setembro 22, 2003

Que era, então, a vida?

Thomas MannQue era, então, a vida? Era calor, calor produzido por um fenómeno sem substância própria que conservava a forma; era uma febre da matéria que acompanhava o processo de incessante decomposição e reconstituição de moléculas de albumina de uma estrutura intimamente complicada e infinitamente engenhosa. Era o ser daquilo que na realidade não pode ser, que oscila numa doce e dolorosa suspensão sobre o limite do ser, nesse processo contínuo e febril de decomposição e renovação. Não era matéria nem era espírito. Era qualquer coisa entre os dois, um fenómeno sustentado pela matéria, como o arco-íris sobre a queda de água, e semelhante à chama. Mas, se bem que não dependesse da matéria, era sensual até à volúpia e até ao desgosto o impudor da natureza tornada irritável e sensível com respeito a si própria e à forma impudica do ser. Era uma veleidade secreta e sensual no frio casto do universo, uma impureza intimamente voluptuosa composta de nutrição e de excreção, um sopro excretor de ácido carbónico e de substâncias nocivas de procedência e natureza desconhecidas. Era a vegetação, a desenvolução, a proliferação de uma coisa túmida, de água, de albumina, de sal e de gorduras a que se chamava carne e se convertia em forma, imagem e beleza, mas que era o princípio da sensualidade e do desejo. Porque essa forma, essa beleza não eram conduzidas pelo espírito, como nas obras da poesia e da música, nem tão-pouco por uma substância neutra e absorvida pelo espírito, que encarnasse o espírito de uma maneira inocente, como o são a forma e a beleza das obras plásticas. Era, pelo contrário, conduzida e elaborada pela substância, despertada, de modo desconhecido, para a voluptuosidade, pela substância orgânica, pela própria matéria que vive decompondo-se, pela carne perfumada...

in A Montanha Mágica, Thomas Mann

Publicado por dolphin.s em setembro 22, 2003 01:36 PM
Comentários

A abordagem às questões "O que é a Vida" ou "Em que consiste a Vida?" ou "Que era, então, a Vida?" não podem deixar de se apresentar para qualquer um de nós como de extrema (e nebulosa) complexidade. Pela forma como a vivemos, "por nós", como a acompanhamos, "aos outros", como nos apercebemos do que em ela desperdiçamos ou ao que nela nos obrigam, assim como para onde nos conduzem ou deixamos conduzir.
Há, pois, toda uma amálgama de vertentes e, nestas, de perspectivas susceptíveis de criar grandes inquietações, mas também, do possibilitar de análises, interrogações, juízos ou conclusões que permitem dar passos em frente, ultrapassar etapas, estancar eventuais estagnações, na senda de uma maior, menor ou mediana metamorfização. E esta é absolutamente nuclear no seio daquela(s) que é(são) a(s) questão(ões) mais global(ais).

A Vida não pode deixar de forma alguma de ser matéria poderosa para os escritores. Porque lhes compete ver e analisar tudo de forma diferente, de forma mais elevada, eventualmente bastante mais aprofundada, com um cunho acrescido de criatividade e de alargado aproveitamento de figuras de estilo enriquecedoras dos textos literários e das mensagens neles transmitidas. O texto que aqui comentamos é prova disso mesmo. A Vida é vista como um quadro, ou melhor, como dois ou mais quadros de menor dimensão onde tudo consta, onde tudo constrata, onde tudo parece ser e não ser simultaneamente, onde tudo se fortalece, mas onde tudo também se dilui.

Toda esta riqueza deve ser por nós aproveitada: como seres dotados de razão, como seres dotados de emoção, como seres imbuídos e viventes da Civilização, como seres com capacidade e vontade suficientes para decidir,para escolher, no sentido da elevação.
"Que era, então, a vida?"
Porque não responder: "algo que já foi mas que agora é diferente?"

Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 18h42

Este texto é um culminar de quase 10 páginas de análise biológica do corpo humano que Thomas Mann faz no livro.
É a tentativa do jovem Hans Canstorp de perceber de que somos feitos, o que é a matéria do nosso corpo. Que milagre gera a vida - qual o momento exacto em passamos de matéria a vida...

Dito por: dolphin.s no dia 22 de setembro 2003, às 18h49

Que era, então, a vida? Era... era... era... Porque afinal a vida é... é... é...

A vida é! O pior é quando lhe procuramos um sentido!

:)

Dito por: luis no dia 22 de setembro 2003, às 19h23

:))))

Acho que é isso que o Hans está a descobrir ;)
à procura no lugar errado, provavelmente... na descoberta de si mesmo.

Dito por: dolphin.s no dia 22 de setembro 2003, às 19h27

Luis! Ainda bem que apareceste por aqui! Eu não te disse que era uma comentadora assídua? Dá para confirmar, não? ;)
É bom ter-te entre nós...para além dos nossos (meus e teus) encontros no ENE COISAS e no HISTÓRIA E CIÊNCIA. :)) Vais ver que não te vais arrepender. :))
Por aqui a generalidade do pessoal gosta de pôr os neurónios a funcionar e lá vai opinando sobre literatura, pintura, fotografia, letras de música; enfim, sobre tudo o que vai aparecendo.
Não tenho dúvidas que os teus contributos só vão enriquecer ainda mais este espaço.

Abraço,

Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 20h49

Quanto ao sentido da vida de que fala o Luís...bom...este existe sempre. Agora só resta saber em que consiste, o que o norteia e em direcção a quê.
Perspectivas, objectivos, possibilidades, vontades, desejos, engrandecimento, desfalecimento(s), tortuosidades...tudo isto faz parte desse tal sentido (ou dos sentidos possíveis que têm inerente as alternativas).

Quanto à questão da análise biológica, esta é somente um passo ou uma etapa (enfim, um detalhe) para outras questões mais globais, consentâneas com a tal "coisa" que é a Vida. Afinal a Vida é também e sempre biológica...mas há muito, muito, mais...

Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 20h56

Vale bem a pena vir aqui e ficar um pouco a pensar em silêncio. Abraços a D e S!

Dito por: luis no dia 22 de setembro 2003, às 20h56

Meu ****, Sandra. até me arrepiei. foi um match! vê a hora das entradas!!!!!!!!!
:)))

Dito por: luis no dia 22 de setembro 2003, às 20h59

"Agora só resta saber em que consiste, o que o norteia e em direcção a quê."

E queremos mesmo saber isso? Não será desvirtuar o próprio viver.
A Vida não faz sentido. Não deve fazer! Deve ser como ouvir um cd com aquela música que nos arrepia ou ler o aquele escritor que nos fala ao ouvido.
Sentir!

"A vida é!" ;)

beijos em troca de abraços ;)

Dito por: dolphin.s no dia 22 de setembro 2003, às 21h04