setembro 10, 2003

Calma solidão sem dor

No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. Meu Deus! a minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tornariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raiz. Era uma experiência, um pensamento, um destino — algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila. Podemos sempre beber uma cerveja como se fosse a última.

in Os Passos em Volta - Polícia, Herberto Helder

Publicado por dolphin.s em setembro 10, 2003 10:20 AM
Comentários

Pequeno excerto que nos faz, sem qualquer dúvida, pensar aturadamente sobre a nossa essência, a nossa existência quotidiana e aquilo que podemos, nos deixam ou proporcionam fazer com ela no futuro. Tudo isso com a existência (ou não) de uma "calma solidão sem dor".

Sandra

Dito por: Sandra no dia 10 de setembro 2003, às 21h34