setembro 22, 2003

O Veneno afinal agrada-nos

Friedrich Nietzsche— «Mas que conversa é a sua, sobre ideais mais nobres? Aceitemos os factos: o povo triunfou... Ou "os escravos", ou "a populaça", ou "o rebanho", ou seja qual for o nome que lhes queira dar... Se tal triunfo ocorreu por intermédio dos Judeus, muito bem! A nenhum outro povo coube missão histórica de tamanha importância. "Os senhores" foram abolidos, triunfou a moral do homem comum. Poderá encarar-se tal triunfo como um envenenamento do sangue (já que misturou indiscriminadamente as raças). Não pretendo contradizer essa opinião, mas do que não há dúvida é que essa intoxicação foi bem sucedida. A "redenção" do género humano (relativamente aos "senhores") corre sobre rodas. E, a olhos vistos, tudo se judaíza, ou cristianiza, ou populiza (que importam as palavras?). O avanço deste envenenamento pela totalidade do corpo da humanidade parece imparável e, aliás, a partir de agora o ritmo da progressão pode muito bem ser cada vez mais lento, mais refinado, mais imperceptível e mais ponderado. Tempo não falta... E, neste processo, será que ainda cabe à Igreja alguma tarefa necessária, será que ela ainda tem algum direito à existência? Ou poder-se-ia dispensá-la? Quaerítur. Parece que ela tolhe ou retarda esse avanço em vez de o acelerar? Ora bem, pode dar-se o caso de a sua utilidade ser precisamente essa... É certo que no fundo ela tem sempre uma rudeza, uma rusticidade, que repugnam a uma inteligência delicada, ao gosto propriamente moderno. Não deveria ela, pelo menos, refinar-se um pouco? Porque, nos tempos que correm, em vez de seduzir, afasta... Quantos de nós seríamos livres-pensadores, se não existisse a Igreja? A Igreja repugna-nos, mas o mesmo não sucede com o respectivo veneno... Abstraindo da Igreja, o veneno afinal agrada-nos...» Este o epílogo que um «livre--pensador» acrescentou ao meu discurso..., um animal sério, como amplamente mostra ser, e sobretudo um democrata... Tinha estado a escutar-me com atenção e não se conteve quando me calei. Porque, para mim, neste ponto existe de facto ampla matéria para me calar...


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche


Publicado por dolphin.s em setembro 22, 2003 10:30 AM
Comentários