setembro 08, 2003

O Imperativo de Profundidade

Na primeira exposição dos trabalhos de uma jovem mulher de Estugarda, um crítico que a queria incentivar disse-lhe, sem qualquer má intenção: «O que faz é talentoso e apelativo, mas ainda revela pouca profundidade».
A jovem mulher não entendeu o que o crítico queria dizer e depressa esqueceu a observação. Contudo, dois dias depois encontrava no jornal um comentário do mesmo crítico: «A jovem artista possui muito talento e, à primeira vista, os seus trabalhos agradam bastante; infelizmente falta-lhes profundidade».
Então a jovem mulher começou a pensar. Olhou para os seus desenhos e remexeu em pastas velhas. Olhou para todos os seus de senhos e também para aqueles em que trabalhava actualmente. Depois, pôs a tampa nosfrasquinhos de tinta-da-china, limpou as canetas e foi passear.
Tinha sido convidada para sair nessa noite. As pessoas pareciam ter aprendido a crítica de cor e falavam constantemente do enorme talen to e do grande prazer que os seus quadros suscitavam logo à primeira vista. Mas quando atentava bem nas palavras daqueles que estavam de costas viradas para ela, de entre o ruído de fundo destacava-se nitidamente: «Mas não tem profundidade. Promete bastante, mas infelizmente não tem profundidade».
Na semana que se seguiu a jovem mulher não desenhou nada. Permanecia em casa, sentada e muda, não parando de cismar. Uma única coisa ocupava-lhe a mente, sufocando e engolindo todos os outros pensamentos como um polvo: «Por que razão não tenho profundidade?».
Na segunda semana tentou voltar a desenhar, mas apenas conseguiu esboços desajeitados. As vezes nem um único traço lhe saía bem. Por fim tremia tanto que já nem conseguia mergulhar a caneta no frasquinho de tinta-da-china. Então começou a chorar e exclamou: «Sim, é verdade, não tenho profundidade!».
Na terceira semana começou a debruçar-se sobre livros de arte, a estudar as obras de outros pintores* e a caminhar por galerias e museus. Leu livros sobre Teoria da Arte. Entrou numa livraria e pediu o livro mais profundo que havia. Deram-lhe um livro de um tal Wittgenstein que de nada lhe serviu.
Numa exposição no museu da cidade, intitulada «500 Anos de Desenho Europeu», juntou-se a urna turma de uma escola secundária que era guiada pelo professor de Educação Visual. junto de um desenho de Leonardo da Vinci, deu subitamente um passo em frente e perguntou: «Desculpe, poderia dizer-me se este desenho possui profundidade?». O professor de Educação Visual sorriu-lhe com um ar irónico e disse: «Se quer fazer troça de mim, ainda tem muito que aprender, minha cara senhora! », e a turma riu-se efusivamente. A jovem mulher, porém, foi para casa e chorou amarguradamente.
Estava cada vez mais estranha e quase não saía do atelier, e no entanto não conseguia trabalhar. Tomava comprimidos para ficar acor dada e não sabia por que razão deveria ficar acordada. E quando ficava com sono, dormia ali mesmo na cadeira, pois tinha medo de ir para a cama por temer a profundidade do sono. Também começou a beber e deixava a luz acesa durante toda a noite. já não desenhava. Quando um negociante de objectos de arte de Berlim lhe ligou a pedir alguns desenhos, gritou ao telefone: «Deixe-me em paz! Eu não tenho profundidade! ». Por vezes moldava plasticina, mas nada em concreto. Apenas enterrava as pontas dos dedos na massa ou fazia pequenas bolinhas. Apresentava um aspecto cada vez mais desleixado. já não se importava com a roupa que vestia e descurava completamente a lida da casa.
Os seus amigos estavam preocupados. Diziam: «Temos de tratar dela, está em crise. Uma crise de natureza humana ou de natureza artística - ou talvez uma crise financeira. No primeiro caso não se pode fazer nada; no segundo caso, deve enfrentar e ultrapassar a crise; e no terceiro caso poderíamos organizar um peditório, mas isso provavelmente embaraçá-la-ia». Assim, limitavam-se a convidá-la para almoçar ou jantar ou para festas. Ela recusava sempre, com a justificação de que tinha de trabalhar. Contudo nunca trabalhava, permanecia sentada no seu quarto, olhando para o vazio e moldando plasticina.
Uma vez estava tão desesperada consigo própria que acabou por aceitar um convite. Um homem jovem gostara dela e queria dormir com ela. Ela concordara, pois ele também lhe agradava; todavia tinha de estar preparado para o facto de ela não possuir profundidade. Então o homem jovem afastou-se dela.
A jovem mulher, que outrora desenhara tão bem, decaía agora visivelmente. já não saía nem recebia ninguém, começava a ficar gorda por falta de exercício físico e envelhecia muito rapidamente devido ao álcool e aos comprimidos. A casa começava a criar mofo e ela própria cheirava a bafio.
Tinha herdado 30 000 marcos e durante três anos viveu desse dinheiro, chegando até a fazer uma viagem a Nápoles, ninguém sabe em que condições. Quem lhe dirigia a palavra obtinha como resposta apenas uma embrulhada incompreensível.
Quando o dinheiro se acabou, cortou e esburacou todos os seus desenhos, foi até à torre da televisão e atirou-se de uma altura de 139 metros. Como, porém, nesse dia soprava um vento forte, não se despedaçou na praça altatroada por baixo da torre, mas foi levada sobre um campo de aveia até à orla do bosque, onde se despenhou no meio dos pinheiros. Apesar disso, morreu imediatamente.


O caso veio mesmo a calhar à imprensa sensacionalista. O suicídio em si, a singular trajectória de voo, o facto de se tratar de uma artista, promissora e bonita, tinham um alto valor informativo. A sua casa apresentava um estado tão catastrófico que até era possível tirar fotografias pitorescas: milhares de garrafas vazias, sinais de destruição por todo o lado, quadros esfarrapados, pedacinhos de plasticina nas paredes, e até excrementos nos cantos dos quartos! Daria para um segundo cabeçalho e ainda um artigo na página três.


No suplemento cultural, o crítico inicialmente mencionado escrevera uma nota expressando a sua perplexidade perante o fim atroz da jovem mulher. «Para nós, os sobreviventes, é sempre uma experiência perturbante assistir à incapacidade de pessoas jovens com talento que não sabem encontrar a força para se afirmarem no meio artístico. O apoio estatal e a iniciativa privada por si sós não bastam, uma vez que se trata prioritariamente de garantir dedicação no plano humano e um acompanhamento competente no plano artístico.
Todavia, e em última análise, parece que o gérmen do tal fim trágico reside no plano individual. Não se prenunciava já nos seus primei ros trabalhos, aparentemente ainda ingénuos, o tal dilaceramento assustador já visível na obstinada técnica mista que veicula convenientemente a mensagem, a tal revolta retorcida e invertida sobre si mesma, enroscando-se de forma espiralada e ao mesmo tempo fortemente carregada de emoções, da criatura contra o próprio Eu, e que é evidentemente vã? Esse fatal ou, quase diria, impiedosa imperativo de profundidade?».


* No original, leia-se Zeichner, desenhador. (N. da T.)


in Um Combate e outras Histórias, Patrick Süskind

Publicado por dolphin.s em setembro 8, 2003 10:17 AM
Comentários

Nos primeiros minutos do dia seguinte, e antes de ir pôr termo às horas do dia anterior, cá estou eu (ainda) em frente à máquina envolva agora de inquietações sobre o meu próprio nível de profundidade! ;)
Com todas as metáforas que possam estar inerentes [;)] eu pergunto:

- mas o que é isso de profundidade?
- quem é que decide o nível satisfatório de profundidade?
- quem decide a linha divisória entre a profundidade e a não profundidade?
- o que penso eu sobre a profundidade?
- sou hoje mais profunda do que era ontem e menos do que serei amanhã?
- e os que me rodeiam têm profundidade?

E já agora:

- este excerto apresentado tem profundidade?

Definitivamente, não estou em condições de responder. Vou envolver-me (espero) num sono profundo para ver se eu própria ganharei com isso mais profundidade.

Confuso?

Não! Só metafórico. :)))) [Profundo!!]

Sandra

Dito por: Sandra no dia 9 de setembro 2003, às 00h50

Acho que a resposta a todas essas perguntas só tu mesma podes responder e a resposta a muitas delas será mesmo: TU

Dito por: dolphin.s no dia 9 de setembro 2003, às 10h28

ah... só mais uma pequena nota: este é o conto completo e não apenas um excerto ;)

Dito por: dolphin.s no dia 9 de setembro 2003, às 12h11