Ora, é sabido que os sacerdotes são os piores inimigos... Mas porquê? Porque são os mais impotentes. Dessa impotência cresce neles um ódio monstruoso e sinistro, um ódio que sendo o mais espiritual é o mais venenoso. Os maiores ódios da história foram sempre da responsabilidade de sacerdotes e os ódios espiritualmente mais elaborados, também... Porque quase não há comparação possível entre o espírito da vingança sacerdotal e tudo o resto a que possa chamar-se espírito... A história humana seria coisa assaz aborrecida se não fosse o espírito que os impotentes nela introduziram. Peguemos desde logo no exemplo maior: tudo o que no mundo foi feito contra «os mais nobres», contra «os mais fortes», contra «os senhores», contra «os detentores do poder», não chega a merecer referência em comparação com o que os Judeus fizeram contra eles: os Judeus, esse povo sacerdotal que, no confronto com os povos inimigos e nomeadamente com aqueles que os submeteram, só conseguia desagravar-se por via de uma radical transmutação dos valores desses povos, ou seja, por intermédio de um acto da mais espiritual das vinganças. E, de facto, só esta atitude se adequava a um povo de padres, a esse povo em que dominava o mais fundo desejo sacerdotal de vingança. Foram os Judeus que, com uma lógica aterrorizante, ousaram substituir a equação aristocrática dos valores (bom = distinto = poderoso = belo = feliz = amado pelos deuses) pela sua inversa, e que conseguiram reter essa inversão, por assim dizer, com a força dos dentes de um ódio abismal (o ódio da impotência), que os levava a dizer nomeadamente que «só os miseráveis são bons, só os pobres, os impotentes, os de baixa condição são bons», e que «só os que sofrem, os necessitados, os doentes e os feios são piedosos, abençoados por Deus e dignos de bem-aventurança»..., e que, «pelo contrário, vós, os homens de distinção e poder, vós sois para toda a eternidade os maus, os cruéis, os lúbricos, os insaciáveis, os ímpios, e sereis também para todo o sempre aqueles para quem não haverá perdão, os malditos, os condenados!...» É sabido quem recebeu a herança desta transmutação judaica dos valores... A propósito da iniciativa monstruosa e desmedidamente nefasta que os Judeus puseram em campo com tais declarações de guerra, cuja intransigência não encontra comparação, quero recordar uma ideia a que cheguei numa outra ocasião (Para além do Bem e do Mal, pág. 118), a saber, que, com os Judeus, começa a revolta dos escravos no âmbito da moral. Essa revolta que tem hoje para trás de si uma história de dois milénios e que só nos não salta aos olhos por um motivo..., porque triunfou...
in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche
Não sendo especialista em N.este será um texto que exigirá muita atenção: sabe-se que a irmã de N. fez aproveitamento do seu espólio filosófico e meteu-se em convicções que seguramente N. não apadrinharia...foi o suficiente para N. ter sido mal interpretado surante quase meio século.Lanço o desafio para alguma interpretações mais doutas, para evitar que a "cenoura" seja demasiado apetitosa...
Um abraço do Paco.
Nietzsche não era anti-semita. É muito fácil olhar para um texto como este e tirar-se interpretações como as que os Nazis aproveitaram.
Mas também é preciso não conhecer Nietzsche (ou conhecer mto pela rama) para se aceitar essas interpretações.
Nietzsche é contra a igreja, logo contra o que deu origem à mesma. É disso e apenas disso que fala.
A extrapolação fica por conta (e responsabilidade) de cada um.
Dito por: dolphin.s no dia 14 de setembro 2003, às 15h13
Se há algo que a História, o seu estudo e conhecimento nos ensina, é que os vários regimes ou as grandes ideologias sempre se aproveitaram da Cultura e da Arte para fazerem valorizar, predominar e glorificar os valores ou princípios que pretendiam (e pretendem) transmitir e incutir. Sobre isso não há qualquer dúvida. Como não há dúvida que muita gente desses quadrantes, durante a sua vida, colaboraram activamente em tais propósitos. Outros, por seu lado, e postumamente, viram os seus trabalhos recuperados, re-interpretados, re-avaliados e re-utilizados para o alcance dos mais diversos objectivos (ideológicos). Nietzche, não se pode negar, foi um dos nomes recuperados pelo Nacional-Socialismo, não porque ele viesse a defender (eventualmente) o Nacional-Socialismo teorizado e posto em marcha por Adolf Hitler, mas porque os seus escritos se adaptavam, com maior ou menor deturpação, à mensagem que se pretendia fazer passar. O que escreve sobre os judeus (para além do contexto em que o faz, note-se) e a ideia de Super-Homem, por exemplo, foram conteúdos extremamente aproveitados.
A não esquecer: tudo o que a propaganda do regime Nacional-Socialista pôde recuperar para exaltar o espírito do povo germânico, portanto, dos Arianos, fê-lo. Escritores, músicos e filósofos não foram esquecidos, como, ressalte-se da mesma forma, não foram esquecidos também outros que, pela sua não adaptabilidade ou por se apresentarem com pensamento contrário àquele que se queria fosse predominante (em nome da Raça, da ocupação do espaço vital ou da Solução Final!!), foram por isso severamente castigados com a punição, a tortura e a morte.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 14 de setembro 2003, às 15h33Bom, sendo um amador, devo fazer um reparo: neste texto são os judeus, ainda não a Igreja...
O que pretendia salientar era mais a preocupação com o fascínio formal que os textos podem ter- o que não significa que não haja conteúdo ( ...a tal profundidade...). Também não estou à partida de acordo com infinitas pluralidade interpretativas...pese embora o perspectivismo do nosso filósofo...
Um abraço, para os comentadores.
São os judeus, mas os judeus como os precursores daquilo que Nietzsche tinha como a origem de todos os males - a igreja e os sacerdotes.
Foram eles os fundadores da filosofia de vida cristã. É nesses termos que Nietzsche se refere aos judeus.
Reforçando o que disse no meu comentário e repegando no que disseste, Sandra, saliento mais uma vez a ideia de como o pensamente de N. foi recuperado.
O que está aqui em causa não é o que o filósofo pretendeu salientar no seu discurso, nem a interpretação que presentemente se pode fazer desses conteúdos (que tu, eu ou o Paco pudemos fazer), mas como- e isso é absolutamente diferente- tal foi aproveitado: numa época, num contexto e por uma ideologia específica.
Sandra
P.S- Cumprimento o Paco por todas as suas intervenções: pertinentes e cuidadas. Não escreve por escrever. Isso é bom.
Dito por: Sandra no dia 15 de setembro 2003, às 00h10Exercitar a leitura - o ver, tendo em conta as fotos que têm sido apresentadas - obriga-me a aprender e força-me a ler e reler com mais cuidado.Ao autor(a) de "Silêncio" reitero o meu apreço.
Igualmente um abraço e todo o meu apreço para a Sandra que persegue com denodo este trabalho de criatividade que a crítica partilhada pode envolver.
Tenho muito gosto em partilhar,,,
Paco.
Dito por: paco de la tour no dia 15 de setembro 2003, às 15h03Obrigada pelo apreço Paco.
Também me chamo Sandra, mas não sou a mesma pessoa que assina como Sandra ;)
por aqui assino sempre como dolphin.s e este blog é partilhada com outra pessoa que assina como jm :)
Espero que continues a vir cá conversar :)
Dito por: dolphin.s no dia 15 de setembro 2003, às 15h24kd as fotos de tortura?
vcs n tem n?
bota as fotos ae!
faz uma busca na net. existem site gores que te podem satisfazer os apetites.
Dito por: dolphin.s no dia 12 de maio 2004, às 14h46