julho 21, 2003

até um dia

depois de pensar, raramente falo. antes de falar, penso numa execução sumária do interlocutor, de modo a providenciar assunto bastante para uma morte precoce.

afinal, toda a morte precoce é seguida de uma saudosa ode. tivesse eu visto a luz na lâmina dum sabre em vez de ter envenenado todos os anos de verdadeiro espírito criativo, com a consequente doença crónica, e, hoje, seria recordado em anais jornalísticos lidos nas w.c. dos mercados e usados, em falta de melhor, para limpar rabos sujos de diarreias.

agora, como o doente viciado em ópio, vivo numa letargia solene pensando. quando alguém se me aproxima com um sorriso - qualquer tipo de sorriso -, faço questão de sorrir... mal disfarçando o cansaço da hipocrisia e da vontade de que esse alguém se sumisse no sopro pequeno que me sai da boca a cada saudação.

falo de coisas tão importantes quanto a importância que sinto que têm, invalidando a importância que o outro lhe dá. tento aniquilar o interlocutor no round de mais baixa numeração... cansado de retorquir palavras sobre objecções e abjecções em que não acredito... e quase tudo são objectos e quase todos são abjectos!

falo, objectivamente... dispersando, por vezes, para imagens dos meus sonhos negros e tristes... falo, com o objectivo pensado da morte... qualquer morte serve...

lembro-me muitas vezes dos meus sonhos de planador, de braços abertos a ver o mundo sofrer... nesses sonhos eu não falava: estavam todos mortos... (não eram imagens de filme de terror). eram apenas espíritos: vestidos ou nús... abjecções da vida de todos os dias que eliminamos ao caminhar na rua: olhando.

ocorre-me menos vezes o sonho do lagarto gigante que desenhado de pé no estore do meu quarto, me chamava repetidamente: "vem brincar comigo"... mas eu nunca fui... olhava-o e dormia.

por razões duma vida carcomida como num rendilhado, penso antes de falar.. penso em como é inútil conversar... em como o meu interlocutor, por muito que me ouça e me acene positivamente, não acredita em mim... nem vai mudar uma só vírgula das suas crendices em benefício das minhas palavras.

por tudo isto, todo o interlocutor merece a morte a que me neguei na altura certa... e se encontra adiada até um dia de horrores.

Publicado por jm em julho 21, 2003 02:02 PM
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