Diego Velazquez, 1656
Joel-Peter Witkin, 1987
A Arte, e nela o Belo, podem adquirir as mais variadas formas e provocar as mais variadas sensações.
Com estes dois quadros temos estéticas (ou noções de estética) diferentes e isso é irresistivelmente perturbador e desafiante.
Com Velasquez temos a paz, a harmonia, as formas certas, as cores adequadas e bem distribuídas, um ambiente estruturado, "limpo", apropriado para estar, para pousar, para ficar.
Com Witkin temos o desarranjo, o quase fantástico ou surrealista, o desorganizado, a perturbação do equilíbrio, o absolutamente contrastante, o incómodo, o convite à fuga.
Estamos perante um cenário (com dois quadros) onde há o "verso" e o "reverso", onde a ideia ou noção de constância é posta em causa, onde a mesma realidade pode ser vista, interpretada e dada a conhecer e a apreciar de formas absolutamente distintas, onde o mundo, o ser e as coisas são concebidos numa dualidade incontornável, onde o sublime e o seu contrário são evidências, onde o previsto e o imprevisto se cruzam, descruzam e se podem acabar por fundir.
No fundo, a mesma realidade pode ser sempre entendida de forma diferente. Compete-nos a nós perceber isso e à Arte torná-lo (ainda mais) perceptível, pondo o Belo ao serviço do esclarecimento (Pragmatismo da/na Arte?).
A Arte deve ser também de intervenção.
O Artista deve ser (também) um porta voz dos problemas da Humanidade.
Aqueles que vão ao encontro das obras e daqueles que as concebem devem assumir uma postura onde para além do mero contemplar pelo contemplar e do sentir dai resultante, tenham também a capacidade para entrar na alma da obra, com todos os subjectivismos que dai possam resultar. Devem é, sempre, esforçar-se por ir ao encontro dessa alma. Para a rentabilização, potencialização e funcionalidade ainda maior dessa mesma Arte.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 21 de setembro 2003, às 15h31A "subversão" que Witkin faz do ideal de belo apaixona-me.
O trabalho dele fascina-me.
Dito por: dolphin.s no dia 21 de setembro 2003, às 17h06Sim, os contemporâneos subverteram o ideal aristotélico do belo - creio que começaram a fazê-lo de forma clara em finais do séc. XIX...
Os meus conhecimentos de História são poucos, pouquíssimos, mas arrisco a dizer:
- Velazquez compõe a sua obra segundo os padrões do Barroco (a sumptuosidade, o artificialismo e a vaidade das figuras representadas), mantendo a herança Clássica ( o rigor estático da composição e a concepção da arte como imitação da natureza/realidade representada - conceito aristotélico);
- Witkin (obrigado, dolphin.s, desconhecia este pintor) já revela a busca da realidade além da realidade, já revela particular atenção à psique.
Eu diria que Witkin olhou as figuras de Velazquez e lhes quis pintar a alma; então escavou-lhes a superfície e encontrou: uma menina rica mas oca, confinada à dependência dos que a rodeiam, aprisionada no seu estatuto social; um cão por natureza pouco dado a poses, mas que aprendeu a obedecer; meninas, e uma freira, e uma serviçal, que encerram em si o mal de que pensam estar protegidas; uma figura masculina (paternal?) que se afasta, abandonando a menina, porque já lhe arquitectou a vida, já dispôs as peças em palco - poderia ser a salvação da menina, se quisesse...; finalmente, um pintor, também ele pintado, que na verdade é meio cego porque não vê o que Witkin viu.
Dito por: margem no dia 21 de setembro 2003, às 21h41Olá margem :)
Só um apontamento: o que torna (pelo menos para mim) o Witkin único e tão fascinante, é que ele não é pintor mas sim fotógrafo. Trabalha sobre montagens e muitas vezes usa corpos que compra em morgues.
O facto de só vermos "meia menina" não será uma ilusão de óptica ;)
agora arrepiaste-me!
mas olhar a morte talvez também seja uma forma de compreender a vida
gosto de alguns quadros de Magritte e recordei um, feito a partir de uma tela de Manet: onde Manet pintou três figuras numa varanda, Magritte pintou três caixões na "mesma" varanda
Dito por: margem no dia 21 de setembro 2003, às 22h05:)
Gosto muito dos Lovers do Magritte.
Os quadros dele são sufocantes. Fazem-me sentir presa, fechada.
Dito por: dolphin.s no dia 21 de setembro 2003, às 22h23Quero complementar as informações sobre o grande fotógrafo com o seguinte aspecto, a menina não é um cadáver.
Nesta reformulação do quadro de Velasquez, Witkin serviu-se de humanos vivos. A menina é uma mulher adulta sem pernas.
O fotógrafo, para além de cadáveres ou partes de cadáveres, utiliza sobretudo monstros, pessoas com deficiências congénitas que apresentam malformações de todo o tipo.
Uma busca simples por Witkin num motor de busca irá dar-vos a conhecer vários trabalhos deste artista de culto.
Nas FNAC surge muitas vezes um livro dele... e existe sempre um exemplar aberto para desfolhar - com cuidado.
Dito por: jm no dia 21 de setembro 2003, às 22h26grata pelas informações :)
após ler o que escreveram, tive de rever a imagem: e agora parece-me que ao mundo aparentemente perfeito das "meninas" de Velasquez se sobrepõe um outro mundo, aparentemente imperfeito, e os dois mundos são este em que vivemos
Dito por: margem no dia 21 de setembro 2003, às 23h34A ideia de "Belo" tem sofrido evoluções ao longo dos tempos. Por isso a possibilidade sempre inesgotável da análise de uma obra, qualquer que seja a época a que se reporte a sua criação.
Temos muito para explorar. Cabe à Dolphin.s dar-nos essa oportunidade.
Para não variar, as informações sempre preciosas de jm...
Sandra
Dito por: Sandra no dia 22 de setembro 2003, às 09h12Te mando mi trabajo sobre la idea que nos inspira.
Atentamente; nacho benjumea
A mesma realidade pode ser sempre entendida de forma diferente.
No hablo portugués, pero ya quisiera ser entendido adecuadamente.
Atentamente; nachobenjumea
Sempre! :)
Obrigada nacho :)
e compreendi-te perfeitamente :)
Dito por: dolphin.s no dia 29 de março 2004, às 21h48