setembro 22, 2003

Le Baisier

Joel-Peter Witkin - Le Baisier


Joel-Peter Witkin, 1982

Publicado por dolphin.s em setembro 22, 2003 06:30 PM
Comentários

"Quando as pessoas vêem o meu trabalho, não há nunca uma "zona cinzenta" de resposta. O que experimentam é amor ou ódio. Aqueles que odeiam o que faço, odeiam-me a mim também. Devem pensar que sou um demónio ou uma espécie de feiticeiro mau. Aqueles que compreendem o que faço, apreciam a determinação, o amor e a coragem que são necessários para achar prodigiosas e belas, pessoas que são consideradas pela sociedade defeituosas, obscenas, inúteis ou desprezíveis.

A minha arte é a forma como concebo e defino a vida. É um trabalho sagrado, visto que o que faço são as minhas orações. Estes trabalhos são a medida do meu carácter, a transfiguração do amor e desejo, e, afinal, a qualidade da minha alma. Com este trabalho, julgo-me a mim mesmo e sou julgado pelos meus contemporâneos e, em última instância, por Deus. A minha vida e o meu trabalho são inseparáveis. São tudo o que tenho. Tudo o que necessito".
Joel-Peter Witkin, 1990

Que mais posso dizer?

;-)

Dito por: luis no dia 22 de setembro 2003, às 19h34

Obrigada Luis! :)

também fico sem mais nada para dizer ;)

Dito por: dolphin.s no dia 22 de setembro 2003, às 19h55

Estranheza, incómodo, desassossego, um misto de repugnância e atracção, inquietude, confronto com a putrefacção, o degradante, o que se toca, cruza ou reflecte sem sentido mas ao mesmo tempo com harmonia, eis o que me faz sentir e provoca esta imagem. Mas o que provoca hoje, aqui e agora...amanhã...no futuro, se calhar será diferente. Há sempre a possibilidade de ser diferente! O artista com certeza que não se importa! Com certeza que autoriza! Ele é benévolo...

O Luís apresentou um excerto de discurso do autor que é deveras fundamental para, primeiro, a sua compreensão como pessoa e, segundo, para a sua compreensão como artista. Este tipo de palavras são sempre importantes para o melhor entendimento do que nos vai aparecendo pela frente, não devendo contudo ser castrantes ou limitadoras da nossa capacidade de análise, em particular no que respeita à liberdade e criatividade interpretativa. Devem, pois, ser antes um estímulo para um beber mais profundo e mais intimamente desafiador.
Se assim for, vale muitíssimo a pena.

Pegando, então, nas palavras do artista:

- o seu trabalho é um trabalho sagrado, então como ele mesmo diz, com esta imagem estamos perante MAIS UMA oração;

- o seu trabalho é a medida do seu carácter, então com esta imagem, estamos perante UM carácter ou uma manifestação PARTICULAR de UM carácter;

- o seu trabalho é a transfiguração do amor e desejo, então com esta imagem, estamos perante TRANSFIGURAÇÕES de UM AMOR e de UM desejo;

- o seu trabalho é a qualidade da sua alma, então com esta imagem, estamos perante UMA DETERMINADA QUALIDADE, de uma DETERMINADA ALMA (essência) sobre uma realidade específica, com objectivos representacionais específicos.

Uma vez que o artista já o faz, chegou agora a NOSSA VEZ DE O JULGAR. Chegou a vez de o fazermos de acordo ou em função das sensações provocadas e da capacidade que estas provocaram em nós de interpretar, no fundo, uma IDEIA.
E fazermos isto é uma urgência pois para o artista Vida e Trabalho são inseparáveis; são tudo o que tem.


Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 21h16

Não consigo olhar para uma obra de arte e analisá-la assim. Dissertar, ponderar... não consigo!

Olho... e sinto... ou não sinto...

Uma obra de arte é aquilo que reflecte em nós. Vive nos sentimentos que desperta em nós. Tentar analisá-la é o mesmo que tentar analisar um sentimento. Assim que se tenta agarrar a sua essência, estará perdido para sempre.

Assim como também não julgo o artista. Aquilo que é para mim, não o será para o outro, e vice-versa.

Dito por: dolphin.s no dia 22 de setembro 2003, às 22h01

Tudo, mas tudo, é susceptível de análise. Com mais ou menos razão, com mais ou menos emoção; só com razão ou só com emoção, mas tudo é susceptível de análise. A análise resulta do sentir...simplesmente do sentir...eu aqui não analiso o/sobre vazio (embora este possa também ser analisado se resultar de situaçõe, elas próprias, possíveis de análise e juízo).
O "julgamento" aqui foi ir ao encontro do artista...entrar na pessoa e na alma do artista...distanciadamente mas com objectivos de direccionamento interior fulminantes. E claro, sem esquecer quaisquer tipos de subjectivismos inerentes ou subsequentes.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 22h25

Vou ter que discordar contigo.
Na tua perspectiva tudo é susceptível de análise.

Na minha não é.
Os sentimentos não se analisam, sentem-se. Precisas analisar para saber se é raiva ou amor que sentes? Atracção ou repulsa?

Quando amas analisas o porquê? Desmontas o sentimento, procuras as razões? Eu não. Sinto e vivo.

E porque temos que ir ao encontro do artista? Ele faz a obra para vir ao nosso encontro. Para que nós nos encontremos (ou não) nela. Não é importante para mim saber o que significa a obra para o artista, ou em que pensava quando a criou. Importa sim o que me traz a mim, o que me faz sentir, o fascínio que exerce sobre mim.
Pessoas diferentes terão reacções e sentimentos diferentes a cada obra.
Com Witkin por exemplo, por muito que diga a algumas pessoas a beleza que vejo na arte dele, elas nunca irão compreender. Por isso, ir ao encontro do artista será, no fim, indiferente, porque é a tua reacção à obra que importa. E por isso também não é realmente tão importante para quem recebe a obra saber o que ela é para quem a fez.

Dito por: dolphin.s no dia 22 de setembro 2003, às 22h37

desculpem interromper, mas na vossa opinião, é ou não a mesma cabeça que se beija, como num espelho, e faz lembrar quê?, algo que que se conserva?, como em formol? e depois aquelas pequenas e finas quê, raízes? parece um tubérculo?

Ok, com o sentimento, e pondo de lado qualquer análise racional, talvez a obra possa falar de algo de nós que se perdeu e que amávamos! Algo pequeno e sórdido! Algo que aconteceu há muito tempo e de que temos vergonha!

Podemos sempre analisar, podemos sempre usar a razão, mas as emoções podem levar-nos aos mesmos ou a outros locais.

Arte e ciência... ia dizer que eram diferentes... mas na verdade sinto-as iguais.

;)

em todo o caso confesso que a vossa discussão me fez olhar outra vez para a imagem, e da primeira vez a detestei, o mesmo não aconteceu desta vez.

Beijos

Dito por: luis no dia 22 de setembro 2003, às 23h01

Claro que os sentimentos se sentem e eu sinto-os muito, acredita. Até sinto demais. Mas isso não me impede de fazer uma análise paralela que vai acompanhando esse sentir: o seu começo, desenrolar e eventual terminar. É na soma do "sentir" e do "analisar" que eu vivo os sentimentos.

Os posicionamentos perante as obras, quaisquer que elas sejam, são o mais subjectivos possível. Cada um, no âmbito da sua individualidade, sente e posiciona-se diferentemente perante o objecto e perante aquele que o concebeu. Com uma postura mais ou menos "existencial" face a um ou a outro, esta não deixa de ser uma realidade. Claro que para o artista isso pode ser ou não importante, pode ser ou não relevante, mas esse seu posicionamento também não tem que ser importante para nós.


Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 23h02

Não tenhas problemas em interromper Luís. Eu e a Dolphin.s estamos só no meio de um saudável, agradável e estimulante debate.

Sandra :))))

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 23h06

Luís:

aproveito a tua intervenção para reforçar um ponto já constante no meu primeiro comentário: a evolução que pode haver do nosso posicionamento e ponto de vista perante qualquer tipo de obra de arte. Considero isso muito normal, quanto mais não seja porque os nossos sentimentos (e formas de análise) estão sempre em "estado de movimento" e "evolução".

Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 23h09

Interessante a ideia do Ser que se desdobra e/ou se reflecte. E a questão de algo que os suporta ou permite manterem-se suspensos ou firmes, também.

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 23h12

Tudo depende tanto de cada um, somos tão únicos! A análise de sentimentos pode ser necessária, quando nos sentimos perdidos e incomodados com emoções que não entendemos e queríamos entender... Mas também pode ser perversa, quando analisamos tanto que nos esquecemos de sentir verdadeiramente. Tudo é susceptível de análise? Talvez sim, para quem assim o entender, para quem assim as coisas fizerem sentido. Talvez não, para quem assim não o entender, para quem as coisas assim não façam sentido. Somos tão únicos! ;)

esta imagem, analisei-a ou senti-a?

olhei-a longamente... a curiosidade por um artista que só aqui conheci; tinha alguma coisa para dizer mas não atinava com as palavras; e agora escrevo:

são raízes as entranhas visíveis
são ramos ao vento as cãs desalinhadas
- estranho ninho de amor

e também:

é macabra a claridade que os rostos impõem à película envelhecida -
é terno, estranhamente terno, o silêncio dos olhos fechados -

:)

Dito por: margem no dia 22 de setembro 2003, às 23h17

A kind request by Joel-Peter Witkin:

The aware know that my work is based on the need to create images of love and redemption. Most of my works are made by the collaboration with people ( the source) who know of truly unique individuals who are willing to be photographed. I give the source of the resulting photograph a gift print. The model can either be paid or receive a gift print.

I am looking for a reasonably attractive blind woman 20 to 40 years old who I can photograph nude. Both her eyes must look totally dysfunctional.

I am also looking for an attractive woman, 20 to 40 years without arms.

Will travel anywhere in the world, if need be.

Joel-Peter Witkin.

Please write letters to postino@zonezero.com with the subject: "Witkin"

http://www.zonezero.com/exposiciones/fotografos/witkin2/index.html

um abraço e um :)

PS. com a ajuda do santo google

Dito por: luis no dia 22 de setembro 2003, às 23h24

Já o disse várias vezes, mas aqui fica mais uma: cada ser humano é irrepetível.

Quanto à obra: por mais considerações que aqui façamos e mesmo que acabe por chegar a explicação contida na obra donde a imagem foi extraída ou de outro sítio qualquer, o caminho para uma explicação e sentir diferente está sempre em aberto.


Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 23h27

Luis:

és um querido, és um querido. :))))

Sandra

Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 23h29

"É na soma do "sentir" e do "analisar" que eu vivo os sentimentos."

Mas esse analisar é misturar a razão com o sentimento. Deixas de sentir apenas e racionalizas o sentimento. Um sentimento racionalizado não existe. A razão é a negação da emoção. São compartimentos bem diferenciados. Quando misturados deixam de ser um ou o outro e passam a ser uma análise racional.
Os sentimentos, as emoções, nunca serão racionais.
Felizmente! :)

"mas esse seu posicionamento também não tem que ser importante para nós."

Então contradizes-te. Isso é o que eu defendo. Tu querias ir de encontro ao que o artista diz ;)

Dito por: dolphin.s no dia 22 de setembro 2003, às 23h49

margem disse:
"Mas também pode ser perversa, quando analisamos tanto que nos esquecemos de sentir verdadeiramente."

My feelings exactly ;)))

Dito por: dolphin.s no dia 22 de setembro 2003, às 23h57

Não, não me contradigo porque ponho a afirmação com uma carga de relativismo. Não tem que ser importante, mas pode ser importante. Depende.

Não, te esqueças, no entanto, no que a Margem disse anteriormente. Há sempre a possibilidade de haver outras possibilidades.

Sandra :)

Dito por: Sandra no dia 23 de setembro 2003, às 06h52

Claro Sandra, por isso devemos evitar verdades e/ou absolutas certezas absolutas ;)

O que é verdade para uns, certamente não o será para todos.

Dito por: dolphin.s no dia 23 de setembro 2003, às 10h20

Não podemos estar mais de acordo. :))))

Sandra

Dito por: Sandra no dia 23 de setembro 2003, às 17h33