Um primeiro sinal de que o conhecimento começa é o desejo de morrer. Esta vida parece insuportável, uma outra inalcançável. Já não nos envergonhamos de querer morrer. Pedimos para ser levados da velha cela, que odiamos, para uma nova, que ainda havemos de aprender a odiar.
in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka
Publicado por dolphin.s em setembro 16, 2003 07:55 PM... Já não nos envergonhamos de querer morrer...
- Será porque a vergonha é de estarmos vivos? E se sim, porquê?
- Não será pelo deficiente aproveitamento que damos à Vida?
- Não será pela mínima apropriação e pela mediocre exploração que de si fazemos?
- Não será pela pouca intensidade com que a vivemos?
- Não será pelo pouco que- em ela- nos conhecemos?
- Pelo pouco que sobre isso pensamos?
- Pelo pouco que exigimos?
- Pelo pouco que nos exigem?
- Pelo baixo que gritamos que tudo tem que ser diferente?
- Pelo baixo que gritamos que tudo deve ser diferente?
- Pela fraca consciência que temos da necessidade da mudança?
- Ou pela consciência envergonhada... sempre envergonhada, que nos impede de avançar?
- Ou pelo medo?
- Ou pelo temor?
- Ou pela resignação?
- Ou pelo conformismo?
- Ou pela acomodação?
Será por isto que já não nos envergonhamos da Morte?
- Por ela significar aconchego?
- Por ela significar recolhimento?
- Por ela significar um estado de calma?
- Por ela significar uma nova forma de liberdade?
-Por ela disfarçar prisões vivenciais presentes?
- Por ela garantir o futuro?
- Por ela nos permitir estar habitualmente, sem medos, sem receios, sem temores...simplesmente porque nos permite estar?
- Porque ela permita a Paz?
- Porque ela permite o descanço?
- Porque ela permite o reencontro de nós para connosco?
- Porque ela permite que nos envolvamos suavemente com o escuro, com a outra fase do dia, com a outra face da Existência (que aqui se anula)?
Se à velha cela que odiamos apresentamos como solução a nova cela que, não odiando já, tal se verificará num futuro, então o que resta nós?
- Será isso uma esperança?
- Será isso uma forma de esperança?
- Será isso uma fuga?
- Será isso um remedeio?
- Será isso um novo acordar?
- Será isso uma nova perspectiva?
Será ela a única coisa que temos para nos oferecer?
Sandra
pelo simples facto que o conhecimento nos trás a realidade e não um mundo ideal vendido por outros.
O conhecimento tira-te as vendas com que te tentam manter desde o dia em que nasces.
a vida não é bela. a sociedade ocidental é podre. o mundo não é um bom sitío para se viver. as pessoas não prestam.
deixas de acreditar que crescer, casar, ter filhos, ir para as discotecas todas as sextas e sábados, são objectivos de vida e que ao serem cumpridos terás a felicidade.
a felicidade apregoada não existe.
a velha cela é vida como eles a vivem.
a nova é a que vês com os olhos do conhecimento.
nem por isso te sentes melhor lá.
viver nem sempre é melhor do que morrer.
Dito por: dolphin.s no dia 16 de setembro 2003, às 20h47Sem dúvida que o Conhecimento e a absorção que dele fazemos (ou que dele nos propomos a partir de certa altura fazer)pode ser extremamente doloroso, sobretudo se isso significar o confronto com a realidade tal como ela é, tirando-nos a venda que até então nos tapava os olhos.
Mas este Conhecimento pode também ser doloroso (e esta questão não pode ser evitada; não podemos eximir-nos de a colocar e sobre ela reflectir) quando decidimos assumi-lo, e por isso passarmos a ser incompreendidos, rejeitados, excluidos, chutados, marginalizados ou fortemente ignorados, tudo, ao nível daquilo que é/está instituído, do "politicamente correcto", da cultura de grupo... mesmo por parte daqueles que nos são (consanguineamente) mais próximos.
Entre o feroz individualismo reinante, procurar ser demasiadamente diferente ou demasiadamente "conhecedor" pode ser brutal: pelo que significa o (exacerbar) do individualismo por si só e pelo que significa ou pode ameaçar a tal diferença!
Ser igual, frágil (no sentido de pouco conhecedor ou mesmo mau conhecedor) está provado que não é benéfico- e é esta a nossa posição, absolutamente imbuída de convicção-, pelo que nos limita; ser conhecedor pode igualmente ser problemático pelo que pode gerar de exclusão. E quanto a esta possibilidade-globalmente, a da adversidade-, temos que ter suficiente dose de resiliência para conseguirmos escapar a um embate catalisador de inequívocos estragos ou excessivas inquietações interiores.
Face a isto, como ficamos perante a Morte? "Viver nem sempre é melhor do que morrer"?
Aqui e agora, quero crer (e propositadamente não "querer") que não!
Sandra
Dito por: Sandra no dia 16 de setembro 2003, às 22h16É impossível dizer o que é melhor, estando-se vivo. A vida e a morte são a condição de qualquer ser vivo; são as coisas que temos como certas! estamos vivos e havemos de morrer. A vida pode ser muito difícil, tanto que a revolta por ter nascido sem pedir nada a ninguém se instale ou o desejo de atalhar caminho para a morte se instale também; não se sabe se é melhor, mas pode-se pensar "pior que isto não é!".
E quando digo «a vida» falo do ponto de vista interior, ou seja, parece-me que o desejo de morte advirá, não exactamente do desconforto com a vida, mas do desconforto consigo mesmo e com a sua dificuldade de se relacionar com a vida.
E no entanto comoveu-me aquele filme italiano "A vida é bela"... questões complicadas estas!
A questão não é procurar ser demasiado diferente ou demasiado conhecedor.
A questão é procurar seres tu mesmo. Nada mais do que isso.
Seres tu mesmo é que pode para os outros ser demasiado diferente.
A maneira como nos agarramos desesperadamente à ideia de que viver é sempre melhor, qualquer que seja a situação, é uma crença também incutida.
O suicídio ainda é visto como um crime.
Com toda a certeza que nem sempre viver é melhor do que morrer.
A Vida é Bela é um filme lindo :)
Dito por: dolphin.s no dia 16 de setembro 2003, às 22h53Albert Camus começa assim o seu livro "Le mythe de Sisyphe" (Tradução em cima do joelho)
"Existe apenas um problema filosófico verdadeiramente sério: É o suicídio.
Decidir se a vida vale a pena ou não de ser vivida, é responder à pergunta fundamental da filosofia"
O que pretendo dizer com o "demasiado diferente" ou "demasiado conhecedor" em nada entra em contradição, antes pelo contrário, com o ser "eu mesma". E lá, está, isso pode parecer demasiado diferente aos outros, pela diferença que eu quero que exista, pela diferença que eu exigo ir construindo, por aquilo que eu quero ser que eles (ainda) não são.
Quanto à questão do suidício, entendo-o como um acto desesperado, mas simultaneamente como um acto de absoluta coragem. E porquê? Precisamente porque se põe fim a algo que é visto, concebido e difundido como sendo o bem mais supremo. Contrariar isso, nestes termos, não deixa de ser arrasador.
Neste campo, e por derivação, temos ainda a questão do suicídio-assistido, vulgo Eutanásia, que levanta igualmente muita celeuma e interrogações. Pessoalmente não sou contra, antes pelo contrário. Penso que devemos ter o "Direito à Morte" e, nesta, ao "Direito à Morte Digna". Sim, porque também em relação à Morte devemos ter o direito de optar!
Quanto a viver nem sempre ser melhor do que morrer, não posso deixar de registar concordância. No entanto, não posso igualmente deixar de levantar a questão: e antes de viver e de constatar que eventualmente pode ser melhor morrer, não seria melhor nem sequer ter nascido?
Bom...isto leva-nos para outras grandes discussões. ;)
Sandra
Dito por: Sandra no dia 16 de setembro 2003, às 23h31RG, quanto ao teu comentário, e dando sequência ao que transcreves de Camus, penso que o grande problema filosófico é mesmo a Existência, pois é dela e a partir dela que pode derivar o Suicídio. Este não existe por si só, é sempre uma derivação.
Face a isto temos o Total que é a Existência e temos o parcial, que nada mais é do que uma possibilidade no âmbito do Total, que é o Suicidio. Não entender as coisas desta forma- em termos de colocação do grande problema- é, a meu ver, enviezar o que entendo ser uma evidência e uma correcção em termos de posicionamento de pensamento filosófico. Isto, sem descartar, obviamente, formas diferenciadas de tratamento que possam ser avançadas através deste ponto de partida ontológico.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 16 de setembro 2003, às 23h42não me vou alongar muito.
o meu avô tem quase 90 anos - tem algum conhecimento, talvez não seja instruído... a não ser pela vida.
escrevo (pouco) sobre ele num poema que pus no Rainsong... (não gosto de remeter as pessoas para o meu blog...) mas vejam o exercício "olho para trás" e analisem a parte que ao meu avô diz respeito - inda que falte ainda mais realidade.
não digo mais nada.
Dito por: jm no dia 17 de setembro 2003, às 00h24O pior problema é saber o que é estar vivo e não saber como é estar morto. Talvez por não saber-mos é que continuo nesta luta de tentar aceitar a vida como ela é.
Cada vez mais individualistas, impulso da liberdade mal gerida, hoje em dia temos que aceitar que o mal, a desgraça e o ódio são coisas normais tais como o bem, a harmonia e o amor...
É quase compulsivo termos de aceitar, senão corremos o risco de sermos discriminados na sociedade.
Contra este facto, luto como posso, mas quando me apercebo qual é a "ferramenta" que estou a usar, vejo que é apenas o ódio que resulta...
O amor apenas resulta com os(as) oportunistas e vigaros(as) e para ser enganado, quao triste é a realidade.
Tento contornar com a fantasia e os sonhos, mas nunca encontro um momento onde possa viver em pleno, livre das consequências da ignorância por conveniência de terceiros que rodeiam o meu Mundo, que tão pequeno é.
Palvras para quê...
Dito por: David no dia 21 de janeiro 2005, às 15h24