julho 31, 2003

Rebelião?

Não vejo contra quê seria dirigida a rebelião de que Jesus foi considerado, com razão ou sem ela, como iniciador, a não ser contra a Igreja Judaica - tomando «Igreja» precisamente no sentido em que nós, hoje, tomamos a palavra. Era uma rebelião contra «os bons e os justos», contra a hierarquia da sociedade - não contra a respectiva corrupção, mas contra a casta, o privilégio, a ordem, a fórmula; era a descrença nos «homens superiores», o não proferido contra tudo o que fosse sacerdote e teólogo. Mas a hierarquia, que assim foi posta em causa, ainda que apenas momentaneamente, era a estacaria sobre a qual o povo judeu, no meio da «água», ainda conseguia subsistir - era a sua derradeira possibilidade, penosamente conquistada, de permanecer, o resíduo da sua existência política peculiar: um ataque contra ela era um ataque contra o mais profundo instinto nacional, contra a vontade de viver de um povo, que é a mais tenaz que jamais houve na Terra. Esse santo anarquista que incitava o povo miúdo, os excluídos e «pecadores», os tchandala no seio do judaísmo, a contradizer a ordem vigente - com uma linguagem que, caso os Evangelhos fossem de fiar, ainda hoje levaria à Sibéria - era um criminoso político, tanto quanto os criminosos políticos eram possíveis numa comunidade absurdamente apolítica. Isso levou-o à cruz. Morreu pela sua própria culpa - não há qualquer razão para se pretender, mesmo que isso tenha sido afirmado muitas vezes, que tivesse morrido pelas culpas dos outros.

in O Anticristo, Nietzsche

Publicado por dolphin.s em julho 31, 2003 10:20 AM
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