setembro 26, 2003

Ah, perante

Fernando PessoaAh, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.


Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em setembro 26, 2003 10:45 AM
Comentários

sim, a essência do ser, a dimensão do universo,... tudo permanece um mistério e os grandes mistérios, se para alguns podem constituir desafio, na generalidade são perturbadores pelo que encerram de desconhecido e imprevisível

Dito por: margem no dia 26 de setembro 2003, às 11h22

107.

O homem queria ser, desesperada e teimosamente, mas todos os átomos do seu corpo e do seu espírito se afastavam uns dos outros, a uma velocidade estonteante, em direcção ao nada universal. Não conseguia travar a expansão e sentia que o seu ser, agora estendido até ao máximo, não tardaria a perder a unidade que lhe conferia a sua identidade única e maravilhosa. Foi até onde podia ir e depois, sem transição, sem dor ou espanto, sentiu-se como que virado do avesso e já não era nada, tinha deixado de ser, mas apenas o que então fora, porque ainda era.

Existirá maior mistério do que o ser? Citei-me a mim mesmo porque me deu jeito? :)

Dito por: Luis Ene no dia 26 de setembro 2003, às 15h54

Sem dúvida, problemas inerentes ao Ser (Humano)com consciência "de si".

Sem dúvida, questões inerentes ao Ser (Humano) com inquietação(ões) "em si".

Sem dúvida, angústias inerentes ao Ser (Humano), atento às insuficiências existentes "em si".

Sem dúvida, ansiedades inerentes ao Ser (Humano) que sabe poder, no entanto, sem saber como nem em direcção a quê.

Sem dúvida perspectivas do Ser (Humano) que se entende livre e, simultaneamente, cativo.

Sem dúvida, posturas do Ser (Humano) perante a possibilidade da existência da(s) divindade(s).

Sem dúvida, sentimentos de "um" que se desbobra "noutro" e, através dele se auto-questiona, se auto-inquieta, se auto-flagela, se auto-engrandece, se auto-diminui e destroça, se perspectiva no espaço e no tempo passado, presente e futuro.

Quem lê (nós):

o ver-se ao espelho naquele que sai de si e vai até ao outro, que utiliza e manipula;

o ver-se "em outros" que se desdobram e fundem, simultaneamente;

o ver-se a caminho da fusão que passará, imagináriamente a ser tripla, mas realisticamente não passa de dual...a caminho do fim que é o Uno.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 26 de setembro 2003, às 19h45

Clap Clap Clap

Dito por: luis no dia 26 de setembro 2003, às 21h36

"Existirá maior mistério do que o ser? Citei-me a mim mesmo porque me deu jeito? :)"

Talvez porque o ser que és tem uma "identidade única", logo uma forma única de expressar o mistério que todo o ser encerra. E a tua forma única transporta-nos à essência do mistério: temos uma "identidade única" mas não temos uma identidade una, e isso confunde-nos.
Fernando Pessoa escreveu: «Deus não tem unidade,/ como a terei eu?».

Dito por: margem no dia 26 de setembro 2003, às 23h16

Margem, gostei. e não conhecia essa do Pessoa. Haverá alguma coisa que esse homen não pensou disse?:)) Ei, aquel eponto de interrogação teclou-se sozinho... :O)

Dito por: luis no dia 26 de setembro 2003, às 23h56

Meu ****! ... esse homem não pensou ou disse!!

Dito por: luis no dia 26 de setembro 2003, às 23h57