setembro 11, 2003

Politicamente Suspeita

Thomas Mann—Chega tarde ao concerto, sr. Settembrini. Já está quase ao fim, com certeza. Gosta de música?
—Por ordem superior, não — replicou Settembrini.— Não quando é ditada pelo calendário, não muito, quando cheira a farmácia e me é ministrada por razões sanitárias. Estimo um pouco a minha liberdade, ou pelo menos aquele resto de liberdade e dignidade humana que ainda mantemos. Em ocasiões como esta, costumo comparecer como visitante, como o senhor faz aqui em cima: assisto durante um quarto de hora e depois sigo o meu caminho. Isso dá-me uma ilusão de independência. Não digo que seja mais do que ilusão, mas, que quer o senhor, se me causa uma certa satisfação! Com o seu primo, o caso é diferente. Para ele, é serviço. Não é, tenente? O senhor considera isto como parte dos seus deveres. Ah! Sim, eu sei que o senhor conhece o truque de conservar o seu orgulho em plena escravidão. É um truque desconcertante. Não há muita gente na Europa que se entenda com isso. O senhor não me perguntou se eu era amante da música?
Bem, se o senhor disse «amante de música» (Hans Castorp não se lembrava de ter-se exprimido assim) a expressão não está mal escolhida, comporta um resquício de frivolidade afectuosa. Pois bem, estou de acordo. Sim, sou amante da música — o que não significa que a estime particularmente, assim como estimo e amo, por exemplo, a palavra, o veículo do espírito, o utensílio, o resplandecente arado do progresso. A música? Á música representa o não-formulado, o equívoco, o irresponsável, o indiferente. O senhor vai objectar-me talvez que ela pode ser clara, mas a Natureza também pode ser clara, o arroio também o pode ser, e que nos adianta isso ? Não é a verdadeira clareza, é uma clareza sonhadora, despida de significação, uma clareza que a nada obriga, uma clareza sem consequências, e por isso perigosa, porque nos arrasta a contentarmo-nos com ela... Suponhamos que a música toma uma atitude magnânima. Bem. Inflamará os nossos sentimentos. Mas trata-se de inflamar a nossa razão! A música parece ser o próprio movimento, não importa, suspeito nela o quietismo. Permita que leve a minha tese até ao extremo. Tenho contra a música uma antipatia de ordem política.
Aqui, Hans Castorp não pôde deixar de bater com a mão sobre o joelho e de exclamar que nunca na sua vida ouvira coisa semelhante.
—Apesar de tudo, tome a ideia em consideração — disse Settembrini, sorrindo. — A música é inapreciável como meio supremo de provocar o entusiasmo, como força que nos arrasta para a frente e mais alto quando encontra o espírito já preparado para os seus efeitos. Mas a literatura deve tê-la precedido. Sozinha, a música não faz avançar o mundo. Sozinha, a música é perigosa. Para si, pessoalmente meu caro engenheiro, é, indubitavelmente, um perigo. Verifiquei-o logo ao chegar, pela sua fisionomia.
Hans Castorp começou a rir.
—Oh, não olhe para mim, sr. Settembrini! O senhor não imagina até que ponto o ar, aqui em cima, me desfigurou. Aclimatar-me custa-me muito mais do que pensava.
—Receio que o senhor se engane.
—Mas por quê? Continuo a ter calor, que diabo! E sinto-me muito fatigado.
—No entanto, parece-me que devemos ficar gratos à direcção por estes concertos — disse Joachim circunspectamente.—O senhor considera o assunto de um ponto de vista superior, sr. Settembrini, por assim dizer, como escritor, e nesse sentido não quero contradizê-lo. Mas acho que, apesar de tudo, devemos aceitar com gratidão este pouquinho de música. Não sou um entendido em música, e as peças que executam não são especialmente notáveis, nem clássicas nem modernas, é simplesmente música de banda, mas, mesmo assim, representa uma variação agradável. Enche algumas horas de modo muito conveniente; reparte-as e ocupa-as, de modo que elas tenham pelo menos alguma coisa, ao passo que, em geral, se desperdiçam aqui dias e semanas de um modo simplesmente pavoroso. Veja um número deste insignificante concerto. Durante sete minutos, não é? E esses números formam qualquer coisa em si, têm um princípio e um fim, destacam-se e são, de certo modo, preservados da ameaça de se perderem na monotonia geral. Além disso, são ainda divididos, primeiro pelas partes da peça, e depois em compassos, de maneira que acontece sempre alguma coisa e cada instante recebeu um certo sentido, ao qual nos podemos agarrar, ao passo que de outra maneira... Não sei se me exprimi... —Bravo!—gritou Settembrini. — Bravo, tenente! O senhor definiu muito bem um aspecto incontestavelmente moral da música, a saber, que ela empresta ao escoamento do tempo, medindo-o de uma forma particularmente viva, uma realidade, um sentido e um valor. A música desperta o tempo, acorda-nos para um gozo mais refinado do tempo, desperta... e exactamente nesta medida é moral. A arte é moral na medida em que desperta. Mas que sucede, quando faz o contrário ? Quando entorpece, adormenta, estorva a actividade e o progresso ? Também a música é capaz disso; sabe exercer, maravilhosamente, a influência dos estupefacientes. Uma influência diabólica, meus senhores! A droga é o diabo, porque causa letargia, estagnação, inactividade, passividade, escravização... Há na música qualquer coisa inquietante, senhores. Insisto no facto da sua natureza ambígua. Não exagero ao declarar que ela é politicamente suspeita.

in Mntanha Mágica, Thomas Mann

Publicado por dolphin.s em setembro 11, 2003 10:21 AM
Comentários

eheheheh Que saudades!!!! Já tinha passado pela Janela e pelo Citador a correr, mas só agora consegui LER alguma coisa com alguma calma.
Obrigada :)

Dito por: Ana no dia 11 de setembro 2003, às 15h48

Também consegui linkar o título de ontem para ti :)

Dito por: Ana no dia 11 de setembro 2003, às 15h49

Eu lembrava-me da ideia toda menos que lhe chamava de facto politicamente suspeita. Não é lindo, todo este discurso? :D

Dito por: Ana no dia 11 de setembro 2003, às 15h52

Este Settembrini tem uns discursos espectaculares eheheheh

Acho que devemos formar um clube de fans ;)

Dito por: dolphin.s no dia 11 de setembro 2003, às 19h08