setembro 21, 2003

O Ser Humano

Stig DagermanTalvez possamos comparar o ser humano a uma banheira de faiança branca: durante a infância e a primeira juventude, a banheira enche-se de uma água clara e fresca, que sussurra risonha; depois a água fica morna, cada vez mais quente, é uma água destinada à lavagem das acções, dos pensamentos, das sensações, condenada a perder a sua pureza sem com isso poder ser suja de qualquer maneira, uma água destinada a ser despejada quando quem nela se banha já não tiver forças para continuar a segregar porcaria. Se o ser humano é esta banheira, chega uma momento da vida em que uma mão desconhecida tira o tampão do fundo e em que a água, de novo fria, escorre com a sua porcaria e a sua pureza; o silvo da morte que sai do cano a princípio enche de medo o ser humano, mas este rapidamente se resigna e por fim só deseja que a mão desconhecida que abriu o tampão, limpe depois com uma escova as camadas de sujidade que ficarem dos lados da banheira. Mas com um triste gemido a última água turva é sorvida, também ela, pelo buraco negro, a banheira está vazia e fica silenciosa, está morta e a casa de banho envolta em sombras. Com a porta aferrolhada pelo lado de fora, a casa de banho está fechada para toda a eternidade, nunca mais ninguém ali tomará banho.

in A Ilha dos Condenados, Stig Dagerman

nota: Este excerto já foi lido no Silêncio, mas achamos que vale a pena ressuscitá-lo. Talvez o mesmo venha a suceder com outros. Para estes reavivar de memória criámos o capítulo Reposição

Publicado por dolphin.s em setembro 21, 2003 08:00 PM
Comentários

todos nós estamos irremediavelmente destinados a banhamo-nos nas águas da nossa infância.

Dito por: arosendo no dia 21 de setembro 2003, às 21h41

não sei definir o que não me agradou neste texto, talvez a analogia escolhida...

mas a água é, de facto, metáfora recorrente da vida e da morte, assim como do próprio fluir do tempo; e é certo que a nossa «banheira» é nossa e de mais ninguém; todos somos únicos, irrepetíveis e insubstituíveis; só não somos indispensáveis, porque a Vida sempre continua...

Dito por: margem no dia 21 de setembro 2003, às 21h54

É um texto desconfortável. Um excerto do mais desconfortável dos livros de Dagerman. É o meu livro.

Dagerman explora os recantos mais escuros da alma humana e confronta-nos com sentimentos e pensamentos que até de nós mesmos escondemos.

Dito por: dolphin.s no dia 21 de setembro 2003, às 22h05

Em primeiro lugar, o expressar da minha concordância pela criação do capítulo "Reposição". Existem, efectivamente, mensagens, que devem ser ressuscitadas, pela força que tem o seu conteúdo. É bom que este encontro com o "choque", quase que impositivamente se verifique.

Quanto ao texto propriamente dito, é o que há de mais evidente sobre a força e o poder da Metáfora.

Da Metáfora que nos acorda.
Da Metáfora que nos desestrutura, quando tudo parece estar bem.
Da Metáfora que nos incomoda que nem um insecto que voa e zumbe à nossa volta.
Da Metáfora que nos confronta com o pior e mais frágil que temos de nós.
Da Metáfora que nos lê e nos faz ler.
Da Metáfora que nos ilucida.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 09h03

Vim parar a este silêncio, por acaso e não me apetece sair. A escolha dos textos é exuberante e penso se não deveria ser de aproveitá-los, com comentários sérios ou até como bom motivo de escrita criativa?

Dito por: Macorina no dia 25 de setembro 2003, às 16h09

Olá Macorina
Fico contente por gostares o suficiente do Silêncio para teres vontade de ficar :)

Quanto ao resto, o Silêncio existe da maneira que me dá mais prazer fazê-lo.
Antes da sua existência eu já copiava e guardava as passagens que mais gostava dos livros que lia. E mesmo sem ter objectivo definido quando "nasceu", foi nisso que o Silêncio se tornou - um espaço para ir "colando" textos que eu gosto.

Não acho que eles necessitem de comentários meus. Pelo contrário acho que a falta deles suscita a livre interpretação de quem os lê, e os comentários tornaram-se num espaço de agradável tertúlia entre amigos, mais ou menos virtuais.
Além do mais acho que nada do que eu pudesse acrescentar aos textos teria tanto interesse como os mesmos.
Eles vivem melhor sozinhos ;)

Dito por: dolphin.s no dia 25 de setembro 2003, às 16h35

Não sei porque Dagerman pensava assim...como muita gente pensa tambem, na infância como num refúgio intemporal, onde tudo é belo e puro...até gosto do texto dele mas a seqûencia que ele narra pode ser vista ao contrario.Na banheira como estando "suja" e desconfortável no inicio da vida e tornando-se cada vez mais bela a medida que se envelhece...tudo bem que é só um excerto de um livro escrito metafóricamente, mas prefiro a ideia de viver a vida do que morrer antecipadamente...

Dito por: ricardo Marques no dia 21 de novembro 2003, às 17h06

gostava de ter a tua visão, mas infelizmente a vida não se torna mais bela.
ganhamos muito, com certeza, mas perdemos a inocência da criança que vive para alegria do dia.
ganhamos conhecimentos, experiências, amores... mas perdemos tanto... perdemos crença no homem, perdemos esperança que algo mude. perdemos amores, perdemos vida, perdemos risos...

Dito por: dolphin.s no dia 21 de novembro 2003, às 18h16