É o começo de uma transformação profunda, o ruir dum mundo mais vasto que o antigo, o início de um daqueles cataclismos donde irrompe sempre uma humanidade nova e outras ideias. Nem as mais miúdas raízes ficarão no solo. O arado romperá até ao fundo. Estas convulsões alimentam-se de gritos. Para a eclosão se fazer em toda a sua beleza precisa dum furacão de sangue — mas a tempestade é sempre salutar.
A derrocada há-se ser monstruosa. Esta sociedade cairá entre gargalhadas e uivos, quando o homem obscuro vier reclamar, de chuço nas mãos, a sua parte no gozo. Que baionetas o impedirão de fartar a matéria, quando ele souber que só a matéria existe? Quem conterá a sua cólera, justa e horrorosa, quando conhecer que, durante séculos, viveu enganado e espoliado, apelando para uma sombra vã, chamando em altos gritos o Vácuo, ensopando de lágrimas o Nada? Hora trágica aquela em que, não eu, nem tu, mas a sua própria alma lhe disser: — Os teus gritos, as tuas súplicas eram pior do que inúteis, eram ridículas, quando, transido de fome e de injustiças, clamavas na sombra por um Deus que não existia!
in O Padre, Raul Brandão, 1901
Publicado por dolphin.s em agosto 31, 2003 02:24 PMFaz muito tempo que não leio Raúl Brandão...mas é interessante este texto:junção de materialismo,revolução,Nietzsche, religião...
Qual a editora do Livro?
É um livrinho pequenino da Vega :)