rapaz das obras - ... percebes alguma coisa do que estão a dizer?
jovem actor - ...umas coisas sim, outras não...
rapaz das obras - ...e porque é que estão tão tristes?
jovem actor - ...porque perderam...
rapaz das obras - ...perderam o quê?
jovem actor - Não sei. Se queres que te diga não sei.
rapaz das obras - ...mas estão tristes mesmo.
Silêncio
jovem actor -E que não sei mesmo.
rapaz das obras - Dinheiro?
jovem actor - Dinheiro parece que têm. Ou não se importam.
rapaz das obras - ... perderam o quê? O emprego?
ex-capela do rato (mulher) - ... eu acho que eles queriam o poder...
rapaz das obras - ... para mandar?
ex-capela do rato (mulher) - ... para...
jovem actor - ... quem tem o poder manda...
rapaz das obras - ... é por isso que estão tristes?
ex-capela do rato (mulher) - É.
Silêncio
rapaz das obras - Mas a águia, a águia, o que é isso? Estão sempre a dizer a águia...
jovem actor - ... e rosa rosa rosa...
rapaz das obras - ... parecem parvos.
ex-capela do rato (mulher) - Somos parvos, estamos tristes.
Silêncio
rapaz das obras - ... não percebo nada... tão pouca luz.
jovem actor - ... os mortos falam aqui, os que foram mortos... é um enterro...
rapaz das obras - E tu porque é que estás triste?
jovem actor - Eu estou contente. Tenho trabalho.
rapaz das obras - ... mas é fazer de triste o teu trabalho e nem sabes bem porque é que estás triste...
jovem actor - Imagino.
Silêncio
rapaz das obras - E pagam-te para estares triste?
jovem actor - Pouco. Mas pagam. Sou um actor.
rapaz das obras - E se te pagassem para estares alegre também estavas?
jovem actor - Estava.
rapaz das obras - Não tens querer?
jovem actor - Tenho.
rapaz das obras - Mas não é teu.
jovem actor - ... sou a voz dos outros, a tristeza dos outros a alegria dos outros com a minha ninguém tem nada a ver estou escondido atrás do dinheiro que me pagam para estar triste ou alegre conforme a peça e os encontros que eu fizer mas eu ninguém me vê...
rapaz das obras - ... eu vejo-te.
jovem actor - ...é verdade, vês-me, vêem-me... e é sempre minha a tristeza dos outros que eu digo ou que eu invento é sempre minha a alegria ou quando rio quando rio sou eu que rio...
rapaz das obras - É tramado.
Silêncio
rapaz das obras - Mas porque é que estão tão tristes... a mim disseram-me que era uma festa, falaram-me da liberdade, falaram-me do fogo, de roubar o fogo aos deuses... não estou a perceber... é só uma história entre eles?
o actor que faz de prometeu - ...quero ouvir as vozes dos que não conheço, quero ouvir e as palavras que digo são as palavras que ouço, eu... eu não quero falar, eu não existo, só existem as palavras que digo e não escrevi nem me saíram da boca....
rapaz das obras - Mas tinham razão estes gajos?
o actor que faz de prometeu - ... tinham e não tinham, são como toda a gente, sem razão e com razão, e isso é que dói.
rapaz das obras - ... e isso do Prometeu, o que é essa história?
ex-capela do rato (mulher) - ... durante muito tempo, muito tempo, séculos, as pessoas foram colando a esta imagem a imagem da sua própria dor... quem faz o bem é castigado e sofre... para sempre sofre... para sempre a águia...
rapaz das obras - ... mas ele fez o bem?
o actor que faz de prometeu - ... eu aos homens dei o fogo...
jovem actor - ...ninguém te mandou.
o actor que faz de prometeu - ... a consciência.
jovem actor - ... ele é que quis, não se deve queixar...
o actor que faz de prometeu - ... os homens são mais felizes, podem cozer os animais, podem aquecer-se nas noites de vento frio... mas deixam Prometeu no cáucaso deserto a águia a águia eterna... um rochedo.... deixam prender Otelo... deixam morrer Salgueiro Maia... os homens esquecem... passam à frente... passam os dias no hipermercado e à noite vêem televisão para não pensar em si próprios...
Silêncio
rapaz das obras - ... eu não estive nessa história, não era nascido...
jovem actor - ...eu não tenho culpa de não ter nascido antes...
rapaz das obras - ...parece que nós não temos direito a que falem de nós...
jovem actor - ... a falarmos nós... a falar
rapaz das obras - ...o problema é que eu... não sei...
jovem actor - ... falar?
rapaz das obras - ... falar... atropelo as palavras...
jovem actor - ... começo uma frase, não a consigo acabar
rapaz das obras - ...vendo bem, não tenho nada a dizer...
ex-capela do rato (mulher) - ... não tens nada a dizer?
rapaz das obras - Tenho, mas não sei...
ex-capela do rato (mulher) - ... e julgas que eu sei?
rapaz das obras - ... tens as palavras, dizes Prometeu, dizes a águia, eu só sei acordar às cinco e meia e pegar no trabalho às 7, e beber cerveja após cerveja, que não se aguenta o frio em cima do tejo sem a gente beber cerveja após cerveja... trabalho na ponte, pego às 7, e bebo...
jovem actor - ... as palavras são vossas...
rapaz das obras - ... o gajo não roubou o fogo aos deuses?... como é que eu vos roubo as palavras a gramática a retórica para contar o que ali se passa na nova ponte que não é a tristeza de enterro com que vocês tão lindamente tecem as vossas recordações e os vossos lamentos...
jovem actor - ... enquanto vocês estiverem em cena a gente não existe... a gente não existe...
rapaz das obras - ... e eu não estou triste. Para vocês tudo isto é história, palavras. Para mim é o trabalho e vejam as minhas mãos: são grandes.
jovem actor - ... estão sempre a amaldiçoar-me, estão sempre a desprezar-me porque eu não era nascido. E não... não era nascido no 5 de Outubro nem no 25 de Abril nem vivi a Guerra de Espanha nem a Revolução de Outubro e as Amoreiras já estavam construídas quando comecei a ir ao cinema à noite e a comprar roupa de marca...
rapaz das obras - ... eu trabalho na nova ponte...
jovem actor - ...eu ainda não sei, ando a ver os anúncios...
rapaz das obras - ...mas já não temos história?
jovem actor - ... a gente?
rapaz das obras - A gente parece que não pode entrar em cena a não ser pelos olhos destes gajos...
jovem actor - ... são vocês a minha águia, é este o meu rochedo, a ignorância... eu não sou quem sou porque só vocês têm direito à História, só a vossa história pode ser contada mesmo quando ninguém a conta ou ninguém a quer ouvir... não me deixaram História para mim, chamaram-me rasca porque...
rapaz das obras - ... sois vós os donos das palavras... eu fiquei sem nada...só o trabalho. E nas vossas palavras sou uma estatística uma caricatura...
Silêncio
jovem actriz rouca - ... às vezes estou tão tão sozinha... como se não houvesse palavras... como se não existisse... vou ao ginásio, às vezes vou à piscina... mas é como se a história não fosse minha... não sei quem é a Rosa Luxemburgo que agora mesmo eu própria evoquei... não sei quem és tu, nem sei quem é Lénine... sei os nomes, não sei mais... de vez em quando vêm nas revistas e aparecem na televisão e quando chego a casa às vezes levo um livro mas não sou capaz não sou capaz de ler... faço minhas as palavras dos outros, não são as minhas palavras as palavras que agora da boca me saem, falo mas sou muda... a dor que ao cair da tarde às vezes sinto, o meu amor... a dor não sei como dizer... e quando faço de Rosa Rosa Luxemburgo assassinada no landwehrkanal que não sei onde é nem sei bem o que foi esse assassínio nem vejo a diferença entre 1919 e 1933... penso em tristezas minhas, na morte que vai por perto, na vida que prometi, nas noites em que esperámos... penso mas não sei se é disso que estou a falar... sou uma actriz... e uma actriz não tem nada a dizer, é dita pelas palavras... sou dita pelas palavras dos outros, a minha voz é a voz dos outros e eu à noite estou sozinha com o silêncio de uma música... é só estar aqui sentada e a espera das palavras que os outros escrevem... mas a voz é minha, é minha a rouquidão, é minha esta tremura e esta é a tremura que eu vos trago. O teatro havia de ser olharmo-nos nos olhos para não estarmos sozinhos...
rapaz das obras - ... o teatro havia se ser para a gente rir depois de se vir cansado do trabalho...
jovem actriz rouca - ... fazer rir os outros... assim? Fazer uma careta... fazer rir?
rapaz das obras - ... ninguém nos deixa rir , só querem que a gente trabalhe e à noite os risos já estão gravados na tv...
jovem actriz rouca - Se eu fizer uma careta, ris?
rapaz das obras - ... porque é que estás tão triste, rapariga?
jovem actor - Ela não está triste, ela não existe...
ex-capela do rato (mulher) - Ninguém escreve as palavras da sua dor... ninguém escreve as canções do teu trabalho, rapaz... a gente oprime-te com as nossas recordações, as nossas recordações vêm nas páginas dos jornais e temos amigos que estão no governo, tu estás na nova ponte e não sabes o que foi isto...nem vais saber... a minha tristeza impede-te, proibe-te...
rapaz das obras - ... mas um gajo morreu ao meu lado e era preto e não chamaram a ambulância... e não deixaram que esta história passasse para os jornais ... era o que mais faltava... que isto passasse para os jornais... não é esta a história que tu querias contar?
jovem actriz rouca - ... eu conto a história de Rosa Rosa Luxemburgo... não consigo contar todas as histórias ao mesmo tempo...
rapaz das obras - mas um gajo morreu mesmo ao meu lado e era preto caiu do andaime e foi a semana passada ali entre Chelas e Sacavém... e vocês estão tristes tristes mas nem querem saber que um gajo morreu ali ao meu lado.
ex-capela do rato (mulher) - ...eu quero.
companheiro - Havia de ser no teatro que a gente sabia de tudo, das histórias antigas e das histórias de hoje, o teatro havia de ter portas abertas e a gente estava a contar a história de Prometeu e tu entravas aí pela porta e vinhas contar a tua história de hoje e pedias dinheiro para se pagar o enterro desse teu camarada e pagar o envio do corpo para Angola de onde ele veio morrer a construir uma ponte a nova ponte e o Prometeu servia também para tratarmos da nossa vida e da tua, que nem essa história queres ouvir ou vais ouvir. O teatro devia ser o lugar em que todos podiam falar directamente. Não é uma assembleia representativa. Não votamos num actor para ele dizer melhor o que a gente sente. Mas podíamos vir nós todos ouvir o que nos contam e nas palavras que ouvimos nas palavras que ouvimos falamos a nossa dor...
rapaz das obras - ...e a alegria
companheiro - ... a alegria é a gente falar falar a noite inteira num quarto desarrumado com papéis pelo chão e cadeiras velhas a alegria é não estarmos fechados em casa e misturarmo-nos aqui contigo e as palavras que eu digo serão tuas em tu querendo e era assim o teatro um abraço...
jovem actriz rouca - ... uma lágrima.
companheiro - ... era isso.
in Prometeu - rascunhos, Jorge Silva Melo
Desejo sinceramente que quem ler este post entenda a força e o alcance do que foi seleccionado: pelo que faz recordar, pelo que faz relacionar, pelo que em nós faz "rasgar", pelo que proporciona de acordar consciências adormecidas...pelo que nos faz sentir em como devemos ter sempre uma palavra a dizer e não sermos agentes passivos num mundo que exige, acima de tudo, muita acção. Para que não voltem a existir (tantas) "capelas do Rato".
Sandra
Dito por: Sandra no dia 6 de setembro 2003, às 14h03Consegues sempre surpreender-me, sempre que venho ao teu blog. É um verdadeiro "citador" ou "citário" de excertos de belos pensamentos e reflexões, que me batem fundo quase sempre! ;)
Como é que tu consegues coleccionar/seleccionar tanta coisa tão boa e tão diferente ? Continua, este blog é um sucesso, e duvido muito que os blogues "pimbas" o conseguiu destronar da popularidade que já tem e que só pode aumentar. Este blogue tem coisas intemporais, sobrevive ao tempo, e isso é que acho que é fundamental.
bem... não posso mesmo dizer mais nada a não ser agradecer os vossos comentários :)))
Dito por: dolphin.s no dia 6 de setembro 2003, às 15h34