Gosto de toda a espécie de torres. São incompreensíveis. Foram construídas por pura bravata, um lirismo arrebatado e improfícuo. Debaixo delas funciona um motor que nunca pára. De que servem as torres? O motor trabalhava no meio de uma grande poça de silêncio. Não pensem que as torres desaparecem assim, que nos livramos delas. Inquietam-nos. Caem sobre as nossas cabeças ou contemplam-nos, imóveis, implacáveis. E imaginava eu que mal reparara nela. É assim: estamos diante das coisas; não as vemos. Só mais tarde, absurdamente, sabemos que apenas fizemos isso: vê-las e possuí-las. E ser apanhado por elas.
in Os Passos em Volta - Escadas e Metafísica, Herberto Helder
O tamanho e a evidência das coisas não significa necessariamente que sejam de fácil apreensão para nós. Por vezes acontece precisamente o contrário: ou porque o seu tamanho naturalmente as esconde, ou porque nos atormentam e, por defesa pessoal, ignoramos. Ignoramos.
Vamos passando ao lado. Para que não nos voltem a inquietar, para que a sua queda sobre nós não seja tão duramente sentida, para que simplesmente nos contemplem, sobranceiramente, omnipotentemente. E nós, pequenos, pequenos, pequenos, minúsculos...lá vamos indo, lá vamos passando, passando, passando...
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" (Livro dos Conselhos. Cit. por José Saramago- Ensaio sobre a cegueira").
Sandra
Dito por: Sandra no dia 21 de setembro 2003, às 16h51dar as coisas, pessoas,... por "granted" só porque estão presentes..
ou só as valorizar quando já estão fora do alcance... mesmo que tenham estado à nossa frente toda a vida.
Dito por: dolphin.s no dia 21 de setembro 2003, às 17h05