Cozinha de casa pobre. Ao fundo, uma porta. Numa parede, um calendário e uma janela. A MÃE olha para o PAI que lê o jornal
Silêncio.
A MÃE Já sei porque é que ressonas.
O PAI Então?
A MÃE Dormes com a boca aberta.
O PAI Como é que sabes?
A MÃE Vejo.
O PAI Quando eu estou a dormir?
A MÃE Sim.
O PAI Em vez de te pores a olhar para mim, apaga mas é a luz.
A MÃE Não posso apagar a luz. Tenho de ler as orações.
O PAI Não as sabes de cor?
A MÃE Sei.
O PAI Então, apaga a luz.
A MÃE Olho para os santinhos.
O PAI Olha de dia.
A MÃE E à noite, olho para quê?
O PAI Nada. Dorme.
A MÃE Como é que eu posso dormir, se tu ressonas?
Pausa.
O PAI Como é que está o tempo?
A MÃE Está sol.
O PAI Está a chover?
A MÃE Está sol.
O PAI Vai ver se chove.
A MÃE Está sol, como é que queres que chova?
O PAI Também chove quando está sol. Vem aqui escrito que está de chuva.
A MÃE Isso é o jornal de ontem. Ontem choveu.
O PAI Estou a ler as previsões.
A MÃE Não está a chover.
O PAI O tempo enganou-se. Se vires ó jornal de ontem, percebes que o tempo se enganou.
A MÃE Se lês o jornal da véspera, nunca tens as notícias do dia.
O PAI Sei no dia a seguir.
A MÃE E para que é que tu queres as notícias do dia no dia a seguir?
O PAI Para que é que quero as notícias do dia se vêm erradas? Mais vale ler no jornal depois, mas verdadeiras.
Pausa.
in A Festa, Spiro Scimone
Tradução de Jorge Silva Melo
Em cena pelos Artistas Unidos, no Teatro Taborda
Porque será que tudo isto é tão escandalosamente familiar? Os tipos humanos, os diálogos, as situações?
Para além da prosa, o texto teatral é igualmente importante para nos conduzir às "cenas da vida doméstica" ou às "cenas da vida em qualquer sítio". Uma mais valia, a repetir, aqui no "Silêncio". De preferência, para dar origem a muito "barulho".
Sandra
Dito por: Sandra no dia 20 de setembro 2003, às 20h33Apanhaste muito bem o espírito dos textos de Spiro Scimone.
Todas os textos dele a que já assisti encenados pelos Artistas Unidos são isso mesmo: cenas de vidas comuns. Demasiados comuns.
E que nos deixam desconfortáveis com o riso que nos provocam.
A Fnac tem a venda um livro com as 3 peças já apresentadas por cá: A Festa, o Café e Núnzio ;)
Dito por: dolphin.s no dia 20 de setembro 2003, às 21h21AH!!
Eles também têm à venda esses livros (e outros) no Teatro Taborda!!!
Mais baratos €5 do que na Fnac!
A "livraria" está aberta 1h30 antes das peças e 30m depois das peças.
Mais um motivo para ir visitá-los ;P
Tens o dom de me dar sempre informações preciosas ou de me chamar a atenção de coisas que me escapam. Porque será? :)))))
O simples (ou mesmo o simplório), brejeiro ou ridículo são sempre uma tentação para o riso. O pior é quando muito do que estimula o riso invade também a totalidade da nossa vida. Nesse caso...
Sandra
Dito por: Sandra no dia 21 de setembro 2003, às 07h40O riso, a vontade ou desejo de rir podem ser fatais...
Lembremos "O nome da Rosa", a biblioteca, os livros, Aristóteles, os dois jovens, o velho cego Jorge- o Venerável, o veneno e a morte...
Já vem de longe: os livros podem ser um perigo...
O teatro pode ser um perigo...
A liberdade de expressão pode ser um perigo...
...para quem quer que tudo fique na mesma. Para quem como Jorge-o Venerável, defenda que o Conhecimento ou o Saber não devem evoluir, antes ser só uma recapitulação (de preferência, determinado tipo de recapitulação).
Sandra
Fui hoje ver a Festa. É tudo isso que escreveram anteriormente:
"Cenas Comuns ...que nos deixam desconfortáveis com o riso que nos provocam"
e ainda, um permanente ecoar criando um ritmo fluído e ciclópico:
Deixo só mais uma pitada de sal:
Mae: Pões o casaco?
Pai: Ponho
Mãe: Não tens frio só com o casaco?
Pai: Não, está bem
Mãe: Veste o colete
Pai: Faz-me transpirar, o colete
Mãe: Se transpiras, tiras o casaco
Pai: Estou bem com o casaco
Mãe: Mas não transpires.
Pai: Não
Mãe: Diz ao Piero
Pai: Digo
Mãe: Da última vez que transpiraste, mataste um cão.
Pai: Já te disse que o cão era cego.
Obrigada Thelma!! :)))))
Mais um pérola do texto! eheheh
Mais ninguém se tenta a ir ver a peça?? ;)