setembro 15, 2003

Sob o chuveiro amar

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo - é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?


in O Amor Natural, Carlos Drummond de Andrade

Publicado por dolphin.s em setembro 15, 2003 07:37 PM
Comentários

Aproveito a apresentação de mais um pouco DESTA poesia de Carlos Drummond de Andrade para elogiar "Dolphin.s" e "jm" pela excelente escolha feita. Dando sequência a outros poemas já saidos em posts anteriores, merece particular atenção e elogio a forma como o "Amor" e o "Erotismo" entraram e nos abordaram, na qualidade de leitores (e/ou comentadadores) deste blog. Não de forma chocante, "pura e dura", porque pornográfica, mas antes, com uma extrema sensibilidade, com um extremo apelar aos sentidos- "provocando-nos", assim como à vertente mais instintiva que há em nós-, embora suavemente, com poesia, com beleza, com a sensação da leveza do toque ou do roçar aconchegante.
É preciso estilo para fazer isto! É preciso coragem para fazer isto! E é-o, pelo desafio que dai advém relativamente aos comentários que podem/possam surgir. Mas, neste contexto, só por ignorância, se poderia fazer uma abordagem pouco séria, pouco lúcida ou...pouco sensível.
"Dolphin.s" e "jm" conseguiram introduzir essa/esta diferença, conseguiram idealizá-la, fortificá-la, consolidá-la, implementá-la e engrandecê-la, de forma a não causar dúvidas.
Pelo significado que tal tem numa blogosfera onde o pornográfico "está a dar" e "vende bem", que bom é saber, poder ler e partilhar com, neste caso com o poeta, uma vertente humana tão natural, mas que ao mesmo tempo pode ser tão sublime, tão inteligentemente abordada, tão docemente provocadora e estimulante!

Sandra

Dito por: Sandra no dia 15 de setembro 2003, às 20h30

Mão sei se era exatamente assim que Camões dizia...
"Mais vale experimentá-lo que julgá-lo, mas julque-o quem não o puder experimentar..."

Paco

Dito por: Paco no dia 16 de setembro 2003, às 10h54

Acho que o Carlos Drummond fez as duas coisas: experimentou e julgou. E, provavelmente, por ter experimentado muito bem, julgou igualmente muito bem...ao ponto de conseguir transformar o julgamento em poesia. E consegui-o, descomplexadamente, elegantemente, brilhantemente, suavemente e muito, muito, estimulantemente.

Sandra

Sandra

Dito por: Sandra no dia 16 de setembro 2003, às 14h44