agosto 09, 2003

O Tempo

Estou, afinal, perto do mar e da sua ciência. Ninguém pode exigir ao mar que traga todos os barcos ou ao vento que encha todas as velas. De igual modo, ninguém tem o direito de me exigir que viva prisioneiro de certas funções. A minha divisa não é o dever antes de tudo, mas a vida acima de tudo. Como os outros homens, tenho direito a alguns momentos em que possa sentir-me à parte, em que possa saber que para além de pertencer a essa massa anónima chamada população mundial, sou também uma unidade autónoma.
Só nesses instantes me liberto de tudo o que na minha vida foi causa de desespero. Reconheço que o mar e o vento não deixarão de me sobreviver e que a eternidade nem sequer de mim se lembra. Por que me hei-de eu lembrar dela? A vida só é curta se a coloco no patíbulo do tempo. As suas possibilidades só são limitadas se me ponho a contar o número de palavras ou livros que a morte me dará ainda tempo de acender. Mas por que me hei-de eu pôr a contar? No fundo, o tempo de nada serve, inútil instrumento de medida que só regista o que a vida já me trouxe.

in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman

Publicado por dolphin.s em agosto 9, 2003 02:08 PM
Comentários

Este livro perturbou-me. Na edição que li apresenta-se a biografia do autor e sabe-se que se suicidou pouco depois de escrever isto que lemos. O livro todo, esperei que ele chegasse a algum lado..

Dito por: Sofia no dia 10 de agosto 2003, às 17h02

Este livro foi mesmo considerado como a carta de despedida dele.

E o meu livro preferido de sempre é do Dagerman: A Ilha dos Condenados. :)

Dito por: dolphin.s no dia 10 de agosto 2003, às 17h33