Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação Com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento.
Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atracção da própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão estes breves comentários que faço a propósito dela. Contento-me com a minha cela ter vidraças por dentro das grades, e escrevo nos vidros, no pó do necessário, o meu nome em letras grandes, assinatura quotidiana da minha escritura com a morte.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Publicado por dolphin.s em setembro 9, 2003 10:28 AMO "destino" ou a "ideia de destino" é/são algo que sempre me fez (portanto, faz) pensar. Sobretudo pelo equacionar obrigatório relativamente ao peso da acção de cada um dos indivíduos face a esse mesmo traçado da/para a vida.
De onde provém? Quem o determina? Porque segue determinado rumo e não outro? Porque por mais que por vezes os vários "eus" (dos vários indivíduos) façam, nada parece querer mudar de rumo, em direcção à concretização da diferença?
Entendo que estas e outras eventuais questões são pertinentes, pelo menos para levar cada um a pensar mais sobre si e sobre o papel que vai desempenhando em vida: naquela que traça ou determina quotidianamente ou naquela equivalente a uma "estrada" já traçada, mas cujo percurso importa saber fazer, pelo menos para evitar acidentes...inevitáveis.
(Já agora para aqueles que acreditam/crêem: há um destino igualmente traçado para a vida depois da morte?)
Sandra
Dito por: Sandra no dia 9 de setembro 2003, às 23h07Acho a ideia de destino uma maneira de auto-justificação para as decisões que tomamos... ou deixamos de tomar.
Quem parte do princípio que o destino esta traçado, terá que acreditar que nada do que faça mudará o que "está escrito".
Não será uma desculpa para nos encostarmos e desresponsabilizarmos sobre o que acontece com a nossa vida?
Eu acredito que nós somos aquilo que decidimos fazer de nós, as nossas decisões, os nossos erros, os nossos "voltar atrás".
E que de facto podemos alterar o curso das nossas vidas com uma decisão/opção.
É o assumir o controlo da nossa vida e não ficar a olhar à espera que aconteça.