setembro 10, 2003

Um desejo de nunca ter sido nada

Fernando PessoaHá um cansaço da inteligência abstracta, e é.. o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento pela emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar com a alma.
Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que ternos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por detrás da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto e estrelado.
O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Umas vezes vem sobre nós como um fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos medos - a da incarnação disforme do não-ser. Outras vezes está atrás de nós, visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda no seu horror profundíssimo de a desconhecermos.
Mas este horror que hoje me anula é menos nobre e mais roedor. É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Publicado por dolphin.s em setembro 10, 2003 07:43 PM
Comentários

:-)

Dito por: Cristina no dia 10 de setembro 2003, às 19h56

Quem, de entre todos aqueles que por ai deambulam, pensam nestas coisas? Permitem as sociedades contemporâneas, caracterizadas pela incerteza e pela imposição de ritmos frenéticos, que os indivíduos que as compõem e lhes dão forma, se questionem sobre os efectivos problemas da (sua/deles) existência? E aqueles que eventualmente encontrem algum tempo (não só cronométrico, mas sobretudo resultante de uma organização mental a isso propiciadora) para o fazer, tal acontece com que frequência, em que condições e motivado por quê? Por meras necessidades intrínsecas ou por estímulos exteriores? Por razões de fundo ou por banalidades? Pela necessidade de dar resposta a problemas efectivamente relevantes ou significativos ou por mera vaidade ou doentio snobismo, provenientes de vazios constructores de imensos espaços do(s) "eu"/"eus" que o(s) alojam?
Entendo e concebo firmemente a dualidade do Homem: este é Matéria e é Espírito (à guisa de dualismo cartesiano). Mas de entre estas a segunda vertente é, em meu entender, e infelizmente, absolutamente secundarizada. E o lamento existe porque é a consciência e o debruçar sobre essa vertente- o encontro com a Alma- que permite a cada um dos indivíduos reencontrar-se com o seu "eu", e sobre este reflectir no âmbito da complexidade que o caracteriza. Porque a alma, apesar de permanente não é estática: vive constantes inquietações, constantes perplexidades, constantes angústias e também alguns/vários contentamentos. Os seus estados alternam num turbilhão também ele quotidiano. Ora sobre isso deve haver reflexão, ponderação, avaliação e retirada de conclusões no sentido da superação de estádios presentes, porventura não tão desejáveis ou positivos, na senda de trilhos mais clarividentes, consoladores e propícios à criação, à capacidade de decisão e ao enriquecimento/amadurecimento do "eu".
Para que as celas não sejam permanentes imagens com alto nível de dificuldade de contorno, logo, não sejam infinitas, ir ao encontro da alma é absolutamente fundamental. Porque fazê-lo é ir ao encontro de Tudo, é ir ao encontro do Absoluto que há em nós, é tornar possível o ultrapassar de um "desejo de nunca ter sido nada".

Sandra

Dito por: Sandra no dia 10 de setembro 2003, às 22h55

Um dia depois de ter escrito o meu primeiro comentário ao excerto "Um desejo de nunca ter sido nada", deparo-me no Silêncio com a seguinte citação de Marguerite Yourcenar:

"O nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar de inteligência sobre nós próprios".

Sendo que esta citação somente reforça o que ontem escrevi, fazendo-me agora acrescentar a ideia preocupante de que vivemos num mundo onde grande parte dos indivíduos são "mortos-vivos", questiono aquela que selecciona os posts relativamente à sua ideia sobre o assunto e se, tal como eu, estabelece a relação entre o excerto intitulado "Um desejo de nunca ter sido nada" e aquele que é o hoje divulgado pensamento de Marguerite.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 11 de setembro 2003, às 15h54