setembro 14, 2003

Não, não está ninguém junto à porta

Talvez pudesse ouvir passos junto à porta do quarto, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vagamente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento seria o máximo talento do homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defronte da porta, a poucos metros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas nesse instante ser-me-ia revelada a essencial crueldade do espírito. Penso que desejaria somente a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta. Ela não deveria bater, solicitar, inquirir.
— Posso falar? Podemos falar?
O meu único alimento é o desespero. E é do coração estéril que extraio toda a força: tenho confiança em que Deus está neste quarto, está na tão experiente expectativa das tumultuosas passagens dos comboios.
O pensamento alude ao norte, a essa ideia que relaciona o norte com o frio puro e a dramática alegria da neve, das temperaturas muito baixas. Alude também à viagem sem fé, inconsequente, feita com o inexplicável ardor de quem se inicia na eternidade.
Mas nem cigarros tenho. Estou possuído pelos dons infernais com que se cria um estilo sem tempo nem lugar, a fraternidade solitária, o amor sempre em viagem.
O meu gosto pela exactidão já sabe o horário dos comboios que possivelmente (evidentemente) nem vão para lá.
Deus principia a inspirar-me terror. A minha unidade, sobretudo. A unidade fechada e imóvel. O universo passa bem sem mim, e o terror é uma inspiração sem mácula, dentro do que pode alcançar.
Não, não está ninguém junto à porta.

in Os Passos em Volta - Os combóios que vão para a Antuérpia, Herberto Helder

Publicado por dolphin.s em setembro 14, 2003 11:28 AM
Comentários

Ah meu caro,Herberto Helder,tal como eu,nasceu nesta ilha que duma só vez é Deus e o Diabo na nossa existencia.Deus pela energia da sua natureza e por vezes o Diabo pela castradora "intelligentsia" que por aqui pulula.Talvez por isso,e para se encontrar,Herberto teve de partir para outras paragens,mas na sua escrita universal,ressalta-nos um certo claustrofóbico sentir,que costuma ser apanagio de qualquer ilheu sensivel.Obrigada por se ter lembrado do maior escritor/poeta madeirense da actualidade!

Dito por: Valeria Mendez no dia 14 de setembro 2003, às 14h16

Em primeiro lugar, quero aproveitar este comentário para enviar um cumprimento à Valéria: tenho passado os olhos pelo teu blog e, de facto, poder-se-á concluir que és uma pessoa cujo percurso de vida tem proporcionado inúmeras experiências, certamente enriquecedoras pela multiplicidade de estímulos provocados e, por isso mesmo, catalisadora do afastar de sensações claustrofóbicas. Bom... ou pelo menos, do seu atenuar. Acrescento esta ressalva porque a claustrofobia pode também ser entendida e sentida para lá daquele que é o espaço onde nos inserimos e integramos (mais ou menos temporariamente). E aqui estamos perante uma grande variedade de problemas...
Quanto à questão que levantas que engloba a dicotómica realidade "Deus"/"Diabo", esta podería levar-nos igualmente para abordagens complexas, nomeadamente aquelas que se situam no âmbito do "constructu" do pensamento cristão entre o qual vivemos e herdamos e que posiciona o Homem perante dois tipos de cenários face aos quais ele tem que tomar opções e face aos quais tem que sentir ou fazer advir sensações. Se o interesse existir, a discussão pode ser a este nível retomada. Tu decidirás, inclusive, fazendo a relação com o texto.

Quanto ao texto de Herberto Helder: chamou-me particularmente a atenção a confissão que faz de que o seu único alimento é o desespero e de que é do coração estéril que extrai toda a força.
Não fosse a poesia que imbui a sua prosa eu diria que estamos perante um equívoco. Mas esquecendo agora a relação poesia/prosa e avançando friamente com a questão: jamais pode ser o desespero a alimentar a Existência! Se assim for esta fica extremamente empobrecida naquilo que tem de mais Nobre e de mais Belo. Porque a Existência, por si só, é algo de Absoluto, no sentido de ser algo Superior: pelo potencial que acarreta e por aquilo que de positivo pode proporcionar e originar. E não deve, absolutamente, ser movida por algo que a diminui, embora "desespero" da sua essência faça parte (e isso sem qualquer tipo de dúvida).
Lembro a propósito do desespero, Sören Kierkegaard (filósofo cujo pensamento muito aprecio) que na sua obra "Desespero a doença mortal" sobre ele se debruça detalhadamente, concebendo-o como algo que permite aos homens distinguir-se dos animais, tornando-o dessa forma superior. Diz, pois, a este propósito:
"Sofrer de um mal destes coloca-nos acima do animal, progresso que nos distingue dele muito mais do que o caminhar em pé, sinal da nossa verticalidade infinita ou da nossa espiritualidade sublime".
O desespero, em meu entender, deve somente conceber-se e aceitar-se como uma fase, um momento, algo que é, pode e deve ser ultrapassado, apesar da espiritualidade sublime referida por K.
Por outro lado, entendo não poder extrair-se força de um "coração estéril". Há igualmente equívoco. A esterilidade não gera Vida, logo, não pode gerar Força. Se esta aparecer, surgir ou re-surgir, então é porque a esterilidade não era, pelo menos, total ou absoluta.
A acrescentar:
CADA SER HUMANO É IRREPETÍVEL.
Cada ser humano reage de forma diferente perante a realidade, perante estímulos, perante formas de motivação interna e externa.
Cada ser humano coloca-se perante a Divindade (se nela acredita) de forma diferente; pensa nela e sobre ela de forma diferenciada, sendo que o "temor" é uma possibilidade entre muitas outras. Não deve, contudo, ser a predominante, aquela que tem o fim último de nortear pensamentos e sobretudo condutas. Porque pela sua natureza (pelo menos ao nível do Cristianismo) a divindade é Boa e proporcionadora do Belo. A (sua)unidade que fala Herberto deve encontrar a capacidade para ultrapassar esta realidade (e aqui vamos ao encontro da dicotomia referida pela Valéria). De que forma? Bom, caberá ao indivíduo decidir qual o melhor caminho. Agora, a unidade nunca deve ser "fechada e imóvel" pois a Existência exige muito mais do que isso...para ser completa e para ser plena (mesmo que repleta de múltiplas contradições e inequívocas inquietações).
Neste sentido, termino salientando que o Universo nunca deverá passar bem sem quem quer que seja, designadamente se os envolvidos forem imbuídos de "positividade intrínseca". Porque, como disse, CADA SER HUMANO É IRREPETÍVEL, logo, a sua dispensabilidade (ou auto-dispensabilidade) priva esse mesmo Universo de "partículas" enriquecedoras e de suprema utilidade para o seu desenvolvimento e amadurecimento.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 14 de setembro 2003, às 15h04