agosto 26, 2003

Dinheiro rapazes!...

A esta hora a cidade lá em baixo afunda-se na escuridão — como um poço de gritos. Entre cada quatro paredes há tragédia, catástrofes, cóleras, ambições, remorsos. Todos nós trazemos máscaras, para encobrir o nosso sonho, e a banal aparência desta casaria esconde um brasido de cálculos ou de raivas. É aquele vaso cheio de víboras, de que fala algures Carlyle, cada qual procurando levantar a cabeça mais alto que as outras. A mão que aperta a nossa ressuma muitas vezes ódio.
Mal se come. Vive-se de dívidas, de tonturas, com os credores à porta ameaçando e os trastes de aparato empenhados. Um passo mais e é a catástrofe e a vergonha. No entanto as aflições têm de ser escondidas e surdas, as lágrimas cobertas com pó-de-arroz. O janota, que ali vai na praça, treme de frio; a mulher vestida de seda, que nos olha e foge, sustenta-se um mês a fio de café e morfina — e quantas vezes o riso esconde um grito de aflição...
Este homem tem só um fim: vencer custe o que custar. E esfuranca, cortez e frio, prático como o diabo, sempre correcto, calculando, medindo, pesando as mais pequenas palavras, sem coração e com este único sonho: — arranjar-se!... Dinheiro rapazes!...

in O Padre, Raul Brandão

Publicado por dolphin.s em agosto 26, 2003 01:03 PM
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