Por exemplo, não sou de modo nenhum um papão, um monstro da moral — sou mesmo uma natureza oposta àquele tipo de homem que, até hoje, tem sido venerado como virtuoso. Aqui entre nós, parece-me que isso, justamente, faz parte do meu orgulho. Sou um discípulo do filósofo Dioniso, até prefiro ser um sátiro a ser um santo. Mas há que ler esta obra. Talvez nela eu tenha conseguido — talvez esta obra não tenha mesmo mais nenhum outro sentido — exprimir essa antítese de uma maneira serena e afável. A última coisa, que eu prometeria, seria «melhorar» a humanidade. Por mim não serão erguidos novos ídolos: os velhos bastam para nos ensinar o que significa ter pés de barro. Derrubar ídolos (o meu sinónimo de «ideais»), isso até já faz parte do meu ofício. Na medida em que se inventou um mundo ideal, privou-se a realidade do seu valor, do seu sentido, da sua veracidade... O «mundo verdadeiro» e o «mundo aparente», ou seja, para falar com clareza: o mundo fictício e a realidade... A mentira do ideal tem sido, até ao presente, a maldição que pesa sobre a realidade; devido a ela, a própria humanidade se tornou mentirosa e falsa até aos seus instintos mais básicos, até adorar os valores inversos daqueles que lhe garantiriam o êxito, o futuro, o solene direito ao porvir.
in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche
O problema com Nietzsche é que de tão vago se torna num ideal mal interpretado, longe da realidade e da natureza!
Dito por: gouveia no dia 20 de agosto 2003, às 13h56Mal interpretado sim, mas não por todos.
O que acho estranho é querer "ler-se" literalmente o que Nietzsche diz.
Tem que se tentar conhecer um pouco o homem antes de querer compreender a sua filosofia.