setembro 17, 2003

Um Novo Amor

Friedrich Nietzsche— Mas não compreendeis tudo isto? Não tendes olhos para ver uma coisa que demorou dois mil anos a triunfar...? Também não é espantoso que assim seja, porque tudo o que é longo é difícil de ver, de abarcar no seu conjunto. Mas o acontecimento foi este: do tronco dessa árvore da vingança e do ódio, do ódio judaico — o ódio mais profundo e mais sublime, capaz até de criar ideais e de transmutar valores, um ódio sem igual sobre a terra —, cresceu uma outra coisa que também não tinha comparação possível, um novo amor, a mais profunda e a mais sublime espécie de amor... E de que outro tronco poderia ela ter brotado? Mas não se cometa o erro de pensar que um tal amor constituísse de algum modo uma negação daquela sede de vingança, que tivesse nascido como contradição do ódio judaico! Não, bem pelo contrário! Este amor nasceu desse ódio, era a sua coroação, a sua coroa triunfante, despontando mais e mais amplamente na pura claridade, debaixo da plenitude dos raios solares, e que agora, por assim dizer, no reino da luz, no reino das alturas, se lançava de novo em direcção aos objectivos do ódio, em direcção ao triunfo, à conquista, à sedução, com o mesmo impulso com que as raízes desse ódio se iam enterrando cada vez com maior tenacidade e avidez em tudo o que fosse profundo e malvado. Esse Jesus de Nazaré, apresentando-se como evangelho incarnado do amor, como «redentor» capaz de trazer a bem-aventurança e a vitória aos pobres, aos doentes e aos pecadores, não era ele precisamente a sedução, na sua forma mais sinistra e mais irresistível, a sedução que por caminhos desviados conduzia aos valores judaicos e às inovações judaicas em torno do ideal? E não é verdade que o povo de Israel alcançou os últimos objectivos do seu sublime desejo de vingança avançando precisamente pelo desvio que lhe foi mostrado por esse «redentor», esse homem que aparentemente punha em risco a unidade israelita, como se fosse um adversário? Não terá sido parte integrante das artes negras, secretas, de uma grandiosa política de vingança, de uma vingança de visão ampla, subterrânea, premeditada e de acção lenta, o facto de o povo de Israel ter chegado ao ponto de renegar o próprio instrumento da sua vingança e de o pregar na cruz à frente do mundo inteiro, como se de um inimigo mortal se tratasse, para que «todo o mundo», isto é, para que todos os adversários de Israel pudessem morder sem hesitação este engodo? E terá alguma vez o refinamento do espírito sido capaz de inventar um engodo ainda mais perigoso que esse? Qualquer coisa que se parecesse com a força sedutora, embriagante. anestésica e viciante desse símbolo que é a «santa cruz», desse horrível paradoxo de «um deus crucificado», desse mistério de uma crueldade extrema absoluta, inimaginável, a de um deus que se crucifica a si próprio para salvação do homem...? Uma coisa pelo menos é certa: até hoje, sub hoc signo, o povo de Israel, com a sua vingança e a sua transmutação de todos os valores, conseguiu triunfar sempre sobre todos os outros ideais, nomeadamente sobre os ideais mais nobres...


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche


Publicado por dolphin.s em setembro 17, 2003 01:32 PM
Comentários

Saramago introduz o "Evangelho segundo Jesus Cristo" com as seguintes palavras de Lucas (1,1-4):

"Já que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expor-tos por escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo, a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído."

Com Nietzsche estamos, certamente depois de sobre tudo muito ter pensado desde a origem, perante o esforço para que reconheçamos a fragilidade da doutrina em que fomos (temos sido)instruídos.

Termina Saramago da seguinte forma o livro supra-citado:

"Jesus morre, morre, e já o vai deitando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alargar toda a terra, clamou para o céu onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez."

Até onde vão as semelhanças com o pensamento do filósofo?

Até onde tal nos permite reflectir?

Até que ponto se poderá questionar a bondade ou a premeditação da Divindade?

Não foi a Encarnação um benefício para a Humanidade?

Para quando o Apocalipse?

E o quê em seu lugar?

Sandra

Dito por: Sandra no dia 17 de setembro 2003, às 20h57

"Até onde vão as semelhanças com o pensamento do filósofo?"

São os 2 ateus. Os 2 detestam a igreja ;)

"Não foi a Encarnação um benefício para a Humanidade?"

A encarnação é um logro.

O apócalipse, a haver, terá como único responsável o homem.

E o Envagelho Segundo Jesus Cristo, é um livro fantástico!!!

Dito por: dolphin.s no dia 17 de setembro 2003, às 21h13

Yes!!!! Yes!!!!

Pela Certeza. Pela Convicção. Pela Força.

Pela capacidade de analise e de retirada de conclusões sobre áreas de Fé, não com Fé, mas com a Razão.

Pela imediatez e forma inequívoca com que são feitas as alianças.

Com o que geras (ou em ti geras) identificações.

Pela postura face à possível (ou já real) desgraça, com todas as metáforas que a enformem.

Pelo gosto literário (que eu partilho) e pelo aproveitamento que dele fazes para ti, em ti e por ti.

Yes!!!

Sandra

Dito por: Sandra no dia 17 de setembro 2003, às 21h44