setembro 18, 2003

Compreender é esquecer de amar

Fernando PessoaPara compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.
A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Publicado por dolphin.s em setembro 18, 2003 07:33 PM
Comentários

Vivemos uma Vida em que temos que fazer escolhas, delinear caminhos, encaminhar (ou disciplinar) sentimentos, nortear-nos, desnortear-nos, fazer fugas, lembrarmo-nos (impreterivelmente) ou esquecermo-nos (impreterivelmente) de nós.

Vivemos com essa Vida e com ela temos sonhos, bons sonhos ou pesadelos, sonhos que nos embalam redobradamente ou que nos angustiam reforçadamente.

Vivemos para a Vida intensamente, descuidadamente, negligentemente, compreensivamente, incompreensivamente.

Vivemos a Vida sozinhos, acompanhados ou rodeados por multidões que furiosamente nos acorrentam a profundas sensações de solidão, que nos sufocam com a intensidade da dor.

Vivemos a Vida dispensando, dispensando-nos, amando, desamando, re-amando, re-aquacionando-nos amorosamente, re-negando-nos amorosamente.

Vivemos com a Vida, esquecendo; vivemos a Vida compreendendo e por isso esquecendo de amar; vivemos a Vida refugiando-nos da extrema compreensão, do extremo amor, do extremo esquecimento de... e de nós.

"Compreender é esquecer de amar"; sonhar é esquecer a compreensão; amar é não querer compreender e estar atento é saber que é ou não possível compreender, que é ou não possível sonhar, que é ou não possível saber se há disponibilidade para amar.

Sandra


Dito por: Sandra no dia 18 de setembro 2003, às 21h08

compreender é amar na ignorância de não se sentir amado. Amar é não compreender o amor de quem nos ama.

Dito por: arosendo no dia 19 de setembro 2003, às 00h22

Este texto reflecte a vida solitária de Pessoa, dividido entre o coração e a razão, a inconsciência e a consciência, o sentimento e o pensamento, a sinceridade e o fingimento («O poeta é um fingidor» e ele não só fingiu poemas como fingiu poetas...). Todos nos confrontamos com essa dualidade e procuramos consciente ou inconscientemente o equilíbrio. Pessoa parecia acreditar que a razão nele venceria sempre; sentia a escrita como uma missão e lucidamente rejeitou os afectos. Foi a sua escolha de vida: compreender em vez de amar.

É sabida a infantilidade e irreverência com que escreveu as «cartas de amor» à única namorada que se lhe conheceu.
Mas uma (aqui transcrita segundo a edição que tenho) é exemplificativa desse momento de lúcida e convicta escolha de vida: pensar ou sentir? ele escolheu pensar mas não deixou de lamentar a solidão inerente à ausência do sentir (nomeadamente, através de alguns heterónimos).

«Ophelinha pequena:
Como não quero que diga que eu não lhe escrevi, por effectivamente não lhe ter escripto, estou escrevendo. (...) Cheguei á edade em que se tem o pleno domínio das proprias qualidades, e a intelligencia attingiu a força e a destreza que pode ter. É pois a occasião de realizar a minha obra litteraria, completando umas cousas, agrupando outras, escrevendo outras que estão por erscrever. Para realizar essa obra, preciso de socego e um certo isolamento. (...) De resto, a minha vida gira em torno da minha obra litteraria - boa ou má, que seja, ou possa ser. Tudo o mais na vida tem para mim um interesse secundario: ha coisas, naturalmente, que estimaria ter, outras tanto faz que venham ou não venham. É preciso que todos, que lidam commigo, se convençam de que sou assim, e que exigir-me os sentimentos, aliás muito dignos, de um homem vulgar e banal, é como exigir-me que tenha olhos azues e cabello louro. (...) Gosto muito - mesmo muito - da Ophelinha. Aprecio muito - muitissimo - a sua índole e o seu caracter. Se casar, não casarei senão consigo. Resta saber se o casamento, o lar (ou o que quer que lhe queiram chamar) são coisas que se coadunem com a minha vida de pensamento. Duvido. Por agora, e em breve, quero organizar essa vida de pensamento e de trabalho meu. Se a não conseguir organizar, claro está que nunca sequer pensarei em pensar em casar. Se a organizar em termos de ver que o casamento seria um estorvo, claro que não casarei. Mas é provavel que assim não seja. O futuro - e é um futuro proximo - o dirá.
Ora ahi tem, e, por acaso é a verdade.
Adeus, Oplhelinha. Durma e coma, e não perca grammas.
Seu muito dedicado,
Fernando
29/9/1929»

Dito por: margem no dia 19 de setembro 2003, às 00h36

Ao ler as cartas dele ficamos com a sensação que seria possível essa pessoa ser a mesma que escreve o Livro do Desassossego, assim como seria impossível associar textos do Álvaro de Campos à mesma pessoa que escreve os textos do Caeiro :)

Obrigada margem :)

Dito por: dolphin.s no dia 19 de setembro 2003, às 10h43

É uma chatice: Pensar ou Sentir/ Fazer o Certo ou Viver Fespudoradamente?
Raispartam... por que é que estes conceitos não fazem as pazes de vez?... ;)

Dito por: possidónio cachapa no dia 19 de setembro 2003, às 16h11

* "despudoradamente"

Dito por: P.C. no dia 19 de setembro 2003, às 16h12

Possidónio:

não estaremos ainda muito agarrados ao "velho" espírito do Romantismo Novecentista?

Sandra

Dito por: Sandra no dia 19 de setembro 2003, às 17h09

"Pensar ou Sentir/ Fazer o Certo ou Viver Despudoradamente"

São sempre imcompatíveis... não há volta a dar-lhes ;)

Dito por: dolphin.s no dia 20 de setembro 2003, às 12h06

Andamos à toa, sem amarras, porque as recusamos, mas precisamos tanto delas... O colo da mãe, o tempo que alguém tenha para nós. Andamos desassossegados e tristes sem chegar a perceber o que nos faz mesmo felizes. Acabamos por "só estar bem aonde não estamos", nunca contentes com o que vamos tendo. Não era bem isto! Será que é isto que quero?
Pensar demasiado fez isto tudo.

Dito por: Maria no dia 21 de setembro 2003, às 14h19

Gosto de te ver por aqui Maria :))

Dito por: dolphin.s no dia 21 de setembro 2003, às 18h34

Obrigada, Sandra, pela saudação e pelo blogue! :-))

Dito por: Maria no dia 24 de setembro 2003, às 01h09