agosto 16, 2003

Da Morte

Marie Hertzansky dorme no meiple de cretone esmiuçado por enormes esperas, a cabeça pende-lhe para as mamas, os ruídos exteriores parecem limpos por mãos muito rápidas, o papel da parede rasga-se em pequenas farpas, ou então, opado, alberga bolsas de um gás pútrido onde as baratas fazem ninho e remexem patas, a noite crepita dessa fauna minúscula e inquieta sobre o ritmo da respiração de Marie, ou confundindo-se com ela, com os silvos do ar obstruído pelos pulmões cheios de muco e pela traqueia penugenta, uma das mãos assenta no sofá e vê-se a sujidade da velhice: manchas onde nenhuma luz sixtina pulverizara anjos, aqui, sonha a Itália percorrida pelo sopro melancólico dos condottieri ardendo de visões, Marie aposenta a vida no vagar da espera, assim deposta em sólidos interiores, arrumada no cabeção de renda, na saliva que liga a sua boca à mama estéril, parece recusar espaços prematuros, é tão sólida que a vida a julgará morta da vida e a morte a abandonará ainda à vida, dorme nesse espaço onde os deuses passeiam a sua neurastenia, o seu jogo arcaico de se fingirem imortais, expira, inspira: tremem as películas secas dos lábios e o fio de cabelo que lhe atravessa a boca, no hotel concreto de uma cidade com nome, numa rua com nome, Madame tem um nome: Marie: nome de nada, Hertzansky: roubou-o à cor dos espectáculos, ao feérico das vidas inventadas, talvez ouça palmas e lhe dêem flores no mar cilíndrico do sono, o garrote no braço e o braço roxo, o sonho endovenoso.

in O Canto no Ocaso, Rui Nunes

Publicado por dolphin.s em agosto 16, 2003 06:26 PM
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