Este sentimento: «Aqui não lanço a âncora». E sentirmos logo à nossa volta a maré agitada que nos puxa!
Uma viragem. À espreita, com medo e cheia de esperança a resposta anda em torno da pergunta, perscruta desesperada o seu semblante impenetrável, segue-a nos caminhos que menos sentido têm, ou seja, naqueles que se afastam o mais possível da resposta.
in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka
Para além da existência de âncoras (e esta realidade é susceptível de discussão pelo que tal significa, nomeadamente em termos de efectividade desse cenário, que é), importa que exista em nós a capacidade de as construir e moldar de acordo com as nossas necessidades.
O mundo onde nos encontramos inseridos, porque implica a convivência com muitas situações, assim como a participação (activa) nas mesmas, para além dos relacionamentos que tal envolve ou pode (sempre) envolver, implica que isso se verifique.
Questiono-me, mesmo, se o nosso voluntário isolamento, ou procura e vivência do que é único e particular em nós, não remete igualmente para a necessidade do sentir da presença de âncoras.
Estas acabam por estar sempre "lá", ou por estar sempre "aqui", connosco. Connosco e entre nós e os outros. Connosco e entre nós e o mundo.
O lançar da âncora acaba sempre por se verificar. O que pode ser diferente é os mares onde o fazemos ou a profundidade que esse lançamento pode atigir.
Por outro lado, será igualmente de atender a força que temos para a agarrar e a luta que conseguimos travar com as correntes (que mais ou menos fortes, sempre existem) que nos envolvem ou onde acabamos por, voluntária ou involuntariamente, nos envolver.
É que um escapar de mão, inesperado, mesmo que a culpa não seja da corrente, pode ter consequências absolutamente determinantes.
O agarrá-la com força, o vir ao de cima e a capacidade de lustrar essa âncora é, em todos os cenários, aquele que ainda melhor se pode pintar, fotografar ou desenhar...conforme as preferências.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 27 de setembro 2003, às 12h43"O lançar da âncora acaba sempre por se verificar. O que pode ser diferente é os mares onde o fazemos ou a profundidade que esse lançamento pode atigir"
Esta frase resume bem e muito melhor do que eu o poderia dizer, aquilo que penso.
As âncoras existem sim e nós precisamos de algumas delas. Por muito eremitas ou individualistas que sejamos, alguns outros são sempre essênciais na nossa vida. E isso não é mau ;)
Depois existem as âncoras financeiras... Essas sim, podem tornar-nos um pouco escravos. Claro que será sempre uma escolha nossa, uma questão de opções, mas nem todos temos o espírito "mochila às costas". A mim irrita-me a âncora que me prende a este lugar, este país.
E existem aqueles que não vivem sem âncoras. E que nem se apercebem que toda a vida viveram presos.
Sem dúvida preferível uma âncora (que iça e larga quando queremos) do que um "ponto fixo" que nos marca um eixo de rotação.
Um barco no entanto, deve estar livre e não fundear em dias de tempestada, porque "preso" pode quebrar e afundar...
Dito por: carlos no dia 29 de setembro 2003, às 12h17