setembro 15, 2003

O Progresso

Thomas MannSegundo os pontos de vista de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a posse do mundo: a Força e o Direito, a Tirania e a Liberdade, a Superstição e a Ciência, o princípio da conservação e o do movimento: o Progresso. Podia chamar-se a um o princípio asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da actividade transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso. Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das duas forças terminaria por triunfar; só poderia ser a da Luz, a do aperfeiçoamento guiada pela Razão. Pois a Humanidade arrastava incessantemente novos povos pelo seu caminho brilhante, ganhava cada vez mais terreno na própria Europa e estava a ponto de penetrar a Ásia. No entanto, faltava ainda muito para que a sua vitória fosse completa, e grandes, magnânimos esforços eram exigidos dos homens de boa vontade, dos que haviam recebido a luz, até que raiasse o dia em que desmoronassem as monarquias e as religiões, até naqueles países que, na verdade, nunca tinham vivido o seu século xvm nem seu ano de 1789.—Mas esse dia há-de chegar, dizia Settembrini, esboçando um fino sorriso sob a curva do bigode. Se não chegar pelos pés das pombas, chegará sobre as asas das águias Nascerá com a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da Razão, da Ciência e do Direito. Trará a santa aliança da democracia dos cidadãos, em esplêndido contraste com aquela três vezes infame aliança dos príncipes e dos gabinetes, cujo inimigo mortal, o inimigo pessoal foi o avô Giuseppe, numa palavra, a República Universal.—Mas, para alcançar esse objectivo final era, antes de mais nada, necessário ferir o princípio asiático, p princípio do servilismo e da inércia, no centro e no nervo vital da sua resistência, que era Viena. Tratava-se de vencer, de aniquilar a Áustria, primeiro para tirar desforra das suas façanhas do passado, e depois para preparar o caminho, o reino da justiça e da felicidade sobre a Terra.

in Montanha Mágica, Thomas Mann

Publicado por dolphin.s em setembro 15, 2003 10:28 AM
Comentários

Gosto da 'arrumação' deste blog.
É pena o seu conteúdo não ser mais que 'recorta e cola'... umas palavras e uns textos originais seriam muito mais interessantes.

Dito por: Alexandre Monteiro no dia 15 de setembro 2003, às 11h29

Mais interessantes?
Pois, não posso concordar contigo.
Seria mais interessante se eu achasse que o que eu tenho para dizer poderia algum dia ser mais interessante do que os textos que deixo aqui.

Sinceramente Alexandre, acho que a net já tem demasiada palha de quem acha que tem coisas interessantes para dizer.

E depois, este blogue existe pelo prazer que me dá copiar passagens que gosto do que vou lendo. Já o fazia antes e agora continuo, com a diferença que o faço de uma maneira mais organizada :/
É engraçado saber que vem cá gente ler e trocar comentários com quem passa por aqui, mas acima de tudo só existe pelo gozo que me dá a mim fazer. E é isto que eu gosto e quero fazer. Não é partilhar mais palha na net. Tenho suficiente auto-critíca para saber o interesse que poderia ter para outros o que eu eventualmente escrevesse ;)

Dito por: dolphin.s no dia 15 de setembro 2003, às 11h38

Alexandre:

o blog tem coisas originais (basta procurar), mas o objectivo fulcral deste site não é esse.

se procuras comparação, não temos em stock.

Dito por: jm no dia 15 de setembro 2003, às 12h46

Como comentadora assídua dos posts colocados neste blog, faço salientar a minha opinião reforçando o quanto o mesmo é uma mais-valia na/para a blogosfera portuguesa. Já muita coisa, vi, mas muito pouca com qualidade.
Pelo que nos proporcionam de cultura, de desafio à reflexão e à discussão, mas sobretudo pelo não atentado que fazem à nossa inteligência (e eu, modéstia à parte acho que a tenho), só posso saudar aqueles que diariamente vão construindo este espaço. E saudo-os também pelo reconhecimento que tenho do esforço que fazem nos bastidores para aqui trazerem algo que nos deveria acima de tudo, tornar agradecidos.
Para lixo, informação dispensável e estupidificação permanente, já bastam alguns canais de televisão e algumas revistas e outras publicações existentes no mercado. Haja ao menos um blog onde, vivenciando evasão nos possamos, ao mesmo tempo enriquecer como pessoas!

Sandra

Dito por: Sandra no dia 15 de setembro 2003, às 17h27