Para combater este estado de coisas o que era necessário, dirás? Que o padre fosse uma grande figura, que, nesta sociedade borrada de oiro e de gozo, protestasse em nome do espírito contra a matéria. E em lugar disto o que vemos? O padre eleiçoeiro, o padre janota, mamando charutos à porta das tabacarias, o padre intriguista, fazendo cerco às viúvas ricas. Temo-lo de todas as castas, — ignóbil, rindo da religião, pândego de chapéu ao lado. Há-os amigados, criando mulheres e filhos, jogadores correndo as feiras, bêbados e devassos, padres que são a ignomínia, babujem dum mar de beleza e sacrifícios. Serão a excepção? Talvez — mas em que número!... E pior do que estes, há o padre banal e charro, o padre que confessa, absolve e baptiza, como um director de secretaria despacha. O padre é ateu. O padre não compreende a Igreja nem a ama. Para ele o sacerdócio é um ofício. Engorda.
in O Padre, Raul Brandão, 1901
Embora datado - apesar de tudo a Igreja Católica mudou...ainda que devagarinho - este texto é interessante: não li esta obra do R.Brandão,mas Nietzsche não a desdenharia...
Dito por: paco no dia 5 de setembro 2003, às 12h57mmmmm... mudanças na Igreja, só mesmo à superficíe. Repara no que se descobre debaixo do tapete ;)
Seria complicado Nietzsche apreciar este livro. Raul Brandão era católico e muito religioso. Este texto é a revolta dele com o estado para onde a Igreja se tinha deixado cair (alguma vez terá sido diferente?).
Nietzsche era ateu e não tinha qualquer tipo de complacência para nada que, nem de longe, tivesse qualquer ligação à igreja. Se leres o livro todo, grandes parte dele é dedicado à sua fé.
Mas deste excerto dos padres, acho que Nietzsche ia gostar bastante eheheheh
Dito por: dolphin.s no dia 5 de setembro 2003, às 13h35Belo blog seria o de Raúl Brandão...Bem apanhado!
Dito por: rui no dia 5 de setembro 2003, às 19h04Este texto do Raul Brandão tem duas partes distintas e precisas.
A primeira parte é a revolta contra o deboche social e o modo como a sociedade se desenvolve: imoralmente - atenção que não estou a escrever amoralmente.
A segunda parte é uma tentativa franca de converter a sociedade ao caminho da moralidade e aos fundamentos da igreja - fundamentos, interprete-se raízes, pois Raúl Brandão tinha conhecimento da hipocrisia reinante.
Este pequeno livro é um ensaio entusiasmante por ser actual, mais de um século depois de ter sido escrito.
Dito por: jm no dia 5 de setembro 2003, às 19h47De acordo com oa recomentários...o excerto em apreço é que seria do agrado de N. não a obra possivelmente...tendo em conta a religiosidade de Brandão...que escreve Húmus, sentido da terra...acho que N. era bastante religioso - à sua maneira-.
Paco.
Bem....... espero que Nietzsche não te ouça eheheheh
Mas porque achas que era religioso???
Bom...porque religare ( lat.) pode servir para ligar, juntar, amar a profundidade do sentido da terra, do seu poder, e N. não fica ofendido com esta minha divagação...
Um abraço do Paco
Dito por: paco no dia 7 de setembro 2003, às 01h04