Eu que me comovo
por tudo e por nada
deixei-te parada
na berma da estrada
usei o teu corpo
paguei o teu preço
esqueci o teu nome
limpei-me com o lenço
olhei-te a cintura
de pé no alcatrão
levantei-te as saias
deitei-te no banco
num bosque de faias
de mala na mão
nem sequer falaste
nem sequer beijaste
nem sequer gemeste
quinhentos escudos
foi o que disseste
tinhas quinze anos
dezasseis, dezassete
cheiravas a mato
à sopa dos pobres
a infância sem quarto
a suor a chiclete
saíste do carro
alisando a blusa
espiei da janela
rosto de aguarela
coxa em semifusa
soltei o travão
voltei para casa
de chaves na mão
sobrancelha em asa
disse: fiz serão
ao filho e à mulher
repeti a fruta
acabei a ceia
larguei o talher
estendi-me na cama
de ouvido à escuta
e perna cruzada
que de olhos em chama
só tinha na ideia
teu corpo parado
na berma da estrada
eu que me comovo
por tudo e por nada.
in Letrinhas de Cantigas, António Lobo Antunes
as prostitutas sempre me comoveram. adoro a humanidade das prostitutas. são boas mulheres, as prostitutas.
Dito por: arosendo no dia 30 de outubro 2003, às 21h08Já liguei. E deparo-me com isto... Tu andas a perseguir-me não andas, blogaja?
Dito por: cm no dia 30 de outubro 2003, às 22h51ando blolaranja? temos bom gosto né, Laranjina C efervescente? :P ehehehehe
Dito por: dolphin.s no dia 30 de outubro 2003, às 22h53Foi das coisas mais bonitas que li nos últimos tempos.....
Eu também me comovo e respeito as prostitutas, mas atenção, nem todas, já não me consigo comover com as Prostitutas de Luxo.
Dito por: António no dia 31 de outubro 2003, às 10h11boa noite.
Dito por: arosendo no dia 31 de outubro 2003, às 20h55ta se bem
Dito por: marcos no dia 31 de dezembro 2004, às 13h06