setembro 11, 2003

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em setembro 11, 2003 01:35 PM
Comentários

Estamos com este poema, em meu entender, perante a problemática global da Existência e, dentro desta, da realidade "Eu"/"Outro" e da(s) relação(ões) que se estabelece(m) ou pode(m) estabelecer entre tais realidades.
E o conflito existencial resultante da constatação e da introspecção é uma evidência. Mas é uma evidência que apresenta resultados dolorosos para o "Eu" pela consciencialização máxima que fica da sua imperfeição: porque afinal é vil e errónio; e porque os outros são ou apresentam-se como campeõs, príncipes ou mesmo semi-deuses...
...É esta a interpretação daquele que analisa, avalia e conclui; são estas as imagens construídas. Mas...e os outros, serão realmente assim? Tão perfeitos, tão "não-vis" e "não-erróneos"?
A realidade construída e a realidade efectiva são dois cenários que importa sempre considerar.
A subjectividade inerente ao indivíduo leva-o a nunca percepcionar a realidade tal como ela é, mas como ele, de acordo com os seus sentimentos, emoções, vivências e meio onde está integrado, a constroi através do que lhe é percepcionado pelos sentidos.
Assim sendo, e face a isto, deixo aqui a possibilidade dupla de análise deste poema:

a) aquela em que um "Eu" faz uma análise profunda de si, por comparação com um mundo que lhe é exterior e onde existem os "Outros" que, claramente se distinguem;

b) aquela em que predominam as construções efectuadas pelo "Eu", não face à realidade efectiva do que é o "Outro", mas resultantes daqueles que são mapas ou esquemas mentais de que é portador e que levam ao erguer de um quadro em que "Eu"=(eventual) imperfeição" e "Outros"=perfeição.
Este cenário apresenta-se, pois, como profundamente angustiante e o "Eu" pela análise que faz do seu percurso de vida, resulta num Ser perturbado pela forma como fica delineada a sua ideia de inserção num mundo bastante mais vasto.

Dito por: Sandra no dia 11 de setembro 2003, às 16h19