«Sou do tamanho do que vejo!» Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. «Sou do tamanho do que vejo!» Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele, e, assim, em certo modo, ali' estão.
E já agora, consciente de saber ver, olhou vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. «Sou do tamanho do que vejo!» E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro - do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando. «Sou do tamanho do que vejo!» E a frase fica-me sendo a-alma inteira, encosto' a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Publicado por dolphin.s em setembro 16, 2003 10:35 AMEncontramo-nos numa sociedade em que ao pararmos para reflectir sobre o que vemos, como, de que forma, com que intensidade, nos coloca (ou pode colocar, para os mais incautos, descuidados ou distraídos) sérios problemas existenciais. Porque o que nos é permitido ver é muito pouco face àquela que é a Totalidade ou a realidade nas suas múltiplas vertentes possibilidades e complexidades.
Por outro lado, também, a preocupação que vai invadindo alguns de nós quanto ao raio de visão é claramente inferior ao desejado e ao que é efectivamente preciso para se viver e sobreviver acima do limiar da ignorância, da estupidez, da estreiteza, da mediocridade e da animalidade.
"Sou do tamanho do que vejo": somos todos (ainda) muito pequenos; mesmo aqueles que se julgam diferentes, não são ainda suficientemente grandes pelo simples facto de viverem em sociedade e de nela terem que se integrar, tendo que acabar por aceitar algumas- mínimas que sejam-regras. De qualquer forma creio que essa (pequena) diferente é já uma chama que nortea a "possibilidade", a "potencialidade", a "abertura de caminho" ou a "abertura de horizonte" para algo ou para "algos" que nos faça(m) emergir do atoleiro em que nos vamos movimentando, mas no qual corremos o risco de nos afundar de vez (mas...não estaremos já afundados?).
Por ter a consciência de que "sou do tamanho do que vejo" (e ter consciência disso já é um avanço), a única certeza que tenho é, tão só esta: ainda me falta crescer muito! Mas, igualmente, ainda me falta, em partilha, fazer crescer muito. Contraditório? Não! Muito realista!
Sandra
Dito por: Sandra no dia 16 de setembro 2003, às 15h03«Sou do tamanho do que vejo!"
E eu vejo o que quero (mediante os meus anseios, sonhos, interesses pessoais,...) e o que posso (mediante os meus contextos sócio-económico-culturais-...).
«Sou do tamanho do que vejo!"
- Eu quero ver e posso.
- Eu quero ver e não posso.
- Eu posso ver e não vejo.
- Eu posso ver e vejo (mas ficarei sempre aquém do que haveria para ver).
«Sou do tamanho do que vejo!»
- Sou do tamanho do balcão onde trabalho.
- Eu sou do tamanho da revista que folheio.
- Eu sou do tamanho da bomba que me explodiu quase em cima.
- Eu sou do tamanho do chocolate que levo à boca.
- Eu sou do tamanho das estantes da bibioteca.
- Eu sou do tamanho da prancha de surf com que curto as ondas.
- Eu sou do tamanho do pedaço de pão que dou ao meu filho para comer.
- Eu sou do tamanho desta terra queimada.
- Eu sou do tamanho de um estádio de futebol.
- Eu sou do tamanho desta cama de hospital.
«Sou do tamanho do que vejo!»: não reside aí a nossa humanidade?
Dito por: margem no dia 16 de setembro 2003, às 22h07Sim, Margem, é ai que reside a ESPECIFICIDADE da nossa humanidade.
Sandra