agosto 30, 2003

Poeta dilacerado

Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição. Diz para si mesmo: eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros homens. E a sua alma é atravessada pelo sopro primordial. Mas tem a alma perdida: é um inocente que maneja o fogo dos infernos. Abre-se ao fundo da sua meditação holandesa um grande lago: a solidão, e em volta passeiam vacas. A Holanda agora é isto: vacas, e — no centro — o inferno, a revolucionária inocência de um poeta sentado.
— Por quem me tomam? — pode ele perguntar. — O que eu quero é o amor.
E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis no meio da terra ou prados imensos onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência.


in Os Passos em Volta - Holanda, Herberto Helder

Publicado por dolphin.s em agosto 30, 2003 08:11 PM
Comentários

O meu querido patricio HERBERTO HELDER é um caso sério da Literatura,e,fico sempre tomada por um orgulho desmesurado,quando dele leio ou ouço falar.Como madeirense só tenho de me sentir orgulhosa,por ele também o ser.

Dito por: Valeria Mendez no dia 31 de agosto 2003, às 02h56

A escrita de Herberto Helder, para mim, foi paixão à primeira leitura :)

Dito por: dolphin.s no dia 31 de agosto 2003, às 15h22

absolutamente perfeito. obrigada pelo excerto. :)

Dito por: insensatez no dia 3 de setembro 2003, às 20h48