Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para: se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Publicado por dolphin.s em setembro 13, 2003 11:17 AMAlgumas propostas de alteração de conteúdo:
Onde se lê:
"Viver uma vida DESAPAIXONADA (...), uma vida SUFICIENTEMENTE LENTA para ESTAR SEMPRE À BEIRA DO TÉDIO, bastante meditada para: se nunca encontrar nele."
Proponho que se leia (ou se considere para nós):
"Viver uma vida APAIXONADA (...), uma vida SUFICIENTEMENTE EQUILIBRADA (DE EMOÇÃO E DE RAZÃO) para NUNCA ESTAR Á BEIRA DO TÉDIO, bastante meditada para: se nunca encontrar nele."
Face a isto repensar o "Não ser mais, não ter mais, não quer mais" e admitir o
"SER AINDA MAIS (OU SER DIFERENTE), NECESSITAR DE MAIS (OU NECESSITAR DIFERENTE), QUERER MAIS (OU QUERER DIFERENTE- AQUI, NÃO NECESSARIAMENTE MAIS).
Fica a ideia.
Sandra
Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 12h39Vejo este texto do Bernardo Soares como irónico e critíco da sociedade.
De facto seria muito mais fácil - é muito mais fácil - viver assim.
Não vive assim 90% da nossa sociedade?
Concordo contigo. O que predomina é, sem dúvida, o acomodamento, o deixa andar, o "amanhã dá tempo", e assim por diante. Claro que sim, que é mais fácil, que não tráz tantas chatices, que não faz pensar. O "pronto-a-consumir" é, tal como o "fast-food" ou o "pronto a vestir" de assimilação (e experimentação) muito mais fácil, pois só temos que nos adaptar ao que já está ou ao que já é, sem a ideia superior do "eventualmente ter ou precisar que/de mudar".
Vivamos, pois, "alegremente tristes" e anestesiados, porque para nós será "o Reino dos Céus"!
Sandra
Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 13h07Neste excerto, Bernardo Soares evoca inevitavelmente o epicurismo de Ricardo Reis.
É certo que seria muito fácil viver assim, há quem o faça, e ainda bem que há quem não o faça. Mas também é certo que há quem não consiga intrinsecamente senão viver assim (se não exteriormente, porque há que trabalhar, sobreviver, etc), pelo menos interiormente: conciliar o interior com o exterior, o individual com o social, não é tarefa fácil e exige de cada um de nós níveis de esforço diferentes (consoante o que cada um de nós é).
Pessoa partilhou de alguma irreverência crítica e sentido de humor próprios da sua geração artística (a geração de Orpheu), daí esse olhar irónico que, em seu nome ou de outros, consegue lançar sobre o que o rodeia. Mas, na sua complexidade, nem por isso parecia (do que dele li) conseguir deixar de "viver uma vida desapaixonada e culta".
«Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.»
Álvaro de Campos
margem (em passeio, vinda do Citador)
Relativamente ao comentário de "Margem", considero relevante o que disse sobre a necessidade das adaptações e equilíbrios que é preciso encontrar para viver em sociedade. É, sem dúvida, um aspecto muito importante, sem descurar contudo as nuances que (por nós) podem ser introduzidas para fazer ou ir fazendo a mudança ou a diferença (o tal questionamento ou dúvida metódica considerados por mim e pela Sandra em comentários anteriores).
Os fenómenos sociais e as problemáticas existenciais não podem, em meu entender, ser vistos, interpretados e reequacionados sem se ter em conta os contextos existentes e os meios envolventes. As influências são, pois recíprocas, e mesmo, maioritariamente determinantes. Agora, há sempre que atender à "capacidade criadora", ou à "capacidade reivindicativa" dos indivíduos.
Por outro lado, e isso ainda não foi abordado nestas discussões, há igualmente que apostar na capacidade de influência de uns indivíduos em relação aos outros. Não da influência em sentido negativo, ou seja, aquela que leva a seguidismos cegos e acríticos, mas àquela que leva (ou "impõe") ao/o questionamento, ao levantar de problemas e imprime a capacidade para conduzir ao lançar de olhares diferentes sobre a realidade, qualquer que esta seja e no âmbito da sua inquestionável complexidade. A partir daí será, eventualmente, mais fácil fazer sínteses mentais e desenvolver ideias próprias ou vir-se a adoptar comportamentos diferentes.
Porque o fenómeno da Comunicação (que é o que aqui estamos a corporizar)é condição sine quo non para a efectivação da "influência" cabe a cada um de nós, dentro das suas possibilidades, e com os meios que lhe estão ao alcance, contribuir para que o tédio não se instale e para que não se absorva alargadamente a ideia do "Não ser mais, não ter mais, não querer mais".
Penso, sem dúvida, que NÓS, estamos no bom caminho! Mas há que chamar outros à discussão. Tal é, como diria o filósofo Kant, um "imperativo categórico"!
Sandra
Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 14h22Sim, questionarmo-mos é fundamental! Mas também a capacidade de gerir os "frutos" desse questionamento. Como já referi, depende muito do contexto interior ou exterior de cada um; nem todos têm a mesma capacidade de resistência, ou de adaptação, ou de luta, face à(s) realidade(s). Mas distingo aqueles que disso têm consciência (talvez mais infelizes por isso) e vão "lutando" daqueles que não a têm (felizes iludidos?) e insistem na sua supremacia individual - falo de comportamentos quotidianos, na estrada, no supermercado, em todo o lado (não sei se transmiti bem a ideia que pretendia).
Voltando ao Pessoa, ele próprio parece ter dificuldade em gerir a sua condição de ser pensante; por um lado, lega-nos(embora, na maior parte dos casos, involuntariamente) textos de/para importantes reflexões; por outro, quantas vezes, o seu eu poético lamenta essa lucidez...!
«Ela canta, pobre ceifeira,
julgando-se feliz talvez; (...)
e canta como se tivesse
mais razões p´ra cantar que a vida.
(...)
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
e a consciência disso!»
«Gato que brincas na rua
como se fosse na cama,
invejo a sorte que é tua
porque nem sorte se chama.
(...)
És feliz porque és assim,
todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
conheço-me e não sou eu.»
Fernando Pessoa
( desculpa, dolphin.s, se me estendi demasiado nos comentários; navegadora muito ocasional da net, venho ter a um site com tantas citações do meu caro Pessoa e é o que dá!...)
(estou a gostar do site!)
Olá margem!!! :)))
"Mas distingo aqueles que disso têm consciência (talvez mais infelizes por isso) e vão "lutando" daqueles que não a têm (felizes iludidos?) e insistem na sua supremacia individual"
Para mim há ainda os piores: os que disso têm consciência e optam conscientemente pela via mais fácil, queixando-se muitas vezes que sentem a vida vazia mas preferindo manter-se nessa esterilidade a terem que arriscar a sair desse porto seguro de "não insistir para nada com a vida"
Dito por: dolphin.s no dia 13 de setembro 2003, às 15h21Continuemos, pois, a discussão ... ;)
Será que a preferência pela esterilidade em vez do arriscar a sair do "porto seguro" traduz efectivamente uma opção pela "segurança" (no tal porto)? Não creio! Triste ilusão! Fatal opção! Lamentável escolha pelo viver (muitas vezes inconsciente, ingénuo, naif) na sombra, entre as sombras e como sombra (relembro agora- e convido-vos a recordar- a "Teoria da Caverna" de Platão)!
Se ouver capacidade para (se) olhar(mos) para além do imediato, ou dito de outra forma, para além do dia de hoje, verificar-se-á (verificaremos) que a suposta tranquilidade e segurança é (poderá ser) pura ficção, enganadora da realidade.
O tal "não insistir para nada com a vida" revela precisamente uma postura de desistência e de fraqueza pessoal, primeiro, e de fraqueza social, segundo.
Contudo há sempre a questão da "hipocrisia comportamental" (e "Margem" aflorou esta questão)norteadora dos pensamentos e sobretudo das acções...porque o mundo é uma selva, porque é preciso sobreviver, porque...porque...porque... E parece que tal encontra-se já institucionalizado, qualquer que seja as áreas ou realidade onde nos movamos.
Mas não tem que ser sempre... e sempre... e sempre assim. Há alturas em que temos mesmo que dar o "grito da independência", sob pena de nos afogarmos no lamaçal da ignorânia, nos atolarmos na sordidez no "que é", e de desistirmos por completo de viver com (alguma) inteligência, e com muita designidade. Sim, porque há alturas em que é já um questão de dignidade!
Sandra
Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 17h09Desculpem o erro: onde se lê "...muita designidade" deve ler-se "muita dignidade". Esta modalidade de escrever "furiosamente" com o teclado tem destas coisas. :))))
Sandra
Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 17h16"Esta modalidade de escrever "furiosamente" com o teclado"
LOL!!! como eu te compreendo ehehehe
"Será que a preferência pela esterilidade em vez do arriscar a sair do "porto seguro" traduz efectivamente uma opção pela "segurança" (no tal porto)? Não creio! Triste ilusão! Fatal opção! "
Isso é o que tu dizes, e isso é o que digo... mas isso não é o que defendem os que se deixem ficar...
Viver sem rede, sem a rede da sociedade, da igualdade a todos os outros, de nunca se sentirem marginais, de olharam para a diferença com desconfiança - viver sem essa rede é viver arriscando a solidão, o não sentir-se integrado e parte de um grupo. Há quem não saiba viver sem isso, quem tenha medo de ficar sózinho consigo mesmo. Há quem não consiga viver sem procurar a constante aprovação dos outros - mas para isso tem que fazer parte desses outros.
Reforço o seguinte (e na sequência de concordar com o que dizes, Sandra):
esqueçem-se de uma coisa...
ESQUEÇEM-SE DA DIGNIDADE!
(Por favor!!! Não nos esqueçamos dela!!! Não nos dispamos a esse ponto; não! não nos dispamos tão completamente! Por favor!!)
Sandra
Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 18h03acho que se esquecem deles mesmos... são apenas mais uns numa massa uniforme onde o indivíduo não existe por si...
Dito por: dolphin.s no dia 13 de setembro 2003, às 18h10