não abstracto, essa discussão poderá concluir-se na determinação da Verdade ou Mentira... de resto, tudo o resto não passará da impressão.

Ishmael, o mestre, releva com acerto e pertinência(?) a necessidade matemática do todos. Esta unanimidade estratégica para o pensamento global, sabemo-la impossível, porque as mensagens não são descodificadas da mesma forma.

blah, blah, blah

Quanto à existência maior ou menor de uma vertente ou de outra, comento apenas que essa é a tua visão - o que não quer dizer que não seja partilhada por outros!

Penso que o que se permite ver é uma realidade formal, que passa por verdade ou mentira quanto essa realidade é, ou não, aceite e posta em prática.

Parecem-me, quase, que palavras como verdade e mentira perderam importância no discurso e na vivência dos comuns, sendo apenas sufuciente distinguir a realidade da irrealidade e das suas possíveis alterações.

blah, blah, blah

Dito por: jm no dia 28 de setembro 2003, às 16h55

Nesse questionamento e nesse espírito crítico apurado, exigente e em constante actividade, reside a construção da etapa que tem que ser alcançada.
E essa etapa é mais uma que se junta à anterior e que é aquela que falas. Recebemos uma "herança".
Fomos, num processo de socialização (Família, Escola, Sociedade) assimilando e vivendo com essa "herança" (que é cultural).
Mas o estado passivo não deve ser "o" estado.
Há que tentar perceber o porquê, o significado daquilo que parece ser- sem discussão, simplesmente porque sim- e, face a essa análise, extrair conclusões.
Tirar conclusões e aplicá-las a nós.
Ou para assumirmos a "descoberta" completamente para nós e de nós, fazendo-a estender aos outros, ou, pelo menos, para adaptarmos um pouco dessa nossa (agora) verdade nas relações que vamos desenvolvendo quotidianamente.
Neste processo (porque é de processo/percurso que se trata) não podemos deixar de considerar as rupturas, os eventuais traumas, os desagrados, os choques. Mas relativamente a isso, teremos que fazer opções e estar conscientes das consequências.
Assumir ou não assumir, eis a questão!
Isso dependerá, pois, da coragem de cada um.
Da vontade real de mudança de cada um. Mas também das possibilidades que são dadas a cada um.
Aspecto a ponderar: o Homem é um ser social, sendo que é nessa condições que deve analisar, avaliar e fazer aplicar as suas decisões.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 28 de setembro 2003, às 17h03

Uma nota adicional: qualquer comentário que aqui apareça não deve pretender surgir como uma Verdade Universal (mais consubstanciada na parte formal ou na parte material), ou seja, não deve pretender apresentar-se como Lei.
Penso, aliás, que não é essa a postura daqueles que por aqui param.
É precisamente pela diversidade possível e até pela saudável discordância que a riqueza deste blog, como espaço de discussão e reflexão, é tão grande.
Há, pois que continuar! (na minha opinião, claro).

Sandra :))

Dito por: Sandra no dia 28 de setembro 2003, às 17h12

Sandra, acho que é precisamente dessa postura, a de se ser dono absoluto da verdade, que se procura fugir. :)

jm:
A questão será a verdade que nos é impigida por outros. A que eles consideram como a única. Eu não vendo nada a ninguém como verdade. Defendo o que acredito e questiono o que me querem vender. Sempre.

Definições de verdade e mentira, cada um tem as suas, como tu o disseste. O problema é que a de alguns (a maioria) não chega a ser deles, mas é aquela que lhes disseram ser a única e é essa que continuam a trasmitir ad eternum.
Aquilo que acredito, o que defendo, é meu. Mesmo tendo consciência que muito disso está ainda impregnado de toda a herança cultural, religiosa, etc, que é transmitida geração após geração.
Cabe a cada um pensar os seus actos, crenças, acções - analisar o porque de serem assim. Se são seus ou terão sido "dados"....

Dito por: dolphin.s no dia 28 de setembro 2003, às 17h54

Subscrevo o que disse a Dolphin.s, transportando o conteúdo para aquilo que sou, como vivo e como sinto.

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 28 de setembro 2003, às 18h36

as oferendas culturais, mais ou menos impregnadas de opiáceos, servem-nos para construirmos valores.

uns constroem os seus valores com base em realidades conhecidas; outros utilizam os valores oferecidos.

a construção implica, aqui, transformação, evolução.

hão os que desvirtuam os valores, invertendo-os, os que os utilizam a seu belo prazer consoante as suficiências que estes lhes permitem.

a verdade e mentira são valores canónicos definidos culturalmente que variam consoante a origem cultural.

os perdidos, isto é, aqueles que questionam e pondo em causa transformam, não têm verdade nem mentira, tem ideias duma realidade melhor e pior.

Dito por: jm no dia 28 de setembro 2003, às 18h40

"os perdidos, isto é, aqueles que questionam e pondo em causa transformam, não têm verdade nem mentira, tem ideias duma realidade melhor e pior."

a questão será saber se transformam algo para além de si mesmos.
Há quem acredite que não e que não vale a pena fazer barulho.

concordo com o que dizes. é assim que eu me vejo. mesmo que seja difícil paras os outros vê-lo.

a ideia será calarmos o que pensamos só para nós?

Dito por: dolphin.s no dia 28 de setembro 2003, às 18h47

podes sempre propor uma discussão e assistir se alguém se transforma por causa dela.

Dito por: jm no dia 28 de setembro 2003, às 18h49

e o que é que adianta calares?
Teres a certeza que ninguém te ouve e que de facto nada muda?

enquanto falas fazes por te ouvir. Se ouvem ou não o problema será deles.

Dito por: dolphin.s no dia 28 de setembro 2003, às 18h58

Propor discussões e apresentar opiniões acaba sempre por valer a pena. Quanto mais não seja- e mesmo que não venha a provocar grandes alterações e criar rupturas na interpretação e aplicação dos conceitos-, porque confronta aqueles que parecem ter certezas muito enraizadas e permite que, mesmo por instantes (fugazes), se interroguem e opinem sobre elas. Até para as defender! Claro que, nessa sequência, podem sempre surgir contradições. E ai talvez, a consciência para a mudança ou reformulação seja mais vincadamente sentida.
Acrescenta-se ainda que "expressar diferente" possibilita alargamento de horizontes, novos questionamentos, necessidade de busca, de procura, de esclarecimento. E aqui a busca da experiência ou da nova experiência assume contornos com valores reforçados.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 28 de setembro 2003, às 19h39

cansam-me os ossos falar a quem não ouve.

e falar a quem me ouve é apenas falar do já conhecido, é repetir as mesmas ideias vezes sem conta... como ecos.

Dito por: jm no dia 29 de setembro 2003, às 11h15

às vezes ao falar para quem não ouve, pode estar um espectador que por acaso até ouve...

e pelo menos tenho a satisfação de dizer na cara de quem não quer ouvir que nem todos são iguais a eles.

Dito por: dolphin.s no dia 29 de setembro 2003, às 11h37