Almofada de missanga
para deitar a cabeça,
e um fumo negro na manga
antes que alguém adoeça.
Quando saio pró emprego
dizes-me adeus do postigo:
gosto de ti seja cego
fique já aqui tolhido!
Tomo o meu chá de limão
na leitaria da esquina:
ao beber treme-me a mão
se ao meu lado no balcão
se empoleira uma menina.
Almoço um pastel folhado
volto ao escritório a correr
sento-me à mesa apressado
e logo o patrão, zangado,
Antunes não pode ser!
No trinta e oito pra Chelas
leio a Bola ao solavanco
passam postes e janelas
chamam no alto as estrelas
há quem voe para elas
e eu sentado no banco.
Esfrego os pés no capacho
vens de robe dar-me um beijo
que sejas nova não acho
mas calo-me ponho um pacho
e enquanto aqueces o tacho
vai-se-me logo o desejo.
E tu em Marvila: amor
não gostas do meu cozido?
Mas seja lá como for
gosto de ti sim senhor
fique já aqui tolhido!
in Letrinhas de Cantigas, António Lobo Antunes
Bom...estamos perante uma de duas ou duas possíveis realidades com este poema de António Lobo Antunes: ou uma letra para canção efectivamente representativa do "Fado da Pré-Reforma" ou perante a realidade que é o fado (ou destino) da Pré-Reforma. É sempre possível ver as coisas segundos prismas diferentes...
Sei- Sandra- que não acreditas em fados no sentido de destino, mas se olharmos para muitos daqueles que nos rodeiam e por nós passam diariamente, verificamos que, de facto, mais do que "fado-canção" estamos perante o "fado destino".
Que esse mal deles não venha a ser o nosso mal; que essa impressão não venha a ser a nossa impressão; que essa rotina não venha a ser a nossa rotina; que o seu (eventual)lamento não venha a ser o nosso (eventual) lamento... que o seu fado não venha a ser o nosso fado...
...porque muito jovens ainda somos e porque, pela nossa natureza, muito nos preocupa que assim venha a acontecer...
Sandra
Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 17h31Sandra:
Envio-te, em jeito de presente, o poema de António Gedeão intitulado "Calçada de Carriche". Pergunto-te: estamos, com esta mulher, perante o fado de quê?
Luísa sobe,
sobe a calcada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
[O meu peito aperta] e novamente a pergunta: o fado de quê?
Sandra
Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 17h49Em algum ponto da nossa vida todos (ou quase todos) corremos o risco de termos "fados" assim, ou parecidos.
Achas que ela não tomou nenhuma decisão que poderia não ter tomado, e ter tido um "fado" diferente?
Achas que este "destino" era asim tão impossível de fugir?
Vemos mulheres assim todos os dias... e todos os dias elas continuam a viver como se não pudessem viver de outra maneira. Ou não pudessem ter vivido de outra maneira.
E todos os dias mulheres assim tomam a decisão de fazer outras mulheres que provavelmente terão vidas iguais às delas, pq também elas não olharão para o lado à procura de outro destino.
O poema de Gedeão está incluido numa recolha de poemas considerados de intervenção (depois dou-te a referência bibliográfica ;)).
A Luísa é um "personagem-tipo": a Mulher trabalhadora que vive (viveu) no tempo da Ditadura e que não tem (tinha) forças para fugir àquele destino porque fortemente impedida pelas grilhetas da sociedade, e ferozmente castigada (a prisão e a tortura eram possibilidades) caso face a elas se revoltasse.
Deixo, no entanto, um outro poema (para igual leitura, análise e interpretação), desta vez da nossa grande Sophia de Mello Breyner Andresen, moldadora inequívoca do seu destino:
RETRATO DE UMA PRINCESA DESCONHECIDA
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Chegou pois a hora de dizer "Basta!" e de não desperdiçarmos mais destinos.
Não os NOSSOS (para já e para começar)!!
Sandra
Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 18h19