julho 24, 2003

Sobre a Questão das Leis

Franz KafkaEm geral as nossas leis não são conhecidas, senão que constituem um segredo do pequeno grupo de aristocratas que nos governa. Embora estejamos convencidos de que estas antigas leis são cumpridas com exatidão é extremamente mortificante ver-se regido por leis que não se conhecem. Não penso aqui nas diversas possibilidades de interpretação nem nas desvantagens que se derivam de que apenas algumas pessoas, e não todo o povo, possam participar da interpretação. Talvez estas desvantagens não sejam tão grandes. As leis são tão antigas que os séculos contribuíram para sua interpretação e esta interpretação já se tornou lei também, mas as liberdades possíveis a respeito da interpretação, mesmo que ainda subsistam, acham-se muito restringidas. Além do mais a nobreza não tem evidentemente nenhum motivo para deixar-se influir na interpretação por seu interesse pessoal em nosso prejuízo, já que as leis foram estabelecidas desde as suas origens por ela mesma; a qual se acha fora da lei, que, precisamente por isso, parece ter-se pôsto exclusivamente em suas mãos. Isto, naturalmente, encerra uma sabedoria - quem duvida da sabedoria das antigas leis -, mas ao mesmo tempo é-nos mortificante, o que provavelmente é inevitável.

Além do mais, estas aparências de leis apenas podem ser na realidade suspeitadas. Segundo a tradição existem e foram confiadas como segredo à nobreza, mas isto não é mais do que uma velha tradição, digna de crédito pela sua antiguidade, pois o carácter destas leis exigem também manter em segredo a sua existência. Mas se nós, o povo, seguimos atentamente a conduta da nobreza desde os mais remotos tempos, e possuímos anotações dos nossos antepassados referentes a isso, e temo-las prosseguido conscienciosamente até acreditar discernir nos factos inumeráveis certas linhas directrizes que permitem concluir sobre esta ou aquela determinação histórica, e se depois destas deduções finais cuidadosamente peneiradas e ordenadas procuramos adaptar-nos de certo modo ao presente e ao futuro, tudo aparece então como incerto e talvez como simples jogo de inteligência, pois talvez essas leis que aqui procuramos decifrar não existam. Há um pequeno partido que sustenta realmente esta opinião e que procura provar que quando uma lei existe apenas pode rezar: o que a nobreza faz é a lei. Esse partido vê apenas actos arbitrários na actuação da nobreza e rechaça a tradição popular, a qual, seguindo o seu parecer, apenas comporta benefícios casuais e insignificantes, provocando em troca graves danos, ao dar ao povo uma segurança falsa, enganosa e superficial com respeito aos acontecimentos do futuro. Não pode negar-se este dano, mas a maioria esmagadora de nosso povo vê a sua razão de ser no facto de que a tradição não é nem mesmo ainda suficiente, que portanto há ainda muito que investigar nela e que, sem dúvida, o seu material, por enorme que pareça, é ainda demasiado pequeno, pelo que terão que transcorrer séculos antes que se revele como suficiente. O obscuro nesta visão aos olhos do presente apenas está iluminado pela fé de que virá o tempo em que a tradição e sua investigação consequente ressurgirão de certo modo para pôr ponto final, que tudo será aclarado, que a lei apenas pertencerá ao povo e a nobreza terá desaparecido. Isto não é dito por ninguém e de modo algum com ódio contra a nobreza. Melhor, devemos odiar-nos a nós mesmos, por não sermos dignos ainda de ter lei. E por isso, esse partido, na realidade tão atraente sob certo ponto de vista e que não acredita, na verdade, em lei alguma, não aumentou as suas fileiras, e isso porque ele também reconhece a nobreza e o direito da sua existência.

Na realidade, isto apenas pode ser expresso com uma espécie de contradição: um partido que, com a crença nas leis, repudiasse a nobreza, teria imediatamente todo o povo ao seu lado, mas um partido semelhante não pode surgir porque ninguém se atreve a repudiar a nobreza. Vivemos sobre o fio deste cutelo. Um escritor resumiu isto certa vez da seguinte maneira: a única lei, visível e isenta de dúvida, que nos foi imposta, é a nobreza, e desta lei haveríamos de nos privar a nós mesmos?

Franz Kafka

Publicado por dolphin.s em julho 24, 2003 10:10 AM
Comentários

Sobre a questão das leis , é um texto muito complexo, porque envolve uma ciência jurídica, sobre esse assunto .
Mas o que eu poderia estar colocando aqui neste momento de reflexão , se as leis antigamente era
para os ricos , os nobre , o que resta para o povo . restava a desvantagem a impunidade, porque não tratavam nessa época os desiguais como os iguais .
Com a revolução Francesa essa concepção já mudou,
mas há um fato confuso na minha parte , poque já
que a revolução francesa foi feita pela classe
burguesa , e , aí como ficava a plebe .
Porque em toda revolução quem vai para a frente de batalhas são o povo e não os nobres , porque estes ficavam lá só mandando ...
A lei é de dereito de todos , do povo para o povo
de direito do povo , porque incluí toda uma ideologia social , de justiça social , porque o
mundo não é feito por alguns , que esses alguns
formaram uma massa popular que formaram o povo .

Dito por: Priscila Geraldo Medola no dia 6 de agosto 2004, às 16h18

Há uma Lei Natural que se ordena no próprio caos, que mesmo que não exista, estamos inserido nesse fluxo e sua dimensão ultrapassa os limites da razão;
Há uma outra Lei "Artificial", que da mesma forma inserida dentro desse contexto, a nossa ignorância o torna natural, imutável e eterna, mas esta tem sua origem na própria relação humana, relação de submissão à "Lei"; mas quando nossa razão questiona, os motivos dessa submissão, a Lei antes abstrata e estática apresenta-se Poderosa e Coercitiva;

Dito por: James no dia 21 de agosto 2004, às 22h01