setembro 24, 2003

Não se pode comer um bolo sem o perder

Fernando PessoaQuando, como uma noite de tempestade a que o dia se segue, o cristianismo passou de sobre as almas, viu-se o estrago que, invisivelmente, havia causado; a ruína, que causara, só se viu quando ele passara já. Julgaram uns que era por sua falta que essa ruína viera; mas fora pela sua ida que a ruína se mostrara, não que se causara.
Ficou, então, neste mundo de almas, a ruína visível, a desgraça patente, sem a treva que a cobrisse do seu carinho falso. Ás almas viram-se tais quais eram.
Começou, então, nas almas recentes aquela doença a que se chamou romantismo, aquele cristianismo sem ilusões, aquele cristianismo sem mitos, que é a própria secura da sua essência doentia.
O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. Todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos.
É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.

«Não se pode comer um bolo sem o perder.»

Na esfera baixa da política, como no íntimo recinto das almas - o mesmo mal.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Publicado por dolphin.s em setembro 24, 2003 10:35 AM
Comentários

Eis-nos confrontados com o que nos pode perturbar profundamente: o desnudamento da Alma.
Porque esta lá vai existindo, lá vai vivendo, lá vai expressando a sua essência com maior ou menor amplitude, mas sempre com uma roupagem que a parece querer proteger ou ir protegendo dos males exteriores. E sem essa roupagem, sem essa cobertura que aconchega e protege, o risco de desmoronamento, destruturação e mesmo destruição é grande, muito grande.
A doença da Alma é sempre um risco, uma possibilidade ou, até, uma inevitabilidade.
Várias podem ser as causas dessa doença, que pode também existir desde sempre, desde quando a Alma é só "em potência" e pré-significa aquele que é o seu "acto".
Há causas poderosas, ciclópicas, brutais, devastadoras para tal realidade. Ideologias, crenças, perda de sentido das (tais) idolatrias, existências inconformadas, desgastadas, diminuidas, repletas de caruncho e polvilhadas com pó de raízes podres. Grandiosas, menos grandiosas, sublimes, menos sublimes, físicas ou metafísicas.
Condicionado por e, simultaneamente condicionante, o Desejo que tem inerente possibilidades e limitações, ânsias, pressas, fôlegos, ímpetos, mas igualmente, afrouxamento(s), falta de energia...acabando desta forma por se ir anulando a si próprio, porque auto-contradizendo-se com aquela que é a sua essência.
E o Romantismo? E os românticos? O que expressa e aqueles que vivem estes dilemas, estas inquietações, o tudo querer, o tudo abdicar, mas o tudo exaltadamente desejar, o tudo exaltadamente precisar... e o entrar, chafurdar, e irremediavelmente ficar na escuridão, entre a escuridão e fazendo multiplicar e carregar ainda mais a escuridão, quanto o caminho parece não vir ou o desejo (que é preciso, que não nos é preciso, que é desejável, que é muito desejável, que é muitíssimos desejável)não se consegue concretizar.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 24 de setembro 2003, às 12h01

«Quando, como uma noite de tempestade a que o dia se segue», Adão e Eva comeram a maçã da árvore proibida, a árvore do conhecimento, «viu-se o estrago que, invisivelmente, havia causado» esse acto. A sua felicidade residia na sua inocência; e a sua inocência residia na sua existência de seres físicos e instintivos, primários enfim, destituídos de sabedoria e de pensamento. Mas essa limitação era só aparência, porque eles eram diferentes dos restantes seres vivos - não eram plantas, nem animais, nem mesmo crianças recém-nascidas. Eram humanos e, como tal, não demorou muito até que neles se revelasse a sua condição humana - insatisfeitos, ambicionaram; ambiociosos, sofreram a respectiva consequência e, segundo o cristianismo (não me refiro ao homem chamado Jesus Cristo mas a uma instituição terrena)condenaram todos os seus descendentes ao mesmo castigo.
Eu vejo esta história como uma alegoria:
- somos os únicos responsáveis por nós mesmos (o castigo divino representa esse confronto da alma consigo mesmo);
- a insatisfação e consequente ambição são inerentes ao ser humano, desde sempre;
- não teria sido essa a «primeira idolatria»? a insatisfação, a ambição, e posteriormente então o medo (perante o constatar das consequências)...
- a humanidade encerra em si o bem e o mal, ou seja, nela já está contido a possível desumanidade a que alguns seres se votam e votam os outros (não posso deixar de pensar no impressionante testemunho da National Geographic que a dolphin.s aqui deixou).

Toda esta complexidade e ambivalência do Homem torna pertinente uma questão tocada por B. Soares: quais os limites aceitáveis para o desejo humano? a partir de que momento um desejo se torna uma doença? O autor parece muito pragmático em relação ao assunto. É consenso geral que um desejo é "doença" quando vivido obsessivamente apesar de impossível de realizar, ou quando esse desejo pode prejudicar outros. Ainda assim, não são às vezes muito ténues as fronteiras?


Dito por: margem no dia 24 de setembro 2003, às 15h14

Encontrando-me em fase de profundo pensar sobre as idolatrias e a sua ordem, eis que chega a Margem e deita mais "pólvora no barril". Tenho que repensar tudo o que já tinha pensado.
E a complexidade vai aumentando...

Sandra :))))

Dito por: Sandra no dia 24 de setembro 2003, às 17h24

LOL!!

ó pá, vocês dêm-me tempo de chegar a casa e descansar o cérebro!!!

Dito por: dolphin.s no dia 24 de setembro 2003, às 17h34

Eu não tenho tempo para perder tempo. Por isso tenho que vivê-lo intensamente. Aguentas o ritmo?

:))))))))))

Sandra

Dito por: Sandra no dia 24 de setembro 2003, às 17h54

dependerá de que tempo falamos, não é, Sandra? ;)

Dito por: jm no dia 24 de setembro 2003, às 18h23

Falo daquele tempo em que estou.
Quanto ao outro, aquele em que não estou, vou-o tão somente pensando, tão somente idealizando, tão somente aspirando. Comigo ou sem mim.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 24 de setembro 2003, às 18h38

Há tempo que não é nosso, que não nos pertence, e como tal não podemos dispor dele como desejariamos.

Nesse tempo que não nos pertence, não somos nós que impomos o ritmo.

Dito por: dolphin.s no dia 24 de setembro 2003, às 19h37

E o desejo pelo que não existe? Não será isso a "doença"? Ansiar por algo que nos vendem como a verdade, mas que nunca alcançaremos.

"uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos."

A vida perfeita não existe. A felicidade perfeita também não.

Enquanto ansiamos por isso, deixamos de viver realmente. Os momentos de felicidade passam-nos ao lado, porque não lhes damos valor, enquanto continuamos em busca de uma felicidade que não existe.

Se nos concentrarmos nos bocadinhos em que realmente somos felizes, ou procurarmos alguém real em vez do amor perfeito, não teremos uma vida mais completa, mais real?

Dito por: dolphin.s no dia 24 de setembro 2003, às 22h03

Penso também no que é vendido como ideal de vida, como objectivos a conquistar para se ser "feliz".

A nossa sociedade na sua maioria vive em busca e na crença dos mesmos objectivos para se ter uma vida feliz e realizada: casar e ter filhos!

Quando uma vida gira essêncialmente em busca de algo tão "prosaico", é certo que se irá falhar. Poderá alguém sentir-se realmente preenchido só porque é esposa e mãe?

Falo principalmente no género feminino porque o masculino pelo menos é icentivado a trabalhar e poderá aí encontrar alguma satisfação...
As mulheres, ainda hoje, têm como objectivo máximo serem esposas e mães. Não se sentem realizadas enquanto não cumprirem esses objectivos.
E, regra geral, depois de cumpridos vem uma sensação de insatisfação, vazio, que não conseguem compreender, porque, afinal têm a tal "vida perfeita".

Quando vejo alguém mais novo do que eu a referir-se a si mesmo como "uma boa esposa" tenho a sensação de ter voltado atrás no tempo...

Só superficialmente as coisas realmente mudam. E a diferença é uma minoria muito pequena.

e fugi - quase - completamente do assunto ehehehe

Dito por: dolphin.s no dia 24 de setembro 2003, às 22h13

Tê-lo-ia escrito de forma diferente (e tu já vais conhecendo o meu estilo, Dolphin.s...e compreendendo onde quero chegar, certamente), mas concordo absolutamente com o que dizes e o meu lamento vai na direcção do teu.
Parece que naquilo que tem a ver com a Mulher vamos estando em total sintonia. Já o conversamos e já o deixamos marcado (muito) num blog. E muito importante: com a mesma vivacidade, com a mesma emoção e com a mesma indignação perante o "feminino serôdio".

Sandra :))))))))))))

Dito por: Sandra no dia 24 de setembro 2003, às 22h24

"A vida perfeita não existe. A felicidade perfeita também não.

Enquanto ansiamos por isso, deixamos de viver realmente. Os momentos de felicidade passam-nos ao lado, porque não lhes damos valor, enquanto continuamos em busca de uma felicidade que não existe."

Sim, e creio que isso é verdade para todos, talvez para uns mais do que para outros. E não sei se tem sempre a ver com casamento, filhos, etc. Creio que todos têm momentos de insatisfação e vazio. Porque, independentemente da vida de cada um, somos humanos, queremos sempre algo mais.
Curiosamente, não me lembro de ter casado e ter tido as minhas duas filhas por seguir um qualquer ideal de vida, mas sim porque no momento era o que queria para mim; estava e estou consciente de que não é um ideal de vida, tal coisa não existe. Cada um vai buscando o que é importante para si.´E, inevitavelmente, qualquer escolha que façamos é um acto individual e egoísta. Sinto que também aprendo com as minhas filhas; o meu erro foi realmente não lhes perguntar se queriam nascer. E não me considero "boa esposa" nem "boa mãe", nem propriamente "boa pessoa". Sou apenas uma pessoa que vou fazendo o melhor que posso para mim e para os que me rodeiam (porque não escolhi ser eremita, embora me arrependa com frequência ;)), faço muitos erros, aprendo uns, nunca mais aprendo com outros, tenho tentado aperfeiçoar-me como ser humano, na medida do possível, tento encontrar um tempo para as minhas coisas (e tem sido difícil), porque o tempo não é só nosso, é daqueles com quem vivemos, do lugar que habitamos, do emprego que nos sustenta, independentemente de também nos realizar ou não, da loja onde compramos o que comer, da loja onde compramos o que vestir, dos espaços diários que temos de percorrer. E isso é assim para todos.
E, no entanto, como ainda podemos encontrar felicidade nesse pouco tempo que temos para nós! porque a nossa "escravatura" ao tempo, a ideais de vida ou seja ao que for, não é nada perante a "escravatura" do trabalho infantil, da exploração sexual (ainda o artigo da National Geographic), das guerras impiedosas, dos solos inférteis e/ou minados, da miséria,...

Desculpem se falei em termos tão pessoais; não sou feliz (comigo mesma) e já aprendi a não pretender sê-lo; nem sempre convivo bem com a ideia. Mas tenho momentos de felicidade. Às vezes sei aproveitá-los, às vezes sinto que os desperdiço. Ainda vou ter que levar muito na cabeça...! ;)

Dito por: margem no dia 24 de setembro 2003, às 23h25

"não me lembro de ter casado e ter tido as minhas duas filhas por seguir um qualquer ideal de vida, mas sim porque no momento era o que queria para mim"

E não é por essa razão que devemos tomar as nossas decisões?
Casar, ter filhos, como uma etapa natural de vida, como algo que na altura é certo para nós, é algo que eu só posso respeitar.
E se pessoalmente considero um acto egoista ter filhos, também acho que se mais pessoas responsáveis, inteligentes e com consciência do lugar que temos neste mundo, tivessem filhos, o mundo não estaria apenas povoada por uma maioria de "carneiros".

Mas viver isso por opção natural e consciente é diferente de casar e ter filhos porque desde o momento em que se nasceu é isso que se tem inculcado no cérebro e nunca se pensou sequer questionar. E a maior parte das pessoas faz filhos sem pensarem porquê, apenas porque sim porque "faz parte", ou porque "é a ordem natural das coisas". É isso que me faz confusão margem. Ver mulheres viverem exclusivamente com essa ambição de vida.
Se não fui clara no que disse, peço desculpa. Vejo casos desses todos os dias - provavelmente tod@s vemos - no trabalho, ou noutro lado, onde passemos grande parte do nosso tempo.
Vêr mulheres de 27 (!!!) anos a levantaram-se às 6 da manhã, com pontos de uma operação feita há menos de uma semana, para fazer o pequeno-almoço ao marido, porque é uma boa esposa!!! Ouvi-la contar isto com orgulho... ouvi-la acrescentar que espera ficar bem depressa porque deseja ter filhos. Talvez depois deixe aquele emprego, porque é longe de casa e arranje outra, se calhar numa loja, porque fica com mais tempo para a casa.

É revoltante. E não é um caso isolado. E não é alguém com falta de acesso a informação, cultura, whatever. São pessoas novas, que andaram na faculdade, conviveram com todo o genéro de pessoas, tiveram todas as oportunidades nas mãos. E continuam a viver com as mesmas ambições que viviam as mulher há 100 anos.

É a este tipo de ideal de vida a que me refiro e contra o qual me indigno... até ser chata muitas vezes :/

E podia copiar o teu último parágrafo e utiliza-lo para mim ;)

Dito por: dolphin.s no dia 24 de setembro 2003, às 23h45

Continuo a concordar contigo, Dolphin.s.
E porque não subscrever também o tal último parágrafo?

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 25 de setembro 2003, às 07h12

Temos que salvaguardar o nosso planeta
e fazer com não se degrade a cada segundo que passa... Temos que proteger a natureza, bem como todos os seres vivos que dela fazem parte. PROTEJAM A NATUREZA!!!!!

Dito por: ana teixeira no dia 8 de junho 2004, às 22h38