setembro 12, 2003

A moral como vampirismo

A descoberta da moral cristã é um acontecimento que não tem equivalente, é uma autêntica catástrofe. Quem elucida a esse respeito é uma force majeure, é um destino — quebra a história da humanidade em duas partes. Vive-se antes dele, vive-se depois dele... O raio da verdade atingiu precisamente aquilo que, até então, se encontrava mais alto: quem compreender o que aí foi aniquilado, que veja se ainda tem mesmo alguma coisa nas mãos. Tudo o que, até então, se chamava «verdade» foi reconhecido como a forma de mentira mais perniciosa, mais pérfida, mais subterrânea; o sagrado pretexto de «emendar» a humanidade foi desmascarado como uma artimanha para esgotar, para tornar anémica a própria vida. A moral como vampirismo... Quem descobrir a moral descobriu ao mesmo tempo o pouco valor de todos os valores, em que se acredita ou se acreditou; já não vê no tipo de homem mais venerado, ou mesmo canonizado, nada de venerável, vê nele a mais funesta casta de abortos, e funesta, porque eles fascinaram... O conceito de «Deus» foi inventado como conceito oposto à vida — dentro dele se juntou numa tremenda unidade tudo o que é nocivo, intoxicante, caluniador, toda a mortal hostilidade contra a vida! A noção de «Além», de «mundo verdadeiro», foi inventada para desvalorizar o único mundo que há — para que não restasse para a nossa realidade terrena nenhum objectivo, nenhum motivo, nenhuma missão! O conceito de «alma», de «espírito», por fim até de «alma imortal», foi inventado para desprezar o corpo, para o tornar doente — «santo» —, para se dedicar uma horripilante leviandade a todas as coisas que merecem seriedade na vida, as questões de alimentação, habitação, dieta espiritual, tratamento dos doentes, asseio, condições climáticas! Em lugar de saúde, a «salvação da alma» — quer dizer, uma folie circulaire entre convulsões da penitência e histeria da redenção! A noção de «pecado» foi inventada, juntamente com o competente instrumento de tortura, o conceito do «livre arbítrio», para confundir os instintos, para fazer da desconfiança ante os instintos uma segunda natureza! Na concepção do «desinteressado», do «que se renega a si próprio», o que constitui o autêntico distintivo da decadência, o ser atraído pelo que é nocivo, o já não poder encontrar o seu proveito, a autodestruição, foram transformados em marcas de valor, em «dever», em «santidade», no que há de «divino» no homem! Finalmente — e isso é o mais terrível —, com a noção do homem bom, tomou-se partido por tudo o que é fraco, doente, falhado, atormentado consigo mesmo, por tudo o que deve perecer — riscou-se a lei da selecção, fez-se um ideal da contradição ao homem orgulhoso e bem sucedido, ao homem afirmativo, consciente e garante do futuro — que passou, desde então, a chamar-se o mau... E acreditou-se em tudo isto como moral! Ecrasez l'infâme!

in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche

Publicado por dolphin.s em setembro 12, 2003 10:30 AM
Comentários

Face a todo este renegar, que acaba no fundo por ser em muito, ao do Homem Absoluto existente nos tempos presentes (presente do filófoso e presente de hoje), o que é que sobra?
Ao Homem muito pouco, pois por mais agnóstico ou descrente que seja, a moral cristã (ou outra de qualquer religião, se Nietsche tivesse alargado o seu conceito de "moral") é por si assimilada quase que geneticamente. E por ela regula os seus actos, aprova ou desaprova os seus gestos ou as suas expressões, formula as suas opiniões, olha-se e olha os outros, enfim, relaciona-se consigo, com a natureza e com o mundo. Estabelecer rupturas ou operar revoluções torna-se, neste contexto, difícil, pela enormidade do grito a vir da consciência, do mais íntimo de si...O rasgar(-se) seria significativo e a consciência derramaria sangue por demais... E os outros? como ficaria perante os outros? Sim, porque estes na sua globalidade não estariam dispostos à ruptura e isso geraria a exclusão...
Solução: "ex-nihilo"? Começar tudo de novo? A partir de quem e baseado agora em que moral ou em que tipo de opinião, auto-entendida e auto-considerada como a verdadeira, a correcta, a absoluta, a isenta de "ópios"? ...

Sandra

Dito por: Sandra no dia 12 de setembro 2003, às 18h28

Resta-te a reconstrução de ti mesma. O questionar dos teus actos, das tuas decisões, mesmo dos teus preconceitos.

Questionar tudo!

Dito por: dolphin.s no dia 13 de setembro 2003, às 11h49

Certamente já reparas-te que "o questionar" está a ser a estratégia privilegiada nestes comentários. E porquê? Precisamente para fazer repensar as coisas, para fazer abanar estruturas, para levar à problematização...É um bom exercício mental que se tornará efectivamente valioso que conduzir (ou contribuir para conduzir) a práticas e posturas diferenciadas.
Reflectir, problematizar e chegar a conclusões é importante. Mas mais importante ainda é que isso seja apenas a primeira parte de uma totalidade maior. E aqui entra a acção posterior.
É para isto que "Questionar tudo!" deve valer a pena. Não só o questionar por questionar, o questionar para parecer que sim, o questionar para me fazer distinguir...por (quase) nada...
Mas não é para (fazer) mudar as coisas que levamos a cabo este nosso exercício de "reflexão dialogada"?

Sandra

Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 12h19

Questionar por questionar??

Não! Questionar para construir! A ti em primeiro lugar. Só depois de saberes quem tu és, de compreenderes o porquê de seres tu, é que podes partir para a compreensão do mundo exterior.
E aí, eu pelo menos, não aceito nada como verdade absoluta. Questiono tudo. Não aceito nada como verdade só porque alguém, supostamente credível, me diz que a verdade é aquela.

desconstruir, duvidar, questionar.
Não deixar que nada seja imposto, impingido, vendido....

só assim podes ter a certeza que as tuas verdades são de facto as tuas, e não as que os outros criaram para ti (e para os outros).

Dito por: dolphin.s no dia 13 de setembro 2003, às 12h31

Ora chegaste precisamente à precisão que eu queria!! :))) É exactamente isso que eu defendo e que pretendo fazer ver com o meu comentário anterior. Mas, como sabes, a nossa sociedade encontra-se polvilhada de "grandes" pseudo-intelectuais que, doentiamente passam a vida a tudo questionar, sendo que no fundo, e objectivamente, tais questionamentos a nada levam ou nada de relevante significam. Fazem-no só por fazer, para sobressair, muitas vezes para esconder ou secundarizar aquilo que tem realmente importância, porque é a essência da(s) questão(ões).
Inequivocamente o método "dúvida cartesiana" (de Descartes) é fundamental. Mas atenção: não para cair no cepticismo estéril, mas sempre na senda de algo construtivo ou de melhor para o "Eu"/"Nós". Não para exercícios vazios e imbuídos de fragilidades, antes, para a construção de posturas e reposicionamentos renovados/completamente novos. E como tu muito bem dizes (e eu sublinho), primeiro para a construção da minha diferença e da assimilação/interiorização das minhas verdades e, a partir dai, para ir ao encontro dos outros e me integrar diferentemente, no mundo exterior.

Sandra

Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 12h53

O "precisamente à precisão" do comentário anterior é um pouco...diria...repetitivo. Mas a ideia é precisamente reforçar o quanto é fundamental o especificar da ideia expressa. :)))))

Sandra

Dito por: Sandra no dia 13 de setembro 2003, às 13h00