Ela está sempre à espreita.
É uma inevitável sombra de nós.
É um duplo.
É uma repetição virada do avesso.
Não nos larga.
Incomóda.
Perturba.
Interfere.
Serve de "tábua de salvação"
Sufoca.
Salva.
Afoga.
Eleva.
Olha-nos.
Olha-nos muito.
De fora.
De dentro.
Omipotentemente.
Omipresentemente.
...Embeleza e Arte...
...Enriquece a Arte...
...Dá espessura à Arte
...Dá vida à Arte...
...Envolve a Arte...
De fora...
De dentro...
Na aparência...
Na essência...
Sandra
A Morte faz parte da Vida.
Qual delas é o início e qual é o fim?
São duplos que simultaneamente se viram do avesso.
Que se completam.
Que se rejeitam.
Que se auto-anulam, porque se (auto) diferenciam.
Porque insistem em se diferenciar....
Desde sempre, para sempre, em permanente convívio...
Sandra
Sandra
Dito por: Sandra no dia 27 de setembro 2003, às 20h05Apesar de tudo e apesar de nada, Klimt apresenta-a envolta em cor, olhando para o que tem cor.
Para o que deve ter cor.
Para o que irradia cor...luz.
Apesar de tudo e apesar de nada, Klimt dá-lhe vida, atribui-lhe imagem, representa-a com vontade, dá-lhe vontade, permite-lhe posicionar-se e actuar de acordo com essa vontade...
...perante os outros que a sentem, que a presentem, que se refugiam, que se protegem...que não deixam de se expôr...de estar presente...de estar ali...perante si.
Sandra
A Vida nunca nos é dada como uma escolha nossa, mas a Morte pode sê-lo.
Porque a tememos tanto, então?
Não deveriamos temer mais a Vida que nos foi imposta?
A velha senhora mais que completar, complementa a nova. É como uma âncora que nos ajuda a dosear e a escolher as nossas opções diárias. Assim poderemos chegar em paz ao encontro final.
A morte é certo que é temida. Mas também pode ser desejada, abençoada mesmo. Os românticos exaltavam-na.
Hoje, quotidianamente, e em situações vivenciais "normais", é causadora de incómodo. Prefere-se o seu esquecimento. Mas em situações limite da dignidade humana, volta, por algumas pessoas a ser desejada. E eis-nos perante a problemática da "Morte Assistida". Eutanásia: necessária a sua consideração ou simples repúdio acrítico?
A minha posição, sem grandes delongas e a "seco": não sou contra. E não o sou, porque encaro a Vida como algo que deve, pelo menos minimamente, ser digna. A putrefacção física e psicológica é indigna do Homem. Permita-se, pois, a dignidade até na Morte.
Sandra
Pela igreja o suicidio (assistido ou não) ainda é visto como um crime. A Vida é vista como pertença a algo, alguma identidade, que não o individuo.
Assume-se assim o controlo total sobre a vida e morte de alguém.
Decide-se que se nasça. Ordena-se que se mantenha vivo.
É visto como imoral ajudar alguém incapacitado a morrer. Não é visto como imoral deixar esse alguém sofrer horrores até definhar por completo, perdendo, muitas vezes, no meio do processo a sua identidade por completo, aquilo que um tornava um indivíduo.
Assume-se a arrogância da autoridade sobre o corpo e a vida de outrém legalmente.
A arrogância do homem aqui como em tudo. Tudo é sua pertença para poder dispor como bem entende. A vida do homem, a vida do planeta, a vida dos outros animais.
Dito por: dolphin.s no dia 27 de setembro 2003, às 21h10Estava à espera de uma oportunidade para, mais uma vez, concordar contigo.
A oportunidade chegou.
A oportunidade foi construída. Introduzi o problema.
O problema foi aprofundado.
A sua pertinência foi identificada.
Pois é. Não tenho dúvidas.
Concordo contigo.
Por uma questão de moral.
Por uma questão de humanismo.
Por uma questão de sensibilidade.
Por uma questão de defesa do direito de optar.
Por uma questão de livre arbítrio.
Por uma questão de tolerância.
Por uma questão de limpidez de visão do valor da vida humana.
Pelo reconhecimento da importância e singularismo da Razão Humana.
Pela não animalidade mais repugnante.
Pois é...concordo contigo.
Sandra
A oportunidade foi construída. Introduzi o problema.
naaahhh.. piquei-te primeiro: Não deveriamos temer mais a Vida que nos foi imposta? ;) eheheheheh
Subtil mas certeiro :P
Sabia que ias reagir ;))
Dito por: dolphin.s no dia 27 de setembro 2003, às 21h32Klimt foi a origem de tudo.
Mais uma vez a Arte foi rentabilizade, para além, claro, de sentida...muito sentida.
Sandra :)))
Dito por: Sandra no dia 27 de setembro 2003, às 22h00Um registo último para salientar a perfeita conjugação das cores feita por Klimt.
As cores são importantes.
As cores têm significados. Individualmente e quando se envolvem.
A harmonia existe.
Mesmo com a representação da Morte. Apesar da representação da Morte.
E também pela representação da Morte.
As cores são importantes.
Agora e para o futuro, pensemos e reflectamos também sobre as cores.
Sobre o que nos podem transmitir.
Sobre o que nos podem fazer sentir.
Sandra
"Porque a tememos tanto, então? Não deveríamos temer mais a vida que nos foi imposta?"
Porque desconhecemos a morte mais do que a vida. À vida já estamos habituados, crescemos nela, aprendemos a mudar e a adaptarmo-nos à mudança, e mesmo a incerteza do dia de amanhã nunca é igual à que temos em relação à morte. Porque esta ninguém a conhece; os mortos não falam; e é irreversível. Penso que seja por isso.
"É como uma âncora que nos ajuda a dosear e a escolher as nossas opções diárias"
Pode ser. O temor que lhe temos pode levar-nos a valorizar mais a vida, a escolhermos mais conscientemente os nossos caminhos, ...
"A arrogância do homem aqui como em tudo. Tudo é sua pertença para poder dispor como bem entende. A vida do homem, a vida do planeta, a vida dos outros animais."
É verdade, dolphin.s, mas as questões de fundo são demasiado complexas.
O homem é arrogante ao impôr vidas e depois negar-lhes, por exemplo, o direito à morte. O homem é arrogante ao semear os alimentos que depois arranca à terra e destrói para se alimentar. O homem é arrogante ao abrir uma estrada, cortar uma árvore, partir uma pedra, para percorrer caminhos, construir as suas casas, etc. O homem é arrogante ao tirar a vida a uma peixe para o comer. Se o homem não fosse arrogante, já não havia homem; não teria sobrevivido a espécie.
Quero com isto dizer que a nossa arrogância é também a nossa sobrevivência. A grande questão é: impôr limites à arrogância (outra arrogância?), pela ética, pelos valores universais - e isso pode ser muito complexo, porque o homem parece ter perdido a lucidez necessária para o fazer; porque infelizmente o homem, ao longo dos tempos, nem sempre tem sabido usar a sua individualidade (com direitos e deveres); muitas vezes, exige os direitos, esquece os deveres, ou radicaliza posições, ou adultera criminalmente possibilidades legais que lhe são dadas. Então penso que não deve ser fácil nem consensual legislar nestas questões.
(estou com alguma dificuldade em explicar o que quero dizer, ainda hei-de repensar tudo isto)
Concordo que o homem tem o direito de decidir sobre a sua vida e sobre a sua morte, mas também tem o dever de reflectir sobre as implicações dessas escolhas.
O homem é arrogante precisamente pelo que dizes: só pensa nos direitos e nunca nos deveres.
E teria realmente deixado de existir sem o progresso?
E todas as tribos que existem até hoje e vivem de uma maneira perfeitamente saudável e em harmonia com a natureza - sempre até ao momento em que entram em contacto com o homem ocidentalizado, aí invariavelmente as suas sociedades começam a definhar.
O abrir estradas, cortar árvores, e tudo o resto é que vai acabar com o homem. O problema é que não será só com ele....
Dito por: dolphin.s no dia 27 de setembro 2003, às 22h43Uma sugestão:
Dolphin.s- para amanhã selecciona mais textos ou imagens que nos permitam, com maior frescura, repegar todas estas questões.
A Margem com toda a certeza não se importará e, inclusive, participará activamente.
Sandra :))
Dito por: Sandra no dia 27 de setembro 2003, às 22h51dolphin.s,
Gostava mesmo muito (se possível) que mostrasses o quadro que se encontra neste endereço:
http://www.nationalgallery.org.uk/WebMedia/Images/12/NG1256/mNG1256.jpg
Bom, senão, o endreço da página é:
http://www.nationalgallery.org.uk/cgi-bin/WebObjects.dll/CollectionPublisher.woa/wa/work?searchString=life&searchField=Work%20Name&collectionName=&workNumber=NG2582
Sobre o mesmo, é dito o seguinte:
This type of painting is called a 'vanitas', after the biblical quotation from the Old Testament book of Ecclesiastes (1:2): "Vanitas vanitatum . . . et omnia vanitas", translated "Vanity of vanities, all is vanity". The books symbolise human knowledge, the musical instruments (a recorder, part of a shawm, a lute) the pleasures of the senses. The Japanese sword and the shell, both collectors' rarities, symbolise wealth. The chronometer and expiring lamp allude to the transience and frailty of human life. All are dominated by the skull, the symbol of death.
Dito por: Paulo Silva no dia 29 de setembro 2003, às 11h51