agosto 11, 2003

A Invenção do Pecado

Friedrich NietzscheJá me compreenderam. O começo da Bíblia contém toda a psicologia do sacerdote. O sacerdote só conhece um único grande perigo: é a ciência, a salutar noção de causa e efeito. Mas a ciência só prospera, geralmente, em condições propícias; é preciso ter tempo, é preciso ter espírito de sobra, para se «adquirir conhecimentos»... «Por conseguinte, há que tornar o homem infeliz.» Foi esta, em todas as épocas, a lógica do sacerdote. E já se adivinha o que, em conformidade com esta lógica, veio, pois, ao mundo em primeiro lugar: o «pecado»... A ideia de culpa e castigo, toda a «ordem moral universal» foram inventadas contra a ciência, para que o homem não se desligasse do sacerdote... O homem não deve olhar para fora, deve olhar para dentro de si; não deve observar as coisas com inteligência e prudência, como quem está a aprender; até nem deve ver mesmo nada: deve sofrer... E deve sofrer de tal modo que, a toda a hora, tenha necessidade do sacerdote. Fora com os médicos! Um Salvador é que é preciso. A ideia da culpa e do castigo, incluindo a doutrina da «graça», da «redenção», da «remissão» — mentiras do princípio ao fim e sem qualquer realidade psicológica — foram inventadas para destruir no homem o sentido da causalidade: são o atentado contra a noção de causa e efeito! E não um atentado a soco, à facada, com a franqueza do ódio e do amor! Pelo contrário, procede dos instintos mais cobardes, mais manhosos, mais vis! Um atentado de sacerdotes! Um atentado de parasitas! Um vampirismo de pálidas sanguessugas subterrâneas!... Quando as consequência naturais de um acto já não são «naturais», antes se pensa que são provocadas por fantasmagorias conceptuais da superstição, por «Deus», por «espíritos», por «almas», e entendidas como meras consequências «morais», como recompensa, castigo, aviso, ensinamento, então está aniquilada a condição prévia do conhecimento — então cometeu-se o maior crime contra a humanidade. O pecado, diga-se uma vez mais, essa fornia por excelência de automaculação do homem, foi inventado para tornar impossíveis a ciência, a cultura, toda a elevação e distinção do ser humano; o sacerdote domina, graças à invenção do pecado.

in O Anticristo, Nietzsche

Publicado por dolphin.s em agosto 11, 2003 10:06 AM
Comentários

creio que nunca acabei de ler o 'Anticristo', mas lembro-me perfeitamente que, do que li, algo se compunha e arranjava na minha alma. a sensação de~verdade. se há coisa que abomino são as religiões (que não tem necessariamente a ver com a crença em Deus). não sei como se pode não ver que são a forma de ditadura mais fortemente enraizada ainda na nossa cultura. é o respeito adquirido pelo medo. que jogo sujo! impingir às pessoas o medo da morte e assim forçá-las a pagar por um lugar no céu. :/

Dito por: insensatez no dia 11 de agosto 2003, às 14h04

O "mais estranho" é encontrares pessoas que se consideram extremamente abertas para discutir religião. Que te ouvem com atenção e dizem que sim a tudo, que realmente acham que a Igreja vive de hipocrisia, etc, etc... Mas que regem a sua vida, nos extremos mais rigidos, pelas leis da Igreja...
Pessoas que ficam extremamente irritadas comigo quando lhes mostro um texto do Crepúsculo dos Idolos - que fala de maneira indirecta da eutanásia e do suícidio. Que acreditam piamente que o suícidio é um crime. E que não falam comigo toda a manhã quando lhes mostro outro texto, agora de Schopenhauer, também sobre o suicídio.
A crença no sofrimento. A eterna necessidade de pagar pecados.
A hipocrisia de não viverem por aquilo que realmente o Cristo pregou, mas viverem por aquilo que gajos com mãos nos dinheiro e no poder dizem que é lei. A facilidade de não decidirem por si mesmos o que é correcto ou errado, de terem alguém que lhes diga que "é assim que se vive".
A Igreja não tem pinga de bondade. É apenas manipulação de massas e monopólio de poder.

Dá outra oportunidade ao Anticristo. Nietzsche torna-se um vício ;)

Dito por: dolphin.s no dia 11 de agosto 2003, às 14h25