agosto 13, 2003

Escravos da Convicção

Não nos deixemos enganar: os grandes espíritos são cépticos. Zaratustra é um céptico. A força e a liberdade, provenientes do vigor e da exuberância do espírito, demonstram-se através do cepticismo. Os homens de convicção não entram de modo nenhum em linha de conta para tudo quanto seja fundamental em termos de valor e de não valor. As convicções são prisões. Não vêem a distância suficiente, nem vêem debaixo de si; ora, para poder ter uma palavra a dizer acerca de valor e não-valor, há que ver quinhentas convicções abaixo de si, atrás de si... Um espírito que queira coisas grandes, que queira também os meios para tanto, é necessariamente céptico. Estar livre de toda a espécie de convicções faz parte da força, poder olhar livremente... A grande paixão do céptico, fundamento e potência do seu ser, ainda mais esclarecida, mais despótica do que ele próprio o é, põe todo o seu intelecto ao serviço dela; torna-o destemido; dá-lhe até coragem para se servir de meios ímpios; em determinadas circunstâncias, permite-lhe ter convicções. É a convicção como meio: há muita coisa que só se alcança por intermédio de uma convicção. A grande paixão emprega e consome convicções, sem se submeter a elas — sabe-se soberana. Pelo contrário, a necessidade de fé, de alguma coisa que não esteja condicionada pelo sim e pelo não, o carlylismo, se me quiserem perdoar esta expressão, é uma necessidade própria da fraqueza. O homem de fé, o «crente» de qualquer tipo, é necessariamente um homem dependente, alguém que não se afirma como um fim, que, por si próprio, não pode sequer fixar finalidades. O «crente» não pertence a si próprio, só pode ser um meio; tem de ser consumido, precisa de alguém que o consuma. O seu instinto concede a suprema honra a uma moral de despersonalização: a isso tudo o persuade, a sua prudência, a sua experiência, a sua vaidade. Qualquer forma de crença é em si mesma uma expressão de despersonalização, de alienação de si próprio... Se se tiver em conta como é necessário à maioria das pessoas um elemento regulador que as ligue e as fixe a partir do exterior, como a coacção (num sentido mais radical, a escravatura) é a única e derradeira condição que permite prosperar às pessoas de vontade mais fraca, sobretudo à mulher, pois também se compreende a convicção, a «fé». O homem de convicção tem nesta a sua espinha dorsal. Não ver muitas coisas, não ser imparcial em caso algum, tomar partido do princípio ao fim, ter uma óptica estreita e infalível quanto a todos os valores, é só disso que depende a própria existência de um tal tipo humano. Mas, desse modo, ele é o contrário, o antagonista do verídico — da verdade... Ao crente não é dado ter sequer consciência para a questão do «verdadeiro» e do «não verdadeiro»: ser honesto neste ponto seria logo a sua perdição. O condicionalismo patológico da sua óptica faz do convicto o fanático — Savonarola, Lutero, Rousseau, Robespierre, Saint-Simon —, o tipo oposto do espírito forte, que se tornou livre. Mas as grandes atitudes desses espíritos doentes, desses epilépticos do entendimento, agem sobre as grandes massas: os fanáticos são pitorescos, e a humanidade gosta mais de ver gestos que de ouvir razões...

in O Anticristo, Nietzsche

Publicado por dolphin.s em agosto 13, 2003 01:25 PM
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